As idosas japonesas têm tomado medidas extremas para lidar com a solidão e o alto custo de vida. De acordo com uma reportagem da CNN Internacional, as mulheres estão cometendo crimes para permanecer na prisão. O World Prision Brief (WPB), uma organização que monitora a situação das prisões no mundo, aponta que 9,1% dos prisioneiros do país são mulheres.
A CNN visitou a maior prisão feminina do Japão, a Tochigi, localizada em Tóquio, para analisar de perto a situação. “Há até pessoas que dizem que pagariam 20 mil ou 30 mil ienes (R$ 750 ou R$ 1.090) por mês [se pudessem] para viver aqui para sempre”, afirmou Takayoshi Shiranaga, oficial da Prisão Feminina de Tochigi.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 20% das pessoas com mais de 65 anos no Japão vivem na pobreza, Assim, para muitas dessas mulheres, ir para a cadeia acaba sendo uma alternativa melhor do que viver em liberdade. Em 2022, mais de 80% das idosas presas em todo o país tinham sido condenadas por crimes de roubo.
A matéria CNN usou nomes fictícios para as detentas. “Há pessoas muito boas nesta prisão. Talvez esta vida seja a mais estável para mim”, disse a presidiária Akiyo, de 81 anos. Akiyo foi presa aos 60 anos por roubar comida e, agora, está em sua segunda condenação, cujo motivo não foi divulgado.
Antes de ser presa, o filho dela de 43 anos, com quem morava, costumava dizer que queria que ela fosse embora de casa. “Senti que não me importava mais com o que acontecia. Pensei: ‘Não faz sentido viver e eu só quero morrer'”, afirmou ela. No presídio, as detentas precisam trabalhar nas fábricas prisionais, mas recebem refeições regulares e assistência médica gratuita. A companhia de outras pessoas também é um fator importante para elas.
As detentas não escondem que cometem crimes propositalmente. Yoko, de 51 anos, por exemplo, foi presa por tráfico de drogas cinco vezes nos últimos 25 anos. “[Algumas pessoas] fazem isso de propósito e são pegas para poderem voltar para a prisão, se ficarem sem dinheiro. Se eu tivesse estabilidade financeira e um estilo de vida confortável, definitivamente não teria feito isso”, disse ela.

Yoko atualmente é formada como cuidadora de idosos. Devido a alta demanda, ela atua como cuidadora quando não há funcionários para cuidar das detentas. Entre as suas funções está ajudar as colegas a tomar banho, se locomover ou trocar de roupa.
Na prisão de Tochigi, uma em cada cinco encarceradas é idosa, o que levou a própria cadeia a adequar o funcionamento ao perfil das presas. “Agora temos que trocar as fraldas delas, ajudá-las a tomar banho, comer. A essa altura, parece mais uma casa de repouso do que uma prisão cheia de criminosos condenados”, afirmou a oficial.
O Ministério do Bem-Estar Social do Japão reconheceu em 2021 que os idosos que recebiam auxílio após serem soltos tinham uma probabilidade menor de reincidência de crimes. Por isso, as autoridades estão analisando a situação e vêm tentando atuar no apoio aos idosos vulneráveis.
Outro órgão que tomou medidas foi Ministério da Justiça, que lançou programas voltados às presidiárias. O intuito é orientá-las a buscar uma vida independente, o que inclui temas sobre como lidar com relacionamentos familiares. Também há uma iniciativa governamental de tentar ampliar os benefícios de moradia aos idosos.
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques