Uma nova pesquisa apontou que pessoas que interrompem o uso de canetas emagrecedoras podem recuperar os quilos perdidos até quatro vezes mais rápido do que aquelas que suspenderam um programa de dieta e exercícios físicos. O estudo foi publicado nesta quinta-feira (8), na revista científica britânica British Medical Journal.
Os atuais tratamentos contra diabetes aumentam a ação de um hormônio natural atuante na secreção da insulina (GLP-1, peptídeo que se assemelha ao glucagon tipo 1) e na sensação de saciedade. Esses medicamentos também se tornaram frequentes no combate à obesidade e na perda de peso.
De acordo com os dados, os tratamentos com as canetas emagrecedoras ajudam a perder entre 15% e 20% do peso. “Tudo isso parece uma boa notícia“, declarou a pesquisadora Susan Jebb, da Universidade de Oxford. No entanto, segundo a especialista, “aproximadamente metade das pessoas abandona esses medicamentos no período de até um ano”.
A interrupção pode estar relacionada tanto aos efeitos colaterais, como náuseas e enjoos, quanto aos preços elevados dos medicamentos. Nos Estados Unidos, as canetas podem ultrapassar o valor de US$ 1 mil, equivalente a R$ 5.387 (na cotação atual). No Brasil, o preço sugerido para as fabricações nacionais varia entre R$ 300 e R$ 800.

Os pesquisadores analisaram 37 estudos, com mais de 9 mil pacientes, para comparar o emagrecimento por meio das canetas com outras dietas convencionais. Eles constataram que, após a interrupção do tratamento com injeções, os participantes recuperaram, em média, 0,8 kg por mês.
Seis dos testes clínicos se concentraram na semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, e na tirzepatida, utilizada no Mounjaro. Durante a administração dessas moléculas, os pacientes perderam cerca de 15 kg, em média. Após a suspensão, eles recuperaram 10 kg em um ano, o período de acompanhamento mais longo para esses medicamentos recentes.
Uma projeção dos pesquisadores apontou que os pacientes voltarão ao peso inicial em uma média de 18 meses. Os indicadores cardiovasculares, como a pressão arterial e o nível de colesterol, retornaram aos valores originais em um ano e quatro meses. Por outro lado, aqueles que seguiram um plano alimentar saudável e atividades físicas, sem o uso das injeções, emagreceram muito menos, mas levaram cerca de quatro anos para recuperar o peso perdido.
Diante desse resultado, conclui-se que as pessoas que usaram as canetas emagrecedoras recuperaram o peso quatro vezes mais rápido. “Uma perda de peso significativa tende a acarretar uma recuperação do peso mais rápida“, explicou Sam West, da Universidade de Oxford, que também liderou o estudo.

Outra explicação plausível é que os pacientes que se habituaram a fazer dieta e exercícios continuaram a fazê-lo mesmo quando recuperam peso. Embora os medicamentos do tipo GLP-1 “sejam uma ferramenta valiosa no tratamento da obesidade, ela é uma doença crônica e recorrente”, salientou Jebb, que também espera que esses tratamentos sejam mantidos “para o resto da vida, assim como os fármacos contra a hipertensão”.
“Estes novos dados mostram claramente que são um ponto de partida, não uma cura“, alertou Garron Dodd, pesquisador em neurociência metabólica na Universidade de Melbourne. “Um tratamento sustentável provavelmente exigirá abordagens combinadas, estratégias de longo prazo e terapias que revisem a forma como o cérebro interpreta o equilíbrio energético, e não apenas a quantidade de alimentos ingeridos“, completou.
Em nota ao hugogloss.com, a empresa Novo Nordisk, responsável pelo Wegovy, se pronunciou sobre a pesquisa. Confira a nota abaixo:
“O Wegovy® (semaglutida injetável 2,4mg) é, de fato, indicado para o controle do peso, e é esperado que algum grau de reganho possa ocorrer em caso de descontinuação do medicamento. Um estudo conduzido pela própria Novo Nordisk, publicado em 2022 a partir do ensaio clínico STEP 1, demonstrou que a interrupção do tratamento com semaglutida resultou no reganho de cerca de dois terços do peso perdido ao longo de 52 semanas. Esses achados reforçam o caráter crônico da obesidade e sugerem que o tratamento contínuo é necessário para a manutenção das melhorias no peso e na saúde geral dos pacientes, de forma semelhante ao manejo de outras condições crônicas, como diabetes ou hipertensão. É importante ressaltar que pacientes em tratamento com semaglutida 2.4 mg alcançaram uma perda de peso média de 17%, com um terço dos participantes perdendo mais de 20% do peso corporal inicial. O estudo SELECT demonstrou que essa perda de peso é mantida por até 4 anos, um marco na luta contra o efeito sanfona, característico da obesidade como doença crônica”.
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