Arcebispo de Belém é acusado de abuso sexual por ex-seminaristas: “Pediu pra baixar as minhas calças”; Religioso se defende — saiba detalhes

A edição do “Fantástico” deste domingo (03), trouxe à tona um caso de assédio e abuso sexual envolvendo uma figura de autoridade na Igreja Católica Brasileira. Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará, foi acusado por quatro ex-seminaristas de usar sua posição de poder para abusar sexualmente deles, em encontros pessoais promovidos por ele. A reportagem é dos jornalistas Fabiano Villela e James Alberti.

Segundo as vítimas, os casos aconteceram na casa onde o religioso vive, que fica a menos de um quilômetro de distância de seu escritório, a Cúria Metropolitana. Nesse local já é de praxe que arcebispos recebam seminaristas para conversar sobre a vida e vocação religiosas. Esses jovens, normalmente, vêm de famílias humildes e muito devotas a Igreja.

Dois dos jovens contam que cresceram dentro da casa de Deus, passando por celebrações como primeira comunhão, catequese e atuando como coroinha. “A minha vida se dividia entre estudar e igreja”, relatou um dos ex-seminarista. As conversas na Cúria evoluíam para encontros na casa do arcebispo. “Parecia algo inalcançável. ‘Nossa! Eu fui chamado para ir à casa do arcebispo’. Você se sente importante naquele momento”, contou outra vítima.

Entre o fim de outubro e o começo de novembro de 2020, a equipe do “Fantástico” encontrou quatro ex-seminaristas que denunciaram terem sofrido abusos durante esses encontros com o arcebispo. Os relatos são semelhantes: todos tinham entre 15 e 18 anos de idade na época dos casos, entre 2010 e 2014.

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Descrições dos abusos

As vítimas não quiseram se identificar por medo de represálias, por isso foram retratados pela reportagem por letras, sem relação com as iniciais de seus nomes. “Z”, o primeiro ex-seminarista ouvido na matéria, contou que o crime ocorreu em 2011, quando ele tinha 15 anos.

Eu era coroinha. Servi com ele na missa. No final, eu tive uma alegria, que posso dizer, na época, de conhecer o arcebispo“, disse. “Z” teria sido, então, encaminhado por Dom Alberto para o seminário menor, voltado a iniciantes, onde o adolescente faria o Ensino Médio. Ele relata que, a partir daí, os dois começaram a se encontrar na residência oficial do arcebispo.

Arcebispo é acusado de abuso por ex-seminaristas. (Foto: Reprodução/ TV Globo)

Os ex-seminaristas revelaram que esses encontros se davam em três lugares diferentes. Na capela, conversando sobre vocação religiosa; na sala, onde o assunto era sobre família e estudos; e no quarto, já no final da noite, onde eles conversavam sobre intimidades. “Z” contou que o religioso tocava em questões como sexualidade, masturbação e atração sexual.

Em uma dessas ocasiões, o primeiro abuso aconteceu. “Quando ele me tocou, na minha parte íntima, disse que aquilo ali era normal, coisa do homem. Mas, assim, eu não via maldade, porque confiei muito, por ele ser uma autoridade, também não tinha experiência. Mas aquilo foi se tornando já permanente e já mais agressivo. Ele já me recebia na porta e já ia logo pegando [no órgão sexual]”, relatou. Ele contou ainda que isso se estendeu por dois anos, em média a cada três meses.

Com “X”, a segunda vítima, Dom Alberto já começou a aproximação com assuntos estranhos. “É uma conversa que vai fluindo em diversos assuntos e ele acaba perguntando se você namora, se já namorou, se tem atração por meninas ou se tem atração por meninos, embora a gente se sinta estranho, a gente acaba respondendo de forma bem objetiva“, contou.

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Não demorou muito para que os abusos começassem. “Perguntava muito sobre masturbação. Primeiro, mostrava no dedo dele. Como a gente fica muito constrangido, então sempre se muda de assunto. Em outro momento, retorna, até que ele pede para que você mostre. No meu caso, houve um momento em que ele, ele mesmo abaixou as minhas calças, porque eu estava perplexo, e tocou [no pênis] e também rezou“, relatou.

O repórter perguntou, então, se o arcebispo teria ficado pelado na frente do jovem. “Sim. Primeiro eu. Depois, ele. Eram orações para curar, se encostando, abraçando e ele se deitou na cama e… complicado“, disse. “S”, a terceira vítima, também viveu algo parecido. Ele lembra de ter conhecido o religioso em 2010, na Cúria Metropolitana. “Ele pediu para que eu mostrasse como eu me masturbava no dedo dele. Isso na hora me chocou bastante, porque você não espera uma coisa dessa, né?“, contou.

Um ano depois eles voltaram a se encontrar. “Ele pediu para que eu ficasse de pé na frente dele, no meio das pernas dele. E pediu que eu fechasse meus olhos. Eu fechei os olhos, aí ele começou a rezar e foi quando ele pegou em meus órgãos genitais, acho que esperando alguma reação, sei lá, mas não houve nada. Ele me abraçou, deu um beijo próximo da minha boca e disse que é assim, que tinha que rezar“, relatou.

