Após ser demitido da Jovem Pan, Rodrigo Constantino também é desligado de Record TV, Rádio Guaíba e Correio do Povo; Jornalista reage

Um dia após ser demitido pela Jovem Pan, Rodrigo Constantino também foi dispensado pelo Grupo Record, pela Rádio Guaíba e pelo Jornal Correio do Povo. A emissora de Edir Macedo emitiu uma nota na tarde desta quinta-feira (05), informando o desligamento do jornalista. A empresa ainda afirmou que não compactua com as opiniões do profissional sobre estupro e violência contra a mulher. Rodrigo tinha uma coluna no portal R7 e fazia participações na Record News.

O Grupo Record vem a público informar que dispensou o jornalista Rodrigo Constantino de suas funções no Portal R7 e na Record News. A decisão foi tomada em virtude das posições que o profissional assumiu publicamente sobre violência contra a mulher, em canais que não têm nenhuma vinculação com nossas plataformas“, escreveu a empresa, referindo-se à live para o YouTube feito pelo jornalista na quarta-feira (04), em que ele disse que castigaria a filha se ela fosse estuprada, dependendo de quais fossem as “circunstâncias” do crime.

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O jornalismo dos veículos do Grupo Record tem acompanhado com muita emoção o caso de Mariana Ferrer e o Grupo não poderia, neste momento, deixar qualquer dúvida de que justiça não se faz responsabilizando ou acusando aqueles que foram vítimas de um crime. Apesar de ter garantias de liberdade editorial e de opinião, julgamos que o posicionamento adotado por Constantino não compactuou com o nosso princípio de não aceitar nenhum tipo de agressão, violência, abuso, discriminação por questões de gênero, raça, religião ou condição econômica. Este é o compromisso do jornalismo do Grupo Record“, finalizou o comunicado.

Comunicado oficial do Grupo Record. (Foto: Reprodução/ Twitter)

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A Rádio Guaíba e o jornal Correio do Povo também se pronunciaram sobre o desligamento. “Diante dos fatos recentes e em sintonia com a decisão tomada pelo Grupo Record, a Rádio Guaíba e o jornal Correio do Povo optaram por rescindir o contrato com o colunista Rodrigo Constantino, que ocupava espaços semanais na rádio e também no jornal“, anunciaram.

Hoje, Rodrigo usou o Twitter para se pronunciar sobre a repercussão do caso e as novas demissões. “Como funciona a tática: pega algo dito, tire do contexto, deturpe e espalhe; use a militância para viralizar e marcar os veículos empregadores; faça a pressão em cima dos ANUNCIANTES; esses, querendo fugir da polêmica, pedem a demissão do ‘pária’; as empresas não resistem e cedem. Isso é uma tática FASCISTA, que fique claro. E o mais bizarro é ver supostos jornalistas aderindo, liderando. Não são jornalistas, são FASCISTAS, os inquisidores da era moderna, a patrulha do “ódio do bem” que usa métodos fascistas para ‘combater o fascismo’. E estão ganhando“, escreveu.

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Ele criticou a decisão da Record e exaltou o próprio canal do YouTube. “A Record foi mais um veículo que não aguentou a pressão. O departamento comercial pede ‘arrego’, pois recebe pressão de fora, dos chacais e hienas organizados, dos ‘gigantes adormedidos’. Sim, perdi mais um espaço, mas sigo com minha total INDEPENDÊNCIA e com minha INTEGRIDADE. Enquanto isso, meu canal do YouTube teve mais de 25 mil inscrições extras só ontem, aqui no Twitter foram 5 mil, e vários patronos novos! O caminho é mesmo a total LIBERDADE, ou ceder ao fascismo…“, finalizou o jornalista.

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Entenda

O caso revoltante do julgamento da influenciadora Mariana Ferrer colocou em pauta na sociedade uma discussão muito importante: a cultura do estupro perpetuada em nosso país. No entanto, nesta quarta (4), um discurso do jornalista bolsonarista Rodrigo Constantino durante uma live causou revolta nas redes sociais. O profissional afirmou que castigaria sua filha, caso ela fosse abusada em determinadas circunstâncias. O vídeo do momento e a repercussão negativa fez com que ele fosse demitido da rádio Jovem Pan, onde trabalhava como comentarista.

Ao falar da audiência sobre o estupro sofrido por Ferrer e a absolvição de André de Camargo Aranha, Constantino expôs sua opinião, considerando um cenário em que sua filha também fosse abusada. “Se minha filha chegar em casa, eu dou boa educação para que isso não aconteça, mas a gente não controla tudo, se ela chega em casa e fala: ‘Pai, fui pra uma festinha e fui estuprada’. [Eu vou falar:] ‘Me dá as circunstâncias’. ‘Ah, fui pra uma festinha, eu e três amigas, tinha 18 homens lá, nós bebemos muito, tava ficando com dois caras e eu acabei dormindo. Fui abusada’. Ela vai ficar de castigo feio, eu não vou denunciar um cara desse pra polícia”, falou Rodrigo.

Como se não bastasse, o discurso completamente equivocado do jornalista diz que, nesse caso, a culpa teria sido da sua herdeira. “Eu vou dar esporro na minha filha, porque alguma coisa ela errou feio. E eu devo ter errado pra ela agir assim, né? Porque é um comportamento completamente condenável, porque a gente não pode mais falar essas coisas hoje em dia, né? Que existe mulher piranha e mulher decente”, disse. Lembrando que, em nenhuma hipótese ou circunstância, a vítima de um estupro ou de qualquer outro tipo de abuso tem culpa. A única pessoa responsável é a que cometeu o crime.

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“Como falei aqui, o homem que faz isso não é decente, mas também não existe a ideia de mulher decente? As feministas querem que não, né? Porque feminista é tudo recalcada, ressentida e, normalmente, mocreia, vadia, odeia homem, odeia união estável, odeia casamento, odeia tudo isso. Só por isso. Ou é instrumento de homem malandro e canalha”, finalizou o jornalista no vídeo que viralizou. Confira a gravação:

Nas redes sociais, as pessoas ficaram indignadas com o machismo de Constantino. “Ele é a reafirmação de um país que inocenta estupradores e responsabiliza a vítima. Ele é parte do sistema que as mulheres tanto condenam. Culpabilizar a vítima e dizer que não denunciaria um estupro pela circunstância. É um ABSURDO”, publicou o colunista Leví Kaique Ferreira. “Constantino não é liberal, não é conservador… É uma pessoa doente. Um infeliz. Um ser abjeto capaz de legitimar o estupro da própria filha para defender seu pensamento torto. Representa bem a ignorância, a insegurança e o ódio no comando do país”, criticou o apresentador André Fran.

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Além dos posts nas redes sociais sobre Constantino, a rádio Jovem Pan foi fortemente criticada por manter em seu quadro de funcionários alguém que exponha esse tipo de discurso. “Colegas e amigos da @JovemPanNews: Há um limite ético e civilizatório até o qual se pode chegar. Apologia ao estupro ultrapassa em muito esses limites. Ou vocês reagem a isso de maneira clara ou serão sempre confundidos com essa escória moral, esse lixo humano. Não há escolha”, disparou a apresentadora do programa “Roda Viva”, Vera Magalhães.

A emissora tomou suas providências. Por meio de um comunicado divulgado na internet, a empresa anunciou a demissão de Rodrigo Constantino. “O Grupo Jovem Pan tem como premissa a liberdade de expressão e o amplo debate entre seus comentaristas. Diante do ocorrido nesta quarta-feira, 4, em uma live independente, promovida fora de nossas plataformas, por um de nossos comentaristas, a Jovem Pan esclarece que desaprova veementemente todo o conteúdo publicado nos canais pessoais e apresentado nessa live”, começou.

