Christine Dawood, que perdeu o marido e o filho na tragédia do Titan, em junho de 2023, revelou que só recebeu os restos mortais dois dois nove meses depois. Em entrevista ao The Guardian, no sábado (25), ela contou que eles vieram dentro de pequenas “caixas de sapatos” como se fossem “lama”.
Suleman Dawood, de 19 anos, e o pai Shahzada, de 48, foram duas das cinco vítimas. “Só recebemos os corpos nove meses depois. Bem, quando digo corpos, quero dizer a lama que sobrou. Eles vieram em duas caixas pequenas, parecidas com caixas de sapatos”, detalhou Christine.
A lama, como ela chamou, são os restos mortais que foram recuperados do fundo do mar e passaram por testes de DNA realizados pela Guarda Costeira dos EUA. “Não encontraram muita coisa. Eles têm uma pilha enorme que não conseguem separar, tudo com DNA misturado, e me perguntaram se eu queria um pouco daquilo também. Mas eu disse que não. Só o que vocês sabem é que é o Suleman e o Shahzada”, disse.
Christine também narrou como tem lidado com o luto quase três anos após perder parte de sua família. Na verdade, era ela quem deveria ter embarcado no Titan com o marido, mas cedeu seu lugar para o filho no último minuto. “Aprendi a dar atenção ao luto. Então, vou ao quarto de Suleman. Às vezes, encontro o gato dormindo no travesseiro dele e me sento na cama e deixo o luto vir”, relatou.
“E depois de um tempo, consigo deixá-lo de lado até que ele [o luto] fique insuportável novamente. Trabalhei muito no meu luto por Suleman, mas só agora estou começando a vivenciar o luto pelo meu marido. Publicamente, eles são sempre apresentados juntos, mas são dois relacionamentos diferentes. Duas dores muito diferentes”, pontuou a viúva. Para chegar a esse tipo de controle, porém, ela percorreu dias difíceis, lidando com ataques de pânico que a paralisaram completamente.

Christine também entregou sua reação ao descobrir que a comunicação com o submarino havia sido perdida. “É como uma avalanche. Você vê chegando. É agora, vou ser atingida. Mas você está em um penhasco, então para onde pode ir? Eu tive que fazer uma escolha consciente. Eu sabia que não podia deixar as emoções me dominarem. Então, criei asas, voei para longe em minha mente. Foi assim que me salvei da avalanche”, recordou.
“Eu disse a mim mesma que eles estavam presos. Mas eu estava preocupada. Suleman não é… bem, meus dois homens não se dão muito bem no escuro, e eu sabia que seria uma escuridão muito diferente lá embaixo. Nada. Literalmente, você não consegue ver nada”, enfatizou.
Ela disse que precisou tomar remédios para enjoo e passou a andar pelo navio onde estava, desesperada por notícias, mas com medo do que pudesse ouvir. “Havia muitas vozes sussurrando. Elas paravam quando eu me aproximava, mas eu as ouvi dizendo que a água poderia acabar e que talvez bebessem a condensação nas paredes do submarino com canudos. Eu não precisava dessas coisas na minha cabeça, então tentei não ouvir. Apaguei todas as notícias do meu celular. Eu nem sabia direito da contagem regressiva do oxigênio. Tudo o que a tripulação me disse foi que eles poderiam ficar quatro dias lá embaixo, no máximo”, narrou.
Após dias de busca, a Guarda Costeira dos EUA encontrou os destroços do Titan, no fundo do oceano, a cerca de 300 metros do Titanic. Os investigadores, por sua vez, determinaram que eles eram compatíveis com uma “implosão catastrófica”. O casco do submarino havia falhado quase três horas após o início do mergulho. Sob as imensas pressões do oceano profundo, ele implodiu em uma fração de segundo. Todos morreram.

“Meu primeiro pensamento foi: ‘Graças a Deus’. Quando disseram que era catastrófico, eu sabia que Shahzada e Suleman nem sequer sabiam do que estava acontecendo. Num instante estavam lá e no seguinte já não estavam mais. Saber que não sofreram tem sido muito importante. Eles se foram, mas a forma como partiram torna tudo mais fácil”, ponderou Dawood.
Após a tragédia, Christine falou dos planos de criar um centro de apoio para pessoas em luto ou que passam por algum trauma. “São as perguntas normais que as pessoas fazem que ainda são as mais difíceis. Tipo: ‘Você tem filhos?’. Essa é a pergunta que mais me assusta. Eu sabia que ia acontecer, mas sempre me pega de surpresa. O que eu digo? Eu tenho dois filhos, mas… se eu disser isso, eles perguntam: ‘O que o mais velho faz?’. Então agora eu evito dizer filhos. Eu só digo que tenho uma filha. Não estou mentindo, mas é o que eu escolho dizer”, completou.
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques