Fora do ar desde 2023, “South Park” retornou com força total nesta quarta-feira (23), e não economizou nas críticas à chamada “segunda era Trump” nos Estados Unidos. No episódio de estreia da 27ª temporada, exibido ontem, a animação satirizou o atual presidente norte-americano, debochou do avanço da cultura anti-woke, ironizou a polêmica fusão entre a Paramount e a Skydance, e ainda fez referência ao cancelamento do “The Late Show with Stephen Colbert”.
Mas os criadores foram além: retrataram Donald Trump com um micropênis e em um relacionamento com Satanás. Como era de se esperar, as cenas provocaram reações da administração Trump, que divulgou um comunicado oficial nesta quinta-feira (24).
O episódio, intitulado “Sermon on the Mount” (“Sermão da Montanha”, em tradução livre), gira em torno de Trump processando qualquer um que se manifeste contra ele. A história começa com um arrasado Eric Cartman, ao descobrir que a NPR, emissora pública de rádio nos Estados Unidos — que ele define como “o programa onde lésbicas e judeus reclamam das coisas” —, foi cancelada por ordem do presidente.
Em depressão, Cartman lamenta não se sentir mais “especial” por ser do contra, já que o mundo se tornou, assim como ele, “anti-woke”, adotando a mesma postura contrária a conscientização e engajamento com pautas sociais, que antes ele via como marginal.
A trama se desenrola quando Stan Marsh, ex-eleitor de Trump, se revolta ao ver Jesus Cristo na escola e incita um protesto. A cidade inteira começa a se voltar contra o presidente. É nesse momento que vemos Trump em cena, retratado com um corpo minúsculo e seu rosto real colado digitalmente, envolvido em diversas situações absurdas. Ele briga com os canadenses, grita com um artista por ter pintado seu pênis pequeno demais (apesar de ser ‘do tamanho da foto’), tenta convencer seu namorado, Satanás, a fazer sexo com ele, e, ao ser informado de uma ligação vinda de South Park, decide processar a cidade pelos protestos.
Com os protestos ganhando força, Jesus Cristo desce dos céus, aparentemente para apoiar a causa. Mas, ao contrário das expectativas, ele surge para advertir a população: diz que South Park pode ser “cancelada” caso os protestos continuem, citando o recente acordo entre o programa “60 Minutes” e Trump como um alerta.
Jesus faz seu sermão em voz baixa e resignada: “Eu não queria voltar e estar na escola, mas tive que vir porque fazia parte de um processo judicial e de um acordo com a Paramount”.
Em seguida, adverte: “Se alguém tem o poder da presidência e também o poder de processar e aceitar propinas, então ele pode fazer qualquer coisa com qualquer um”. E pergunta: “Vocês realmente querem acabar como o Colbert?”
O episódio faz alusão direta ao acordo entre a Paramount (controladora da CBS) e Trump, referente a uma entrevista com Kamala Harris exibida em outubro. A empresa concordou em pagar US$ 16 milhões para encerrar o processo, afirmando que os valores seriam destinados à futura biblioteca presidencial de Trump — e não pagos a ele “direta ou indiretamente”.
Pouco tempo depois, a CBS cancelou o talk show de Stephen Colbert, um dos mais ferozes críticos de Trump. A justificativa oficial foi de ordem financeira, mas veículos internacionais apontaram indícios de censura por pressão política.
No desfecho do episódio, South Park aceita fazer um acordo com Trump no valor de US$ 3,5 milhões, além de lançar campanhas publicitárias pró-Trump. Assista a um trecho:
South Park faz sátira com Donald Trump pic.twitter.com/hQb4USmFTp
— WWLBD ✌🏻 (@whatwouldlbdo) July 24, 2025
South Park faz sátira com Donald Trump pic.twitter.com/hQb4USmFTp
— WWLBD ✌🏻 (@whatwouldlbdo) July 24, 2025
Casa Branca responde
Após a repercussão, a Casa Branca se manifestou oficialmente. A administração Trump criticou duramente a animação, no ar desde 1997, e a classificou como “irrelevante”.
Leia o comunicado na íntegra:
“A hipocrisia da esquerda realmente não tem limites — durante anos, eles atacaram South Park por conteúdos considerados ‘ofensivos’, mas agora, de repente, estão elogiando o programa. Assim como os criadores de ‘South Park’, a esquerda não tem conteúdo autêntico ou original, e é por isso que sua popularidade continua atingindo níveis historicamente baixos. Esse programa não é relevante há mais de 20 anos e está por um fio, com ideias sem inspiração numa tentativa desesperada de chamar atenção. O presidente Trump cumpriu mais promessas em apenas seis meses do que qualquer outro presidente na história do nosso país — e nenhum programa de quarta categoria vai atrapalhar a maré de vitórias do presidente Trump.”
Até o momento, o próprio Donald Trump não comentou publicamente o episódio. Apesar da Casa Branca afirmar que “South Park” está “por um fio”, a série foi renovada por mais cinco anos pela Paramount, com 50 episódios garantidos. O acordo com os criadores Trey Parker e Matt Stone foi de 1,5 bilhões de dólares, ou 8,28 bilhões de reais.
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques