Bebês trocados em AL: Hospital se manifesta na Justiça, e mãe se revolta: “Onde foi então?”

O exame de DNA confirmou a troca dos bebês, um erro que só foi descoberto dois anos após o nascimento das crianças

Troca de bebês em maternidade de Alagoas vai parar na justiça. (Reprodução / Fantástico / TV Globo)

A Justiça de Alagoas determinou que o Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho, em Arapiraca, comprove que não foi o responsável pela troca de dois bebês, entre eles um gêmeo, que nasceram em fevereiro de 2022. O caso veio à tona apenas dois anos depois, quando a mãe, Débora Maria Ferreira Silva, identificou a troca ao ver uma foto de uma criança idêntica a um de seus filhos gêmeos.

Débora, agricultora de São Sebastião, município vizinho a Arapiraca, entrou com um processo ao lado do marido pedindo R$ 300 mil por danos morais. A negativa do hospital causou revolta. “Eu entrei no hospital unicamente para ganhar os meus filhos e não imaginei o trauma que eu iria estar enfrentando hoje. E se esse erro não aconteceu lá, onde foi então?”, questionou Débora, em conversa com o UOL.

Os gêmeos nasceram no dia 21 de fevereiro de 2022. A troca só foi descoberta em fevereiro de 2024, quando Débora recebeu uma imagem de Bernardo, da creche de Craíbas, que se parecia com seu filho. A família procurou os responsáveis pela criança e descobriu que o menino nasceu na mesma maternidade, em 24 de fevereiro daquele ano.

Um exame de DNA confirmou a troca. A Polícia Civil chegou a abrir um inquérito, mas o caso foi encerrado sem uma conclusão clara sobre como o erro aconteceu.

Débora e Suelson movem ação contra hospital após troca de bebês (Foto: Reprodução / TV Globo)

Débora alegou na ação que deu à luz sem a presença do pai, uma vez que o hospital não autorizou sua entrada, nem mesmo após o nascimento, quando os gêmeos, que nasceram prematuros, foram levados à UTI Neonatal e ficaram internados até 12 de março de 2022.

Defesa do hospital nega erro

O Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho afirmou à Justiça que seguiu todos os protocolos e negou qualquer falha nos procedimentos: “Desde logo [o hospital] nega veementemente que tenha cometido alguma falha nos protocolos, não sendo causadora dos danos alegados. Todos os padrões exigidos pela legislação vigente foram rigorosamente observados”.

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O argumento não convenceu a família, que acusa o hospital de negligência. O advogado dos pais dos gêmeos, Fabrizio Almeida, rebateu a clínica: “Essa alegação deles que a troca não ocorreu no hospital não se sustenta em nada, é apenas uma linha de ficção. Desde o início tentamos construir a solução através do diálogo, com uma reparação digna que a situação exigia, todavia as portas foram fechadas”.

O Ministério Público de Alagoas também se posicionou a favor da família. “A troca de bebês ocorreu no hospital no momento em que as crianças estavam internadas, isso é indiscutível: as famílias não se conheciam e são de municípios diferentes. O MPAL ingressou com a ação de responsabilidade do hospital”, afirmou a promotora Viviane Farias.

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Na ação, a defesa da mãe ainda destacou uma suposta falha na identificação dos recém-nascidos. Segundo os advogados, as pulseirinhas de identificação estavam presas nos berços e não nas crianças: “Claramente não ofereceu a segurança adequada aos recém-nascidos, além de não promover a identificação correta das crianças. Foi registrado através de fotos que as pulseirinhas estavam presas nos berços, não nas crianças”.

Mesmo com a resposta da unidade de saúde, o juiz Helestron Silva da Costa, da 8ª Vara da Comarca de Arapiraca, decidiu, no dia 17, pela inversão do ônus da prova, considerando a relação de consumo entre o hospital e os pais. Com isso, a responsabilidade de comprovar que não houve falha recai sobre o hospital.

“O caso da Débora é delicado, mas é uma matéria protegida pelo direito do consumidor. Então, se eles alegam que a troca não ocorreu lá, é preciso provar. Não cabe ao consumidor, a parte frágil da relação ter esse ônus. Deveriam existir controles no hospital para que o fato não tivesse ocorrido, para prevenir”, disse o advogado Almeida.

Hoje, as crianças continuam vivendo com as famílias que as receberam após a alta hospitalar. Uma nova ação judicial, em andamento na 7ª Vara da Comarca de Arapiraca, busca encontrar uma solução adequada para ambas as famílias envolvidas.

Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho, de Arapiraca (AL). (Foto: Reprodução / Google Street View)
Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho, de Arapiraca (AL). (Foto: Reprodução / Google Street View)

O Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho, fundado em 1990, atende pacientes de 50 municípios do agreste alagoano e realiza cerca de 11 mil atendimentos por mês. Em sua defesa, a unidade afirma que “não fora praticada qualquer irregularidade ou erro de procedimento que pudesse, de algum modo, ter ocorrido a entrega dos recém-nascidos as genitoras de forma trocada, uma vez que enquanto estiveram na sede do hospital demandado foram devidamente identificadas, seguindo os protocolos de internação de recém-nascidos”. 

A unidade de saúde também argumenta que a petição apresentada pelos pais “não deixa claro, por meio do conteúdo probatório coligido, que a suposta troca de crianças tenha ocorrido em dependências do centro hospitalar”.

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