“Reafirmamos que as opiniões de nossos comentaristas são independentes e necessariamente não representam a opinião do grupo. No caso de Mariana Ferrer, defendemos que a vítima não deve ser responsabilizada pelos atos de seu agressor, apesar do respeito que todos nós devemos ter às decisões judiciais. Em consequência do episódio, na tarde desta quarta-feira, Rodrigo Constantino foi desligado de nosso quadro de comentaristas”, frisou.

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Nas redes sociais, o bolsonarista reagiu com insatisfação à decisão, alegando que foi vítima de uma “distorção da sua fala”. “Vocês venceram uma batalha, parabéns! A pressão foi tão grande sobre a Jovem Pan, DISTORCENDO CLARAMENTE MINHA FALA, que não resistiram. Não os culpo. É do jogo. Quem me conhece e quem viu de fato sabe que eu jamais faria apologia ao estupro! Mas desde já estou fora da Jovem Pan. Sou muito grato por tudo que a Jovem Pan fez, pelo espaço livre, pela confiança. Foi um período de trabalho intenso, muitas conquistas e crescimento”, compartilhou em seu Twitter.

Antes da demissão vir à tona, Constantino tinha argumentado em suas redes sociais que as pessoas tinham compreendido errado suas falas, que ele não estava referindo-se às atitudes de Mariana Ferrer e nem fazendo apologia ao estupro. “Uma amiga próxima, que SABE quem sou e como sou como pai e marido, mandou mensagem dizendo que alguns podem ter entendido, fora do contexto, que eu falei no caso de minha filha ser ABUSADA. Não! Eu falei no caso de CONSENTIR BÊBADA, com quem estava ficando. Basta ouvir novamente”, pediu o comentarista.

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Acontece que, no vídeo — divulgado no Instagram do próprio Constantino —, o diálogo fictício proposto por ele para sua filha é que ela “teria bebido em uma festa, dormido e sido abusada”. Vale lembrar então que, quando uma pessoa não está em condições de discernir das suas vontades e decisões, está inconsciente por uso de álcool, drogas ou qualquer outra substância, ou apenas dormindo e acaba tendo seu corpo violado por outra pessoa, isso é um crime.

“Se a mulher está bêbada, mas em condições de pegar a chave do carro e dirigir, ela está consciente ou ‘vulnerável’ caso diga SIM para o parceiro que lhe propõe sexo? Lembrem-se: toda a premissa é que ela CONSENTIU no caso, não de que foi ABUSADA”, tentou argumentar Rodrigo Constantino no Twitter, ignorando as palavras que ele mesmo utilizou.

Filha de Constantino se pronuncia

Laura Constantino usou as redes sociais para falar sobre a repercussão do caso, e saiu em defesa do pai. “Realmente me deixou muito abalada e eu resolvi que eu tinha que falar alguma coisa”, começou. “Eu conheço o meu pai e eu sei que ele é uma pessoa que tem caráter, que ele é contra o estupro, como qualquer pessoa que tem caráter. Ter que ler uma coisa dessas [as reportagens sobre a gravação] mexeu muito comigo, porque eu tenho certeza que se acontecer algum coisa comigo, meu pai ia ficar do meu lado. Seria a primeira pessoa que ficaria do meu lado, que iria atrás de quem cometeu esse crime e denunciaria”, garantiu.

“Qualquer pessoa, qualquer pai que tem caráter faria isso. Eu sei que muita gente que tá vendo esse vídeo não concorda com o que ele fala, não gosta dele, mas realmente eu tenho certeza que se algo assim acontecesse, ele ficaria do meu lado. Então, eu só precisava falar isso, porque ter que ver tanta gente falando que eu tenho um pai que é a favor do estupro e coisas assim não tem como, por que eu sei que ele não é. Ele não é isso”, finalizou.