Gisèle Pelicot abordou os estupros que sofreu a mando do próprio marido, Dominique, ao longo de 10 anos. Em entrevista a Cecilia Malan, para o “Fantástico” deste domingo (22), ela contou como reagiu aos crimes e detalhou o doloroso momento em que comunicou os três filhos. Pelicot ainda revelou que deseja visitar o ex-parceiro na prisão a fim de obter “respostas”.
O caso, que chocou a França, veio à tona em 19 de setembro de 2020. Dominique Pelicot foi flagrado filmando sob as saias de três mulheres em um supermercado. Gisèle foi intimada pelas autoridades francesas a depor na delegacia, e foi então que um delegado revelou imagens dos estupros encontradas no computador de Dominique.
Durante uma década, ela foi dopada pelo ex-marido e entregue a dezenas de homens para estupros filmados. “Esse lado sombrio, nós nunca o vimos. Eu nunca descobri, até que aprendi a fazer isso“, afirmou. Conforme Gisèle, a descoberta aconteceu durante seu depoimento na delegacia. O delegado, que admitiu ter passado oito noites sem dormir antes de revelar o caso, apresentou, em 2 de novembro de 2020, fotos de uma mulher desacordada sendo abusada por desconhecidos.
“O interrogatório me pareceu estranho. Perguntaram o meu nome, há quanto tempo eu era casada e como eu definiria o senhor Pelicot. ‘Um homem atencioso’, eu disse. ‘Faz 50 anos que vivo com esse senhor. Não entendo como ele chegou a esse ponto’. [O delegado] começa a me mostrar fotos. Confesso que não entendo muito bem, vejo uma mulher dormindo, que não reconheço, e um homem, que também não reconheço“, compartilhou.

Gisèle, então, relembrou o choque ao saber que se tratava dela mesma. “O delegado me diz: ‘É você’, e eu respondo: ‘Não, não sou eu’. Mais uma foto e ele começa a perceber que não estou entendendo nada. Coloco meus óculos pra tentar compreender e ele me pergunta: ‘A senhora conhece esse homem?’. E respondo: ‘Claro que não’. Então, ele disse: ‘Esse dossiê diz respeito ao seu marido, estamos investigando ele há meses’. Nesse momento, meu cérebro já não processa mais nada. Eu me desconecto, não escuto mais nada“, relatou.
A francesa contou que após deixar a delegacia, ligou para uma amiga e disse, pela primeira em “voz alta”, que o marido havia a estuprado. “Dominique me estuprou, ele me fez ser estuprada“, declarou. A parte mais dolorosa, segundo ela, foi contar para os três filhos do casal. “Foi o momento mais difícil da minha vida como mãe. Como você diz para seus filhos: ‘Seu pai me estuprou e me fez ser estuprada por 10 anos?’. Foi um golpe devastador para eles também. Foi tão violento. Eu ainda consigo ouvir minha filha gritando na sala, e eu dizendo para o meu filho não a deixar sozinha“, relembrou.
Dominique recrutava os agressores em fóruns online. Durante dois anos e meio de investigação, a polícia chegou ao número de 80 homens, entre 22 e 70 anos, considerados “comuns” na região de Mazan, onde o casal residia na época. “Tinha um vizinho que eu via com frequência. Eu ia à padaria e ele dizia: ‘Bom dia, senhora’. Era um homem na casa dos quarenta, pai de quatro filhos. Mesmo assim, veio à minha casa e me estuprou. E eu, que não me lembrava de nada, respondia: ‘Olá, senhor’“, desabafou.
Durante o período em que era dopada, Gisèle sentiu que a sua saúde estava falhando, porém, não sabia o motivo. Ela sofria com apagões de memória e chegou a sofrer um acidente de carro. “Não lembrava o que tinha feito na véspera… Meus filhos diziam que eu estava com a voz enrolada, como se tivesse bebido“, contou.
A francesa chegou a procurar neurologistas e ginecologistas, mas Dominique participava das consultas e minimizava os sintomas. “Tá vendo, tá tudo bem, não precisa preocupar as crianças com isso“, dizia ele. “Como alguém poderia imaginar isso de um homem casado há 50 anos com a mesma mulher? Nós somos avós. Eles (os médicos) não tinham como adivinhar“, refletiu.

Em dezembro de 2024, 50 homens foram julgados no Tribunal de Avignon e condenados. Dominique recebeu uma pena de 20 anos de prisão – a máxima imposta para estupro no país. “Trinta deles ainda estão vagando por aí, não foram presos até hoje“, alertou Gisèle. O julgamento durou quatro meses. Ela escolheu abrir mão do anonimato e permitiu que as audiências fossem públicas, mesmo diante da hostilidade das defesas dos réus. “Diziam: ‘Você é cúmplice, consentiu’. Obviamente, não é inocente’. Esse comportamento das advogadas mulheres me humilhou. Para nós, vítimas, a punição é dupla: o sofrimento que passamos e a luta contra essa vergonha“, afirmou.
Um ano após as condenações, Gisèle lança a autobiografia “Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado”, que chega ao Brasil em 24 de fevereiro pela Companhia das Letras. Além de sua história, ela reforça que a culpa deve ficar com os agressores, jamais com as vítimas e sobreviventes.
“Fiquei muito emocionada de ver todas aquelas mulheres chegando ao tribunal. Nunca imaginei, por um segundo, que minhas palavras teriam um impacto tão amplo, até mesmo fora do meu país. Tenho orgulho de ter compartilhado meu exemplo e ter usado meu nome como símbolo. Sinto uma responsabilidade com essas mulheres. A sociedade precisa evoluir. Os homens precisam assumir a responsabilidade… Isso envolve educação desde muito cedo. Respeito, consideração pelos outros… Não devemos tolerar a dominação sobre as mulheres”, destacou.
Apesar do trauma, Gisèle mantém o sobrenome Pelicot para que os netos não carreguem vergonha do nome. Ela também revelou que planeja visitar Dominique na prisão, e explicou o motivo. “Preciso olhar nos olhos dele e perguntar por quê. Preciso de respostas. Talvez elas não mudem nada, mas é como sigo em frente com a minha vida. Dizer a ele que sou uma mulher feliz, em paz e serena. O livro é uma forma de dizer que hoje sou uma mulher livre novamente, que ama novamente, que confia novamente. E que estou de pé, sempre de pé“, concluiu.
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