Fantástico divulga áudios inéditos, que complicam MC Ryan em investigação da PF: ‘Eu tava arregaçando’; assista

Investigação da Polícia Federal aponta envolvimento de funkeiros em rede ligada a rifas clandestinas e apostas ilegais

Áudios revelados pelo Fantástico, neste domingo (19), ligam MC Ryan SP a uma investigação da Polícia Federal sobre um esquema bilionário envolvendo rifas clandestinas e apostas ilegais, com atuação em diferentes estados do país.

Neste domingo (19), o Fantástico detalhou a operação da Polícia Federal que investiga um suposto esquema bilionário de lavagem de dinheiro baseado na exploração de rifas clandestinas. No centro do caso estão nomes conhecidos do funk, como os MCs Ryan SP e Poze do Rodo, presos em uma operação na última quarta-feira (15).

Batizada de Operação Narco Fluxo, a investigação teve origem em outra ação, a Operação Narco Bet, deflagrada no ano passado. Durante a ofensiva, foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos. Policiais também encontraram armas e um colar com a imagem do narcotraficante colombiano Pablo Escobar dentro de um mapa do estado de São Paulo.

A ação, deflagrada na última quarta-feira (15), cumpriu 33 de 39 mandados de prisão em oito estados e no Distrito Federal e resultou na prisão dos dois artistas: Ryan, em Bertioga (SP), e Poze do Rodo, no Rio de Janeiro. Houve, ainda, o cumprimento de 45 mandados de busca e apreensão em diversos estados. Segundo a investigação, há ainda ligações com o PCC e o Comando Vermelho.

“Eles (Poze e MC Ryan) tinham um papel importante no esquema de lavagem de dinheiro. Eram eles que detinham as contas utilizadas para que o dinheiro obtido de maneira ilícita pudesse circular, pudesse se confundir com os recursos lícitos”, pontuou o delegado da PF de São Paulo, Roberto Costa da Silva.

Em áudios divulgados pelo dominical da TV Globo, MC Ryan revelou como lucrava com aplicativos de apostas ilegais. Segundo a PF, os valores eram obtidos por meio de rifas clandestinas e jogos ilegais e, na sequência, inseridos no sistema financeiro com aparência de legalidade.

As quantias exorbitantes se misturavam a outras receitas, como cachês de shows, contratos musicais e publicidade digital. O sistema de transações pulverizadas era complexo e movimentou cerca de R$ 1,6 bilhão. Em um dos episódios citados no inquérito, uma transação de R$ 5 milhões foi transformada em quase 500 transferências de R$ 10 mil cada.

Ryan, Poze do Rodo, Raphael Souza, o dono da página “Choquei”, e Chrys Dias foram presos em operação da PF (Foto: Reprodução/Instagram)

A estratégia dependia da visibilidade dos funkeiros, o que impulsionava o fluxo financeiro e permitia a camuflagem de valores ilegais em contas com alto volume de movimentação. “As redes sociais são utilizadas para captar seguidores e isso impulsiona o fluxo financeiro nas contas que eles detêm, permitindo que outros recursos de origem ilícita também ingressem e gerem essa confusão”, explicou o delegado.

Em uma das gravações, MC Ryan aparece em conversa com o contador Rodrigo Morgado, reforçando a importância de manter as minúcias do sistema em sigilo: “Nunca é bom falar dos resultados das plataformas, tá ligado? Na época do Tigrinho tava bom mesmo, eu tava arregaçando”.

A polícia aponta que Morgado — responsável por estruturar empresas, intermediar pagamentos, orientar sobre proteção patrimonial e operar a conversão de recursos, inclusive em criptomoedas — fornecia o suporte técnico para que o dinheiro circulasse sem levantar suspeitas.

“Eu tenho um cliente aqui que tem uma casa de aposta e queria saber quanto que tá pra você divulgar a casa dele”, perguntou Morgado a Ryan. “Já que é seu amigo, eu cobro R$ 300 [mil]. Mas se não for muito seu amigo, pode falar que é R$ 400 [mil], respondeu o artista. Além dos valores em dinheiro, MC Ryan também recebia milhões em criptomoedas.

A conexão entre os núcleos de São Paulo e do Rio de Janeiro no esquema bilionário seria feita por um sócio de MC Poze do Rodo. Nesta fase da operação, a PF apreendeu bens avaliados em aproximadamente R$ 20 milhões. “Pelas contas dos investigados, passaram recursos de origens ilícitas de uma diversa gama de crimes, dentre os quais, tráfico de drogas e crimes relacionados ao sistema financeiro, como apostas e jogos ilegais”, revelou o delegado Roberto Costa da Silva.

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Como funciona o esquema

Segundo o delegado Marcelo Maceira, também envolvido na investigação, o dinheiro teria origem em apostas ilegais, rifas digitais clandestinas e tráfico internacional de drogas. O esquema, que movimentou cerca de R$ 1,6 bilhão, começava com ganhos em plataformas não regulamentadas, como o popular “Tigrinho”.

Na sequência, os valores eram pulverizados em diversas contas bancárias para dificultar o rastreamento. Depois, passavam por uma rede estruturada de operadores financeiros, com funções bem definidas — desde a captação à reinserção no sistema formal. “Dentro desse esquema, eles usavam algumas processadoras de pagamento para circular um montante relevante de dinheiro. Através delas, conseguiram partir para as fases finais de lavagem que era a descentralização desses recursos, a utilização de laranjas para que esse dinheiro não chamasse a atenção de autoridades e ficasse mais difícil fazer o rastreio disso”, explicou.

Para esconder a origem ilícita, o grupo utilizava técnicas típicas de lavagem de dinheiro, como o fracionamento de transferências (“smurfing”), além do uso de criptomoedas e movimentações entre empresas e contas de terceiros. Também houve uso de “laranjas” e a transferência de bens para familiares ou pessoas interpostas.

A investigação chegou ao nome de MC Ryan SP após identificar uma movimentação superior a R$ 30 milhões em um restaurante ligado ao cantor. Um relatório de inteligência financeira obtido pela TV Globo apontou que o montante, registrado entre abril de 2024 e outubro de 2025, era “flagrantemente incompatível” com o porte e a atividade econômica do Bololô Restaurant & Bar. A descoberta levantou suspeitas de que ele estaria usando um familiar como “laranja” na administração do negócio. A PF acredita, ainda, que o local funcionaria como um “posto de arrecadação bancarizado” para o PCC.

MC Ryan SP e Poze do Rodo são presos em operação da PF contra lavagem de dinheiro e transações ilegais milionárias (Reprodução/Redes Sociais/TV Globo)

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Ainda segundo a investigação, Ryan teria se utilizado de uma manobra de blindagem patrimonial em uma tentativa de omitir seu nome de negócios sob suspeita. Após ser alvo de buscas e apreensões da Polícia Civil, o artista deixou formalmente a sociedade do restaurante. No lugar, colocou a avó materna — substituição que, segundo a PF, teria como objetivo “ocultar o beneficiário final” e “desvincular a imagem do artista” de transações suspeitas. A avó, que declara renda de R$ 25 mil, teve movimentações milionárias e foi apontada como um “entreposto de liquidez”.

Após monitoramento bancário, a polícia identificou que o restaurante recebeu recursos de 152 contrapartes, todas com histórico criminal ligado ao tráfico e a organizações criminosas. Também foram detectados pagamentos atípicos, entre R$ 2 mil e R$ 10 mil, considerados incompatíveis com consumo em um restaurante. A hipótese é que o local servia para recolhimento da chamada “cebola” — mensalidade paga por membros de facções.

Segundo a defesa do artista, representado pelo advogado Felipe Cassimiro, Ryan não tem conexão com o empreendimento: “O Bololô Restaurant não pertence ao Ryan, se tratou de um presente dele para a avó. Quanto às movimentações, hoje o Bololô é visto como um dos principais restaurantes de São Paulo, altamente frequentado, sobretudo por muitos famosos. A movimentação condiz com o tamanho do empreendimento”.

Além dele, influenciadores como Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, e Chrys Dias também foram presos, entre outros produtores de conteúdo. Segundo a investigação, influenciadores e páginas de grande alcance eram contratados para divulgar plataformas de apostas e rifas, incentivando novas fontes de renda e ajudando a legitimar as operações.

“Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos. Então, eles são muito úteis e facilmente recrutáveis por essas organizações”, afirmou Maceira.

Após essas etapas, os investigados teriam acumulado patrimônios milionários com a compra de imóveis, veículos de luxo, joias e outros bens de alto valor — muitas vezes ostentados nas redes sociais. Para a Polícia Federal, essa é a fase final da lavagem, quando os recursos passam a aparentar legalidade.

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Defesa

Em nota ao Fantástico, a defesa de Rodrigo Morgado afirmou que ele atua dentro dos limites legais da profissão e que provará sua inocência. Já as defesas de MC Ryan e MC Poze do Rodo negam qualquer envolvimento com atividades criminosas.

“A Defesa de Marlon Brandon desconhece os autos ou teor do mandado de prisão. Com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, declarou a equipe jurídica de MC Poze do Rodo.

Já a defesa de Ryan destacou a “absoluta integridade” do cantor e a legalidade das transações financeiras:

“A defesa técnica de MC Ryan informa, de forma respeitosa, que até o presente momento não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos.

Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável.

A defesa confia plenamente que os esclarecimentos necessários serão prestados oportunamente, acreditando que, já no início da investigação, a verdade dos fatos será devidamente demonstrada”.

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