A autora franco-iraniana Marjane Satrapi faleceu nesta quinta-feira (4), aos 56 anos. A informação foi confirmada por meio de um comunicado enviado pela família à agência AFP. Na nota, eles afirmaram que a artista “morreu de tristeza”.
“Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”, escreveram.
Nascida em 1969, na cidade de Rasht, no norte do Irã, Satrapi chegou à França em 1994 e conquistou a cidadania francesa em 2006. Crítica ferrenha do governo teocrático iraniano, Satrapi ficou mundialmente conhecida por “Persépolis”, obra autobiográfica em quadrinhos que retrata sua infância em Teerã durante o período posterior à Revolução Islâmica de 1979. A história acompanha os impactos das restrições impostas pelo regime e sua mudança para a Europa, onde passou a viver no exílio.
O presidente da França, Emmanuel Macron, prestou homenagem à escritora e a definiu como “uma grande artista que transformou sua infância iraniana em uma narrativa universal”.

Entre seus trabalhos no cinema, está a adaptação de “Persépolis”, lançada em 2007 e codirigida por Satrapi e Vincent Paronnaud. O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e recebeu uma indicação ao Oscar. “Mesmo sendo um filme universal, quero dedicar este prêmio a todos os iranianos”, declarou Satrapi à AFP na época.
Além da literatura e do cinema, Satrapi também se dedicou à pintura. Em 2020, apresentou uma série de obras produzidas ao longo de sete anos e explicou que o processo criativo era essencial para seu bem-estar. “Acho que minha saúde mental depende disso”, afirmou na ocasião.
Ativismo
Além de sua carreira artística, Satrapi também se destacou pelo ativismo político e pela defesa dos direitos humanos. A autora usava sua projeção internacional para denunciar abusos do regime iraniano e apoiar movimentos em favor da liberdade e dos direitos das mulheres. Em reconhecimento a essa atuação, recebeu, em 2024, o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, uma das principais honrarias da Espanha.

No ano passado, Satrapi recusou receber a mais alta honraria civil da França, a Legião de Honra, acusando o país de hipocrisia por dificultar a concessão de vistos a dissidentes iranianos. “Não posso ignorar o que considero uma atitude hipócrita em relação ao Irã, país que também moldou minha identidade”, escreveu. Apesar da recusa, ressaltou que não desrespeitava a homenagem e que amava a França “profundamente”.
Amor de sua vida
Mattias Ripa, produtor, ator e roteirista sueco, foi seu marido e colaborador de longa data. Satrapi o conheceu na França, após deixar o Irã e encerrar seu primeiro casamento. Formado em Economia, Ripa foi para Paris em 1994 para um programa de intercâmbio universitário e conheceu a artista. Cerca de um ano depois, os dois se mudaram para Estocolmo.
Apesar de manter uma vida discreta, Ripa teve papel importante na trajetória da escritora e também colaborou na tradução de “Persépolis”. “A ideia de me tornar uma mulher encantadora com um marido nunca foi o objetivo da minha vida. O mais importante para mim sempre foi ser livre e independente”, partilhou Satrapi, em entrevista ao jornal La Vanguardia, em 2020.

Após a morte dele, em 8 de abril de 2025, a autora criou a Fundação de Cinema Mattias e Marjane Ripa-Satrapi, destinada a apoiar estudantes estrangeiros que desejam estudar cinema em Paris.
Desde a morte do companheiro, seu perfil no Instagram passou a ser dedicado quase exclusivamente a homenagens. Entre as publicações, havia uma sequência de imagens formando a frase “Porque perdi o amor da minha vida”, acompanhada por uma foto de Ripa e informações sobre a fundação criada em sua memória.
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