Família de Eliza Samudio divulga carta aberta e cobra prisão de ex-goleiro Bruno após fuga; leia a íntegra

Ex-jogador é considerado foragido pela Justiça do Rio de Janeiro

A família de Eliza Samúdio cobrou a prisão de Bruno Fernandes, condenado pelo assassinato dela e considerado foragido pela Justiça do Rio de Janeiro. Em carta, os familiares pediram apuração sobre possíveis violações e cobraram medidas mais rigorosas das autoridades.

A família de Eliza Samudio voltou a cobrar a prisão do ex-goleiro Bruno Fernandes, condenado pelo assassinato dela e, atualmente, considerado foragido pela Justiça do Rio de Janeiro. Em carta aberta enviada ao g1 nesta terça-feira (17), a mãe da vítima, Sônia Fátima Moura, e a madrinha de Bruninho, Maria do Carmo dos Santos, fizeram um apelo às autoridades e denunciaram o que classificam como falhas no cumprimento da pena. No documento, elas afirmam que um “feminicida desfila impune”.

As duas pedem que a Vara de Execução Penal investigue, entre outros pontos, as viagens feitas por Bruno nos últimos anos, além de cobrar uma atuação mais rigorosa do Ministério Público diante do descumprimento das regras do livramento condicional. “Pedimos, ainda, que Bruno Fernandes seja responsabilizado criminalmente pela fuga e por cada violação cometida. E pedimos que o Estado brasileiro reconheça que, ao tratar um feminicida com tamanha leniência, envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que o crime compensa, a de que a vida de mulheres como Eliza não vale nada”, diz um trecho da carta.

Segundo o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Bruno foi considerado foragido após descumprir medidas impostas para a manutenção do livramento condicional. Diante disso, a Vara de Execuções Penais revogou o benefício e expediu um mandado de prisão no último dia 5 de março. O ex-goleiro, no entanto, não se apresentou às autoridades. A defesa recorreu da decisão, e o caso segue em análise pelo Ministério Público.

Na carta, Sônia e Maria do Carmo descrevem um cenário de dor, revolta e sensação de impunidade. Elas afirmam que o sistema de Justiça tem falhado ao não garantir o cumprimento da pena, e relatam que Bruno estaria, há anos, descumprindo exigências básicas, como manter o endereço atualizado e comparecer para assinar documentos obrigatórios.

Ainda de acordo com o documento, desde 2023 o ex-jogador não era localizado para cumprir essas obrigações sem que houvesse uma resposta imediata das autoridades. As familiares também citam viagens realizadas por ele a estados como Espírito Santo, Minas Gerais e Acre, mesmo com restrições judiciais.

Goleiro Bruno (2)
O goleiro Bruno foi condenado por assassinar Eliza Samudio em 2013 (Fotos: Reprodução; G1/ Redes Sociais)

Um dos episódios que mais gerou indignação foi a ida de Bruno ao Acre, em fevereiro deste ano. Segundo a carta, ele participou de uma partida de futebol pelo Vasco-AC sem autorização da Justiça o que, pelas regras do regime, não seria permitido, já que ele não poderia deixar o estado do Rio de Janeiro. Para a família, a situação representa uma “afronta”, especialmente porque o corpo de Eliza nunca foi localizado.

As duas também destacam que, enquanto o ex-goleiro segue aparecendo publicamente, a família da vítima continua lidando com o luto e a falta de respostas. Elas afirmam que Bruno negou a paternidade do filho por anos e que, há cerca de quatro anos, não contribui financeiramente com sua criação.

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No documento, Sônia e Maria do Carmo reforçam que não buscam vingança, mas justiça. Entre os pedidos feitos às autoridades estão a investigação das viagens sem autorização, o cumprimento integral da pena e a responsabilização de Bruno por cada violação das regras judiciais. Elas também afirmam que seguirão denunciando o caso e cobrando providências.

Bruno foi condenado em 2013 a mais de 22 anos de prisão por crimes relacionados à morte de Eliza Samudio, incluindo feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver. O caso teve grande repercussão nacional e, até hoje, o corpo da vítima não foi encontrado. O Disque Denúncia divulgou um comunicado pedindo informações sobre o paradeiro do ex-goleiro.

Leia a carta na íntegra:

“CARTA ABERTA ÀS AUTORIDADES

Excelentíssimas Autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, À sociedade brasileira,

À imprensa

Nós, Sônia Fátima Moura, mãe de Eliza Samudio e Maria do Carmo dos Santos, madrinha de seu filho Bruninho, dirigimos -nos a Vossas Excelências e ao povo brasileiro com o coração pesaroso, mas ainda firme na luta por justiça.

