Voluntário faz relato sensível do momento em que triatleta brasileira submergiu no Ironman Texas, e explica por que decidiu se pronunciar

Shawn McDonald detalhou as tentativas de resgate para a triatleta Mara Flávia Araújo

Um voluntário norte-americano relatou o momento em que a triatleta brasileira Mara Flávia Araújo, de 38 anos, submergiu durante prova no Ironman Texas, nos Estados Unidos. Ele detalhou a tensão e todo o resgate para tentar salvar a competidora. no Lago Woodlands.

Um voluntário, de 52 anos, compartilhou os momentos de tensão após a triatleta brasileira Mara Flávia Araújo, de 38, submergir no Lago Woodlands, no último sábado (18), enquanto participava da etapa de natação do Ironman Texas, nos Estados Unidos. O corpo de Mara foi resgatado a três metros de profundidade em uma operação que incluiu barco com sonar e mergulhadores.

Em um post no Facebook, Shawn McDonald disse que resolveu detalhar o ocorrido para que a família da brasileira tivesse “um pouco de conforto, sabendo que pessoas que nem a conheciam deram tudo de si para salvá-la”. O norte-americano explicou que acordou às 3h da manhã com a filha Mila, de 12 anos, para ir ao lago e ficar de prontidão em uma prancha de stand-up paddle.

Além do voluntariado, eles também torciam por um amigo que competia pela primeira vez. McDonald, que já havia participado da prova no ano passado, contou que ele e a filha acompanharam os atletas desde a entrada na água. “Após a largada, remamos ao lado dos nadadores, oferecendo ajuda — ou uma prancha — a quem precisasse descansar um pouco. Então ouvimos um apito. Um grupo de voluntários mais jovens em um caiaque do outro lado do campo estava hasteando uma bandeira, soprando um apito e gritando por socorro“, descreveu.

De acordo com o norte-americano, “dezenas de atletas” estavam na água quando a brasileira submergiu. “Eu podia ver nadadores agarrados ao caiaque. Ouvi dizerem que ela [Mara] havia afundado. Pedi para Mila me entregar o remo e comecei a gritar para os atletas ao nosso redor pararem para que eu pudesse atravessar. Consegui chegar no local em cerca de 30 segundos. Quando cheguei e perguntei o que tinha acontecido, todos disseram a mesma coisa: ‘Ela afundou. Bem aqui. Bem embaixo de nós’. O pânico e o medo em seus rostos não me abandonarão tão cedo“, desabafou.

Mara se tornou triatleta em 2019 (Foto: Reprodução/Instagram)

McDonald disse ter visto um senhor de cerca de 60 anos agarrado à lateral do caiaque, com “os olhos mais arregalados” que já viu num “olhar perdido”. O homem, segundo ele, acabara de ver alguém “desaparecer sob seus pés”. O voluntário ainda descreveu o momento em que sentiu o corpo da brasileira debaixo d’água.

Mergulhei imediatamente e comecei a procurar. Outro jovem voluntário, possivelmente um salva-vidas, começou a mergulhar comigo. Depois de cerca de um minuto debaixo d’água, senti o corpo dela com o pé. Subi à superfície, respirei o que me pareceu a respiração mais profunda que já dei e voltei a mergulhar. Ela havia sumido. Não sei como descrever o que senti. Tentei de novo. E de novo. E de novo. Eu simplesmente sabia que a sentiria novamente e que conseguiria agarrá-la e puxá-la para cima. Perdi a conta de quantas vezes mergulhei na hora seguinte“, revelou.

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O norte-americano também compartilhou no Facebook o registro de toda a sua movimentação na água à procura de Mara. Após a chegada do barco com sonar, ele passou a mergulhar no local onde o equipamento identificava um “alvo”. “Nunca me passou pela cabeça que ela já tivesse falecido há muito tempo. Continuei procurando como se fosse puxá-la para cima viva. Olhando para trás, provavelmente estava correndo mais riscos do que deveria. Mas eu não conseguia parar“, falou.

McDonald pediu desculpas à família pelos esforços não terem sido “o suficiente” para salvar a brasileira. “O nome dela era Mara e ela era do Brasil. Ela era o mundo inteiro de alguém. Para a família dela: fizemos tudo o que podíamos. Sinto muito, de verdade, que não tenha sido o suficiente. Ela ficará comigo. Que ela descanse em paz. Estarei orando por todos vocês e, por favor, façam o mesmo por nós“, finalizou.

Veja:

Baixa visibilidade da água

Segundo a CBS News, a programação oficial do evento indicava que a etapa de natação começaria por volta das 6h30, no North Shore Park. A prova incluía uma travessia até o Lago Woodlands, com cerca de 3,9 quilômetros e temperatura média da água em torno de 23 °C. O corpo da brasileira só foi retirado do local por volta das 9h, segundo atualização do canal FOX.

O Gabinete do Xerife do Condado de Montgomery e o Corpo de Bombeiros do município de The Woodlands explicaram que a baixa visibilidade na água dificultou as operações de resgate. Para a ABC, as autoridades afirmaram que “normalmente” não é permitido nadar no Lago Woodlands, dada a “visibilidade zero” da água, mas pode ser autorizado como “exceção” para eventos especiais.

Em nota publicada no Facebook, o Gabinete do Xerife informou que investiga o ocorrido. Em 2017, o triatleta Glen Bruemmer, de 54 anos, também morreu durante a mesma competição, enquanto nadava no mesmo lago. A prova é considerada uma das mais tradicionais do triatlo mundial e reúne atletas em um percurso de mais de 220 km dividido entre natação, ciclismo e corrida. De acordo com o portal oficial do evento, o tempo médio de finalização da prova é de 13h25min.

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Ao g1, Melissa Araújo, irmã da atleta, disse que ela participava de provas de triatlo há cerca de 10 anos e que já tinha competido no Ironman. O Ironman lamentou a morte da brasileira e prestou seu apoio à família em uma publicação no Facebook.

É com grande pesar que confirmamos o falecimento de uma participante da prova durante a etapa de natação do triatlo IRONMAN Texas, realizado hoje (18). Enviamos nossas mais sinceras condolências à família e aos amigos do atleta, e ofereceremos todo o nosso apoio neste momento tão difícil. Agradecemos imensamente às equipes de primeiros socorros pela assistência prestada“, escreveu a organização.

Veja:

Ironman emitiu uma nota sobre a morte de Mara FláviaIronman emitiu uma nota sobre a morte de Mara Flávia (Foto: Reprodução/Facebook)

 

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