Kurt Cobain: Nova análise forense contesta versão oficial sobre morte do cantor e aponta outra conclusão

Relatório publicado em revista científica revisou evidências do caso e levantou questionamentos sobre a conclusão de suicídio registrada em 1994

Quase 32 anos após a morte de Kurt Cobain, um novo relatório forense revisou a autópsia e registros da cena. A análise questiona a conclusão oficial de suicídio definida em 1994.

Em 5 de abril de 1994, Kurt Cobain, ícone do rock alternativo, morreu aos 27 anos. Segundo a investigação oficial, o cantor teria cometido suicídio com uma espingarda Remington Modelo 11, calibre 20. Quase 32 anos após a tragédia, uma equipe privada de cientistas forenses reabriu o caso e apontou inconsistências na autópsia e nos registros da cena da morte. As novas evidências, segundo o grupo, contrariam a hipótese de suicídio.

O novo relatório, publicado no International Journal of Forensic Science, argumenta que elementos médicos e circunstanciais da cena “não seriam compatíveis” com uma morte por overdose seguida de disparo de arma de fogo. Michelle Wilkins, pesquisadora independente envolvida na análise, afirmou que apenas três dias de reavaliação das evidências, sob uma nova perspectiva, foram suficientes para que a equipe concluísse que a morte de Cobain teria sido um homicídio.

A conclusão foi baseada na revisão por pares de dez pontos considerados cruciais, que sugerem que o cantor pode ter sido confrontado por um ou mais agressores. Eles apontam que Cobain teria sido forçado a ingerir uma overdose de heroína para ser incapacitado e, em seguida, atingido por um disparo na cabeça. Segundo a hipótese apresentada, a arma teria sido posicionada em seus braços e uma carta de suicídio, forjada, deixada no local.

“Há coisas na autópsia que fazem você pensar: espera aí, essa pessoa não morreu muito rapidamente com um tiro de espingarda. A necrose do cérebro e do fígado acontece em overdose. Não acontece em morte por espingarda”, explicou Wilkins, destacando os danos aos órgãos associados à privação de oxigênio.

Durante a investigação original, a polícia afirmou que Cobain teria injetado uma quantidade de heroína dez vezes superior à normalmente consumida até mesmo por usuários pesados. A nova análise, no entanto, contesta essa afirmação. O relatório aponta que as mangas da camisa do cantor estavam arregaçadas e que o kit de heroína foi encontrado a alguns metros do corpo, incluindo seringas tampadas, cotonetes e pedaços de heroína preta de tamanho semelhante.

“Supõe-se que devamos acreditar que ele fechou as agulhas e colocou tudo de volta em ordem depois de se injetar três vezes, porque é isso que alguém faz enquanto está morrendo. Suicídios são complicados, e esta foi uma cena muito limpa”, afirmou Wilkins.

A autópsia original, divulgada em 20 de junho de 1994, constata ainda que o corpo de Kurt foi encontrado no chão da estufa acima da garagem. Diversos papéis estavam no bolso frontal esquerdo da calça jeans de Cobain, entre eles uma anotação em tinta preta com os dizeres: “Remington calibre 20 cartuchos 2-3/4 ou menores carga leve 10888925”.

Para Wilkins, esses elementos indicariam possível manipulação da cena: “Para mim, parece que alguém encenou um filme e quis que você tivesse absoluta certeza de que foi suicídio. O recibo da arma está no bolso dele. O recibo dos cartuchos está no bolso dele. Os cartuchos estão alinhados aos pés dele”.

Além da análise do local, a autópsia original apontou líquido nos pulmões, hemorragia ocular e danos no cérebro e no fígado. A nova avaliação sustenta que esses achados seriam incomuns em uma morte rápida por disparo de espingarda, mas compatíveis com um quadro de overdose, caracterizado por respiração lenta e redução do fluxo sanguíneo.

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O relatório reforça que o sangramento ocular e as lesões nos órgãos sugerem privação de oxigênio anterior ao disparo fatal. Em mortes por tiro na cabeça, é comum a presença de sangue nas vias respiratórias — detalhe que, segundo os autores, não foi descrito no laudo original. A análise também aponta que o tronco encefálico, que controla a respiração, provavelmente não teria sido danificado pelo disparo, e que a posição do braço de Cobain não indicava a rigidez típica observada em lesões graves nessa região.

Por isso, os pesquisadores acreditam que ele já estaria fisicamente incapacitado antes do tiro. “Ele está morrendo de overdose, mal consegue respirar, o sangue não está circulando direito… Isso significa que o cérebro e o fígado não estão recebendo oxigênio, estão sendo privados e estão morrendo”, explicou Wilkins.

Ela acrescentou que o tamanho e a mecânica da arma tornariam improvável que Cobain, em estado de coma, conseguisse manuseá-la: “Se você olhar as fotos da cena do crime, verá o tamanho daquela arma. Imagine que ele está em coma e morrendo, e ainda assim teria que segurá-la daquela forma… são quase três quilos”.

A posição das mãos de Kurt e a ausência de respingos de sangue também levantaram questionamentos. A mão esquerda do cantor estava firmemente apoiada na parte frontal do cano da arma, enquanto o cartucho foi encontrado sobre uma pilha de roupas, em direção oposta à esperada ejeção. “Então ele está morrendo de overdose. Quer dizer, está em coma, e segurando a arma para alcançar o gatilho e colocá-la na boca. É loucura”, disse a pesquisadora.

O Gabinete do Médico Legista do Condado de King, em Washington, confirmou ter realizado uma autópsia em 1994 e determinado a causa da morte como suicídio. Após o novo relatório, o órgão afirmou estar aberto a revisar a conclusão, caso surjam novas evidências substanciais. Contudo, as autoridades dizem “não ter recebido material que justifique a reabertura do caso até o momento”.

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