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Além do abuso, Dom Alberto teria ofendido o jovem. “Quando eu comecei a falar para ele que eu queria sair do seminário por isso, isso e isso, comecei a chorar. Ele mudou o humor, repentinamente. Bateu na mesa, me xingou de viado, disse que chorar era coisa de viado, que eu tinha que ser homem, que eu tinha que ser forte. E isso tudo gritando, assim, de maneiro que ‘até chegou a me assustar. E aí nesse dia que ele levantou da mesa dele e me abraçou. Ficou pegando nos meus órgãos genitais, apalpando. Me abraçou, me deu outro beijo perto da boca, disse que gostava muito de mim, que queria me ver ordenado padre“, relembrou.

Outro aspecto em comum nos abusos era um livro usado pelo arcebispo como uma suposta cura para a homossexualidade. Na obra, seria descrito um tratamento para resolver o “problema”. “V”, quarto e último denunciante, não chegou a ser abusado, mas foi vítima de assédio de Dom Alberto. “Você lia o livro e dizia assim, que ser homossexual é uma doença, que a gente precisava ser tratado e ajudado“, relatou.

Além disso, os seminaristas tinham que responder um questionário que continha uma pergunta adicionada pelo arcebispo: o tamanho do órgão genital dos jovens. “S” sofreu mais um abuso pouco tempo depois de voltar ao seminário, quando sentiu falta da vida religiosa. “Ele pediu pra baixar as minhas calças, baixei a calça, até mais ou menos o meio da coxa. Ele pediu para baixar mais. Eu baixei até, mais ou menos, o joelho. E aí ele ficou apalpando. Até que Dom Teodoro bateu na porta e foi ele que me salvou dessa situação“, declarou.

Dom Alberto nega todas as acusações. (Foto: Reprodução/ TV Globo)

Dom Teodoro era bispo auxiliar de Belém na época. Segundo “V”, o arcebispo ameaçava as vítimas para manterem o silêncio. Em 2017, porém, os casos vieram a tona em conversa com um padre. Todos já tinham saído do seminário, três por desistência e um por problemas disciplinares. “Guardei isso por muito tempo e eles também. Nós fizemos também amizade, na época do seminário que continuaram e contaram a mesma história, que continua da mesma forma, então a gente não poderia deixar isso. Não podia ser conivente“, disse “Z”.

Em agosto de 2020, as vítimas procuraram a Polícia Civil, que instaurou um inquérito para investigar o caso em sigilo, segundo nota. Em dezembro, um representante da Santa Sé, no Vaticano, foi até Belém para apurar as informações e conversar com as vítimas.

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Arcebispo se defende

Em vídeo, Dom Alberto se defendeu do que chamou de acusações falsas. “Digo a vocês que recebi com tristeza há poucos dias a informações da existência de procedimentos investigativos com graves acusações contra mim, sem que eu tenha sido previamente questionado, ouvido, ou tido qualquer oportunidade para esclarecer esses pretensos fatos postos nas acusações”, falou.

O arcebispo tem 70 anos e se tornou padre em 1973. Foi bispo auxiliar durante 5 anos em Brasília em 1991, até se transformar no primeiro arcebispo metropolitano de Palmas, no Tocantins. À equipe do “Fantástico”, Roberto Lauria, advogado do religioso, afirmou que Dom Alberto está à disposição da justiça.

Roberto Lauria, advogado do arcebispo. (Foto: Reprodução/ TV Globo)

Obviamente que a primeira coisa a ser dita é a negativa e o repúdio a essa denúncia. Todo católico paraense conhece a lisura, a honestidade, a honradez com que se porta Dom Alberto, que doou meio século de vida à Igreja Católica, passando já por três estados e o Distrito Federal, coordenando seminários, ordenando como padre mais de 200 seminaristas. Nós vamos provar ao final desse inquérito, que diferente do que se pensa, os denunciantes não são quatro pessoas isoladas. São um grupo de pessoas, que têm um profundo recalque, um profundo sentimento de vingança por Dom Alberto. E por que tem esse sentimento? Justamente pela grande característica da gestão de Dom Alberto, que era uma gestão austera. Pessoas foram afastadas do seminário por comportamento incompatível com a vida religiosa”, defendeu o profissional.

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Outros padres demonstram apoio ao arcebispo

Ainda na reportagem, o “Fantástico” reproduziu um vídeo em que o padre Fábio de Melo demonstra solidariedade ao arcebispo Dom Alberto. “Dom Alberto já me amparou muitas vezes. Eu gostaria que as minhas orações e o meu carinho fizessem o mesmo por ele neste momento”, afirma o padre no trecho. Outro a manifestar apoio ao acusado foi o padre Marcelo Rossi. Ambos vem sendo fortemente criticados nas redes. Confira a repercussão: