A professora Célia Maria Cassiano, de 67 anos, realizou um procedimento de morte assistida, nesta quarta-feira (15), em Zurique, na Suíça. Em um vídeo de despedida no Instagram, ela afirmou ter vivido “uma vida deliciosa” e defendeu que a prática seja um direito garantido por lei no Brasil.
A brasileira foi diagnosticada, em outubro de 2024, com Atrofia Muscular Progressiva (AMP), uma doença rara e degenerativa que afeta os neurônios motores inferiores, resultando na perda gradual da força e massa muscular. Ao longo dos meses, Célia passou a usar as redes sociais para falar abertamente sobre a enfermidade, compartilhando principalmente as dificuldades motoras.
Em uma gravação feita em dezembro de 2025, a professora afirmou que vivia os seus “piores pesadelos” com a doença. “Porque não tenho ideia de como eu estarei amanhã. Você está presa dentro do seu corpo, seu corpo está perdendo os movimentos, e toda essa dificuldade para sair e se movimentar em casa“, lamentou.
Célia também desabafou sobre ter que depender de cuidadores, inclusive para a alimentação e cuidados íntimos. “Eu consigo fazer alguns passeios, dependendo da boa vontade de quem me convidou. A maior parte do tempo fico com cuidadores, fisioterapeutas, farmacêuticos, médicos, terapeutas, pessoas para as quais estou pagando para cuidar de mim“, compartilhou.

Em março deste ano, depois de notar alterações na voz, ela criou um documento com Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), no qual afirmava que não aceitaria passar por procedimentos invasivos para prolongar sua vida. Célia explicou que a decisão de lutar pelo direito da morte assistida foi tomada há pouco mais de um ano, principalmente pela sua vontade de não ficar dependente de outras pessoas ou necessitar de aparelhos no futuro.
Durante os últimos sete meses, Célia procurou intensamente uma instituição na Suíça, onde a morte assistida é legalizada. Em seu relato no Instagram, ela contou ter tido dificuldade ao pedir ajuda para realizar o processo no Brasil. Para viajar, a professora disse para os conhecidos que iria ao país europeu participar de um experimento clínico para um novo medicamento.
A despedida
Em um vídeo no Instagram, Célia se desculpou por não ter falado sobre o procedimento e afirmou que escolheu a morte do jeito que quis, com duas enfermeiras e sem sentir dor alguma. “Estou no limite da minha dignidade. Vivi uma vida deliciosa e os últimos dias aqui foram os melhores da minha vida. Conheci museus maravilhosos, agradeço a generosidade de pessoas que eu não tinha nem muita certeza porque eu estava aqui, mas que se prontificaram a vir me ajudar no meu tratamento aqui“, declarou.
Por fim, a brasileira deixou uma mensagem importante sobre a prática. “Foram os melhores momentos, porque eu sabia que não ia ficar presa em uma cama. Daqui a pouco vou descansar para sempre, como todos nós vamos. Isso o que estou fazendo comigo, vai acontecer com tudo mundo. Todo mundo vai morrer. Então, eu só quis anteceder isso. Lutem por esse direito no Brasil, uma lei que permita uma escolha para quem assim desejar“, completou.

Além do suicídio assistido, a eutanásia também é considerada ilegal no Brasil. No Código Penal brasileiro, os dois atos são entendidos como homicídio ou indução ao suicídio. A única prática regulamentada no país pelo Conselho Federal de Medicina é a ortotanásia, ou seja, quando um paciente em estado terminal decide não passar por intervenções que prolonguem a vida e permite que a morte ocorra de forma natural.
Graduada em Ciências Sociais e Mestre em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Célia atuava como docente no SESC Campinas (Serviço Social do Comércio) e na ESAMC (Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação de Campinas).
Assista ao vídeo:
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaquesÚltimo vídeo de Célia Maria Cassiano antes de realizar o procedimento de morte assistida, na Suíça pic.twitter.com/d2JgPNoKhQ
— WWLBD ✌🏻 (@whatwouldlbdo) April 17, 2026