A polícia analisou os depoimentos de Monique Medeiros e apontou que ela sabia que seu filho, Henry Borel, sofria agressões do padrasto, Jairinho. Nesta terça-feira (26), o delegado Henrique Damasceno, responsável pelo caso, afirmou que o casal combinou de omitir os episódios de violência quando começou a ser investigado pela morte do menino de quatro anos.
De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o delegado indicou um histórico de agressões contra a criança antes da morte. Em uma das situações, Henry usou o celular da babá para falar com a mãe e teria dito: “O tio bateu”.
O delegado afirmou que os relatos dados por Monique e Jairinho à polícia seguiram uma mesma linha desde o início da apuração. Segundo ele, ambos sustentaram uma versão de convivência harmoniosa na tentativa de afastar qualquer suspeita de violência dentro do apartamento. Damasceno declarou que os depoimentos eram muito parecidos e acabaram sendo desmentidos pelas provas recolhidas ao longo da investigação. “Foi uma farsa ensaiada”, destacou.
De acordo com o investigador, o comportamento do casal durante a apuração chamou atenção da equipe policial. Ele afirmou que até familiares teriam sido orientados antes de depor. “Até a mãe da Monique foi treinada antes de depor. Isso me chamou muito a atenção, porque tenho anos de experiência e sei que a morte de uma criança destrói uma família. Nessas horas, as pessoas querem saber a verdade, não ensaiar depoimentos”, declarou.
Em seguida, Damasceno reforçou: “As versões apresentadas pelos dois eram compatíveis entre si, mas, no decorrer da investigação, mostraram-se fantasiosas, porque as provas indicavam que ambos sabiam que Henry vinha sendo agredido”.

O delegado também relembrou que, inicialmente, a morte de Henry chegou a ser tratada como um acidente doméstico. Porém, conforme a investigação avançou, a hipótese perdeu força. A perícia chegou a ter dificuldades nas análises porque o apartamento já havia sido limpo por uma empregada antes da chegada dos técnicos.
Durante o depoimento, Damasceno reconstituiu a sequência de acontecimentos da noite em que Henry morreu, com base nas informações dadas por Monique à polícia. Segundo a investigação, o menino não queria retornar para a residência onde a mãe vivia com Jairinho após sair da casa do pai. Já no apartamento, Monique afirmou ter dado banho na criança e alegou não ter percebido sinais de agressão, dores ou lesões. Ela também contou que registrou uma foto do filho sorrindo e enviou ao pai antes de colocá-lo para dormir.

Ainda conforme o relato apresentado pela mãe, Henry acordou algumas vezes durante a madrugada. Horas depois, ela teria encontrado o menino desacordado ao lado da cama e chamado Jairinho para levá-lo ao hospital. Os exames periciais, no entanto, apontaram ferimentos graves na cabeça, nos rins e marcas espalhadas pelo corpo. A reprodução simulada feita pela polícia concluiu que os machucados não poderiam ter sido causados por uma queda comum dentro do apartamento.
O delegado também afirmou que, já no hospital, Jairinho teria tentado evitar o encaminhamento do corpo de Henry ao Instituto Médico Legal. Segundo Damasceno, o então vereador entrou em contato com um executivo da rede hospitalar para tentar liberar o corpo sem perícia, o que poderia comprometer a investigação.
Relembre o caso
Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, e o padrasto do garoto, o ex-vereador Jairinho, são réus pela morte do menino de 4 anos. Segundo a polícia, o padrasto torturou a criança e a mãe sabia disso, mas não fez nada para intervir.

O menino faleceu na madrugada do dia 8 de março de 2021. O laudo do Instituto Médico-Legal, divulgado em reportagem do jornal RJ2, apontou que o corpo do Henry apresentou sinais de violência e o óbito foi causado por hemorragia interna e laceração hepática, decorrentes de uma ação contundente.
A perícia constatou ainda múltiplos hematomas no abdômen e membros superiores, infiltração hemorrágica na região frontal do crânio, edemas no encéfalo, grande quantidade de sangue no abdômen, contusão no rim à direita, trauma com contusão pulmonar, laceração hepática (no fígado) e hemorragia retroperitoneal. Henry, que passava a noite na casa da mãe e do padrasto, foi levado ao hospital pelos responsáveis, mas chegou ao local sem vida.
Segundo relatos divulgados pela revista Veja na época, o vereador teria um histórico de violência, com agressões a ex-namoradas e os filhos delas. Alguns dos casos, inclusive, já haviam sido relatados à polícia. De acordo com a publicação, apesar de Jairinho aparentar ser muito gentil e educado, os relatos e conversas obtidos sugerem que o vereador teria um temperamento violento e quase “sádico” na sua vida privada.

Anteriormente, ele já havia sido denunciado por torturar uma menina de 4 anos entre 2011 e 2012, também filha de uma ex-companheira. Outro desses episódios teria acontecido com uma ex-namorada que tinha um filho de 5 anos na época em que ela se relacionou com Jairinho, entre 2014 e 2016.
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