Escrevemos esta carta em um momento em que a dor, a angústia e a indignação parecem ter se naturalizado em nossas vidas.

Escrevemos porque o silêncio não é uma opção. Escrevemos porque o sistema judiciário, que deveria proteger e garantir o cumprimento das leis, tem falhado reiteradamente conosco — e, por extensão, com toda a sociedade.

O CASO

Bruno Fernandes, condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão pelos crimes de feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver contra Eliza Samudio, encontra-se foragido. Apesar de decisão judicial que determinou sua prisão, ele segue em liberdade — uma liberdade que, como provam os fatos, nunca lhe foi totalmente cerceada.

Desde 2023, Bruno não era localizado para assinar o Termo de Compromisso do Livramento Condicional. A Vara de Execução Penal levou três anos para tomar qualquer providência.

Enquanto isso, além de ir assistir ao jogo no Maracanã a noite como se livre fosse, ele viajava livremente: para o Espírito Santo (01), para Minas Gerais (08) e para o Acre (01) — sempre com a complacência de um sistema que parece incapaz de monitorar quem deveria estar sob regime semiaberto. O DEBOCHE À JUSTIÇA

No dia 15 de fevereiro de 2026, apenas cinco dias após oficializar sua progressão de regime, Bruno viajou sem autorização judicial para o estado do Acre, onde participou de uma partida de futebol pelo time Vasco-AC, no Campeonato Brasileiro. Acompanhada e divulgada nas redes sociais não apenas pela indignação da contratação do Goleiro Bruno, mas também pela afronta de uma homenagem a jogadores presos sob suspeita de estupro coletivo.

A cena é estarrecedora: enquanto um feminicida condenado desfila impune, a mãe de sua vítima nunca pôde enterrar a filha, e o filho órfão nunca teve acesso aos restos mortais da própria mãe.

A AFRONTA ÀS VÍTIMAS

Enquanto Bruno desfruta de privilégios incompatíveis com sua condição de apenado, nós, familiares de Eliza, somos sistematicamente atacados. Somos cobrados, silenciados, invisibilizados. Enquanto ele recebe autógrafos e holofotes, nós seguimos tentando sobreviver ao luto sem corpo, à dor sem reparação, à ausência sem justiça.

Bruno recusou-se por duas vezes a realizar exame de DNA, negando a paternidade por anos. Pagou pensão apenas uma vez, – 2 anos acumulados — o suficiente para evitar a prisão. Há quase quatro anos, não contribui com um centavo para a criação do próprio filho. E, ainda assim, o Estado não o notificou? Não o localizou? Não agiu? Como um apenado não é encontrado pela justiça se é obrigado ter seu endereço atualizado? A PERGUNTA QUE NÃO SE CALA

Quantas mulheres precisarão morrer ou serem espancadas, mutiladas para que o sistema judiciário leve a sério o cumprimento das penas de criminosos e feminicidas?

Quantas famílias precisarão clamar por justiça para que a Vara de Execução Penal cumpra seu papel com eficiência, eficácia e efetividade?

Quantos Brunos Fernandes precisarão rir da lei, em praça pública, para que o Judiciário reaja com a devida gravidade?

NOSSO PEDIDO

Não pedimos vingança. Pedimos justiça. Pedimos o cumprimento integral da lei. Pedimos que a Vara de Execução Penal investigue todas as viagens não autorizadas realizadas por Bruno Fernandes nos últimos anos. Pedimos que o Ministério Público atue com rigor diante do descumprimento reiterado das exigências da Lei de Execução Penal. Pedimos que o Poder Judiciário e a Vara de Execução Penal garanta que a pena imposta seja, de fato, cumprida.

Pedimos, ainda, que Bruno Fernandes seja responsabilizado criminalmente pela fuga e por cada violação cometida. E pedimos que o Estado brasileiro reconheça que, ao tratar um feminicida com tamanha leniência, envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que o crime compensa, a de que a vida de mulheres como Eliza não vale nada.

NOSSO COMPROMISSO

Seguiremos firmes. Seguiremos denunciando. Seguiremos ocupando o lugar que nos foi negado: o de vítimas que exigem respeito, que exigem justiça, que exigem memória. Não nos calaremos. Não desistiremos. E enquanto houver fôlego, lutaremos para que o nome de Eliza Samudio não seja apenas lembrado como mais uma vítima, mas como símbolo da luta por um país onde feminicidas não sejam tratados como celebridades.

Atenciosamente,

Sônia Fátima Moura

Mãe de Eliza Samudio, Ativista de Direitos Humanos

Maria do Carmo dos Santos

Madrinha de Bruninho, Ativista de Direitos Humanos e Presidente do Vítimas Unidas

Brasil, 16 de março de 2026″.

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