Um médico de 27 anos foi internado em uma clínica de reabilitação de Teresina, no Piauí, de forma involuntária, em abril deste ano. Já nesta quarta-feira (6), ao portal Metrópoles, a advogada detalhou como o profissional foi retirado à força da casa dos pais e levado ao local. Juliana Irineu apontou que a ação ocorreu após o cliente revelar sua orientação sexual à família, que não teria aceitado.
O médico prestou queixa após permanecer por cerca de 40 dias na clínica sem acesso a telefone, advogado ou contato externo. Sua saída do local ocorreu no último dia 22. O profissional relatou que foi pego de surpresa enquanto dormia no apartamento dos pais. Ele disse que foi chamado pela mãe para ajudar o irmão e, ao abrir a porta do quarto, encontrou quatro homens, que o imobilizaram.
“Houve luta corporal. Ele resistiu por cerca de duas horas, pedia um advogado, dizia que não estava drogado e solicitava exames”, descreveu Juliana. Segundo ela, o médico foi colocado em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado diretamente para a clínica.
Durante o período de internação, o médico afirmou que teve o celular e os documentos retidos e passou um período sem avaliação adequada. Apenas três dias após dar entrada na clínica, ele foi submetido a um laudo psiquiátrico, que o classificou como dependente de cocaína. “Não houve exame toxicológico para comprovar essa dependência. Ele pedia insistentemente novos exames e uma reavaliação psiquiátrica, mas não era atendido”, argumentou a defesa.
O médico também revelou que era medicado diariamente sem consentimento, e não sabia exatamente quais substâncias estava ingerindo. De acordo com ele, o ambiente e a falta de autonomia agravaram o seu estado emocional. “Ele entrou em colapso psicológico. Dizia que não se sentia incapaz e não entendia por que estava ali”, pontuou a advogada.
Para Juliana, a principal motivação foi a revelação da homossexualidade do seu cliente à família. Conforme o médico, os pais – descritos como conservadores e ligados à política no interior do estado – teriam decidido interná-lo dias após a conversa, temendo uma possível exposição pública. Porém, no momento em que os funcionários chegaram, eles alegaram que o filho enfrentava problemas com drogas.

Após conseguir acesso a um celular dentro da clínica, o médico entrou em contato com amigos, que indicaram a advogada. Ela afirmou que, inicialmente, tentou resolver o caso pela via judicial. “Entrei com um habeas corpus no plantão, mas o pedido não foi analisado. O juiz entendeu que o caso não era recente, já que a internação havia ocorrido há mais de 24 horas”, explicou.
Segundo a defesa, outro delegado indicou a possibilidade de cárcere privado ou sequestro e orientou que Juliana fosse até a clínica acompanhada da Polícia Militar. A advogada se dirigiu ao local com os agentes, solicitando acesso ao cliente e aos documentos que autorizavam a internação.
Como comunicado pela defesa, houve resistência por parte dos funcionários e da família. “Eles pediam para esperar os pais. Quando chegaram, disseram que ele era drogado e me ameaçaram, afirmando que eu seria responsável se algo acontecesse”, recordou.
Após o tumulto na entrada do local, todos os envolvidos foram levados para a Central de Flagrantes de Teresina. Lá, um novo delegado analisou o caso e, conforme a defesa, entendeu que a ação poderia estar amparada pela legislação federal que permite internações involuntárias mediante autorização familiar e laudo médico.
Juliana contestou a interpretação, argumentando que a medida exige critérios mais rigorosos, como histórico comprovado de dependência química, esgotamento de alternativas terapêuticas – como acompanhamento em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) – e garantia dos direitos básicos do paciente. Antes de prestar depoimento formal, o médico deixou a delegacia sem qualquer impedimento policial. Diante da repercussão, os pais solicitaram o encerramento da internação e devolveram os pertences do filho.
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