Mulher jogada de penhasco em MG dá 1ª entrevista, faz relato sensível sobre momentos que antecederam o crime e deixa alerta importante; assista

Em entrevista ao Fantástico, sobrevivente detalhou o sequestro, as agressões sofridas e o resgate após passar horas desaparecida na Serra do Rola-Moça

Ana Cláudia Rodrigues da Silva Souza falou pela primeira vez sobre o crime que sofreu em Minas Gerais. Em entrevista ao Fantástico, ela relatou o sequestro cometido pelo ex-companheiro e relembrou os momentos vividos antes de ser encontrada pelas equipes de resgate.

Neste domingo (31), Ana Cláudia Rodrigues da Silva Souza, mulher que sobreviveu após ser empurrada de um penhasco na Serra do Rola-Moça, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, concedeu sua primeira entrevista. Em conversa com o Fantástico, a vítima detalhou os momentos de terror que viveu ao lado do ex-marido, Silvanildo Amâncio de Araújo, antes de ser resgatada pelas autoridades.

Ana Cláudia desapareceu na manhã de segunda-feira (25), após avisar familiares que havia encontrado o ex-companheiro enquanto seguia para o trabalho. Segundo as investigações, ela foi sequestrada por Silvanildo, ameaçada com uma faca e levada até a Serra do Rola-Moça, onde foi empurrada de um penhasco. Apesar da violência do ataque, ela foi encontrada com vida e sofreu apenas ferimentos leves.

Após o crime, Silvanildo foi localizado em Várzea da Palma, no Norte de Minas Gerais, e preso pela Polícia Civil. Em depoimento, ele confessou a tentativa de feminicídio.

Ao dominical da TV Globo, Ana Cláudia relembrou a manhã do ataque. “Eu desci do ônibus normal para chegar no serviço, era por volta de 9 horas. Aí quando eu subi na rua lá, o carro dele vem de frente para mim. Aí quando eu tentei correr, ele já veio logo em seguida atrás de mim e me pegou. [Ele disse] ‘Você vai entrar no carro e a gente vai ali só para a gente conversar’… Sempre com a faca apertando muito o meu pescoço. Aí me levou até o carro, me coloca no carro, todo bem nervoso, bem agitado”, contou Ana Cláudia.

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Imagens obtidas pela reportagem mostram o veículo de Silvanildo entrando em um parque estadual em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte, por volta das 9h27 daquela manhã. “Aí teve uma hora que eu falei para ele assim: ‘Você está me levando para me matar, né?’. Aí ele deu aquele sorriso cínico, assim, falou: ‘Não, Cláudia, eu não estou te levando para matar, eu te amo'”, lembrou.

Durante a entrevista, Ana Cláudia contou detalhes do ataque e indicou que, além das agressões físicas sofridas ao longo de cerca de duas horas, também foi vítima de violência sexual. Muito abalada e segurando as lágrimas, ela resumiu a experiência em poucas palavras: “É muito ruim relembrar”.

Silvanildo e Ana Claúdia foram casados por dez anos. A vítima entrou com uma medida preventiva contra o ex. (Foto: Reprodução/ Redes Sociais)

Segundo o relato da vítima, o plano de Silvanildo era empurrá-la do penhasco, mas ele queria garantir que ela não sobreviveria. “Ele me levava próximo ao penhasco e falava assim comigo: ‘Aqui não, aqui não dá para você morrer’. Me puxava com força, próximo a outro ponto do penhasco, falava assim: ‘Aqui ainda não dá para você morrer’. Me puxava: ‘Não dá para você morrer'”, detalhou Ana Cláudia.

Ana Cláudia contou que tentou reagir, mas não conseguiu se desvencilhar do agressor. “Eu comecei a me debater com ele, só que não consegui nada”, disse.

A vítima despencou cerca de 50 metros encosta abaixo e conseguiu sobreviver agarrada à vegetação. Ela ainda tentou se movimentar, mas precisou permanecer no local devido ao risco de uma nova queda. “Naquele momento ali eram os meus filhos, meus filhos o tempo todo, todo, todo. Ali era o meu fim. Só que mesmo na queda, parece que Deus estava tão presente na minha vida, que eu caindo, eu senti que eu não ia morrer”, afirmou.

Às 11h13, câmeras de segurança registraram Silvanildo deixando o parque às pressas, chegando a quase invadir a contramão. Enquanto isso, Ana Cláudia enfrentava o frio intenso e as dificuldades de permanecer imóvel na encosta durante toda a noite. “[Senti] muito frio. Eu estava com a blusa normal e uma blusinha fininha, de frio, do dia a dia. Colocava, mas nada segurava. É muito frio, é muito frio, muito frio. Encontrei um buraco em uma pedra lá, foi onde eu me encaixei e passei a noite”, detalhou.

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Antes de desaparecer, Ana Cláudia conseguiu avisar a filha mais velha de que estava sendo perseguida pelo ex-companheiro. Após o alerta, familiares acionaram as autoridades e as buscas começaram. “No decorrer da noite, eu via luzes, tipo lanternas e tal, e eu achando que era ele me procurando”, contou.

Na verdade, as luzes eram de parentes, bombeiros e policiais militares que participavam das buscas. O local onde a vítima foi deixada foi informado à polícia por um parente de Silvanildo, a quem ele havia revelado o crime. Ana Cláudia foi encontrada nas primeiras horas da manhã de terça-feira (26), consciente, com escoriações e um ferimento em um dos pés.

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A operação mobilizou uma força-tarefa com equipes das polícias Civil e Militar, do Samu e do Corpo de Bombeiros, além do uso de drones e de uma aeronave. A vítima foi localizada com o auxílio de um binóculo termal, equipamento capaz de captar calor e radiação corporal. Do helicóptero, os policiais a avistaram ferida, exausta e agarrada a um pequeno arbusto no meio do paredão. O resgate foi realizado através de uma encosta íngreme.

Segundo Ana Cláudia, o momento mais feliz de sua vida foi quando alguém acenou para ela de dentro da aeronave. O responsável pelo gesto foi o sargento Rodrigues, que desceu do helicóptero e permaneceu ao lado dela até a conclusão do resgate.

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Após o crime, Silvanildo foi localizado em Várzea da Palma. No veículo dele, a polícia encontrou diversas facas, um canivete, celulares e roupas. Durante o interrogatório, ele confessou o crime e afirmou que só foi encontrado porque acabou sendo rastreado pelo celular. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva. A defesa do suspeito alegou que não há indícios de envolvimento dele em outros crimes e que o caso seria um episódio isolado.

Ana Cláudia, no entanto, afirma que a violência era recorrente. Segundo ela, o relacionamento terminou em fevereiro deste ano, após 12 anos marcados por conflitos e agressões. Ela contou que já havia denunciado Silvanildo em 2020, mas que ele apenas prestou depoimento na delegacia e não chegou a ser preso.

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De acordo com a vítima, o ciúme motivava episódios frequentes de violência, incluindo puxões de cabelo e ameaças de morte. Ela também revelou que havia solicitado uma medida protetiva poucos dias antes de ser sequestrada.

Ao final da entrevista, Ana Cláudia deixou um recado para outras mulheres que vivem situações semelhantes. “Tá acontecendo? Fala! Fala! Não esconda. Eu omitia muita coisa. Eles te dão força, você corre atrás dos seus direitos para largar isso, para deixar isso para trás e viver a sua vida. O que eu ouvia de um, eu unia com o que eu ouvia de outro. Aí chegou um ponto que eu pensei: ‘Gente, eu não preciso disso'”, incentivou.

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