Bolsonaro liga para irmãos de petista assassinado e faz convite de olho em reputação; viúva se revolta: “Absurdo” — assista

Pâmela Suellen Silva, viúva de Marcelo, ficou em choque ao ver seus cunhados concordando com argumentos do presidente sem nem mesmo terem presenciado a tragédia

Bolsonaro Marcelo Arruda Assassinado

Jair Bolsonaro (PL) fez uma chamada de vídeo nesta terça-feira (12) com a família de Marcelo Arruda – petista assassinado em seu aniversário por um apoiador do presidente. O chefe de Estado argumentou que “nada justifica” o final trágico dessa história, fez acusações à imprensa, e convidou esses familiares – que são apoiadores dele – para uma coletiva de imprensa em Brasília.

O jornalista Guilherme Amado, colunista do Metrópoles, divulgou um trecho da conversa nas redes sociais. “Por mais que por ventura tenha tido uma troca de palavras grosseiras, mas não justifica o cara voltar armado e fazer o que ele fez”, disse o presidente, através de um celular nas mãos do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). “Nem justifica ele ter aparecido lá, presidente”, respondeu um familiar da vítima.

Marcelo foi morto em sua festa de aniversário, que tinha uma temática petista. (Foto: Reprodução/BAND)

No papo, o presidente alegou que a imprensa e a esquerda estariam tentando colocar a culpa do assassinato “no seu colo” – por mais que, em 2018, já tenha falado sobre “fuzilar a petralhada”, mesmo que em sentido figurado. Ele convidou essa parte da família de Marcelo para uma coletiva de imprensa nesta quinta-feira (15). “A ideia é ter uma coletiva com a imprensa para vocês falarem a verdade, não é a esquerda ou a direita. A imprensa está tentando desgastar o meu governo”, afirmou.

Continua depois da Publicidade

Segundo o jornalista, os irmãos de Marcelo apoiam Bolsonaro, ao contrário do guarda municipal assassinado. Eles não deixaram claro se fariam ou não parte dessa coletiva de imprensa. Contudo, os familiares de Arruda explicaram que não queriam que o caso fosse explorado politicamente. Assista ao vídeo abaixo:

Viúva se choca com diálogo de presidente e cunhados

Pâmela Suellen Silva, esposa de Marcelo, ficou surpresa ao descobrir da ligação do presidente aos irmãos do petista. “Absurdo, eu não sabia”, contou ela em entrevista ao jornalista Chico Alves, colunista do UOL. Segundo ela, seus cunhados nem mesmo estavam no aniversário em que a tragédia se desdobrou. “Os irmãos de Marcelo não estavam na festa, como eles podem ter concordado com o que o presidente falou?”, questionou a viúva.

Marcelo Arruda Familia
Pâmella teve dois filhos com Marcelo. (Foto: Reprodução)

Pâmela ficou indignada com a reação dos irmãos de seu marido, ao vê-los negarem a motivação política por trás do ataque na festa. “Sabíamos que eles apoiavam o presidente, mas não imaginei que chegasse a esse ponto de eles deturparem a real história, dizer que o cara não foi por motivos políticos lá. Então, por que ele foi? Se a gente não conhecia ele, se a gente não sabia quem ele era? Ele tirou a vida do meu marido porque Marcelo era gordo, barrigudo? Óbvio que foi por motivo político”, lamentou ela, que é mãe de dois filhos com o guarda municipal.

Continua depois da Publicidade

Críticas pela web

Nas redes sociais, muitos questionaram a tentativa do presidente de defender e proteger sua imagem diante da tragédia. “É isso que Bolsonaro tem a oferecer à família de Marcelo Arruda: a oportunidade de falar que Jair não tem culpa”, escreveu o advogado Jeff Nascimento. Outros lamentaram o fato de que essa ligação não teria sido com a família mais próxima de Marcelo, e sim, com um núcleo mais apegado ao presidente. “A família de Marcelo é a mulher dele e os quatro filhos… Inclusive, Marcelo tem filho adulto… São esses que podem falar como família de Marcelo. Irmãos nesse caso são parentes mais distantes, não podem representar o Marcelo juridicamente”, apontou outro perfil. Veja as reações:

Continua depois da Publicidade

https://twitter.com/muitohumildee/status/1546969930071003141?s=21&t=971XyiRZFw07K-Nnr6zQ9g

Continua depois da Publicidade

Entenda o caso

Na noite de 9 de julho, uma festa de aniversário tornou-se cenário de uma tragédia em Foz do Iguaçu, região oeste do Paraná. O guarda municipal Marcelo Arruda, que celebrava seus 50 anos, promoveu um evento com temática petista e acabou sendo morto pelo policial penal federal Jorge José da Rocha Guaranho, apoiador de Jair Bolsonaro. Imagens registradas pelas câmeras de segurança do local vieram à tona e mostram o exato momento do crime.

Continua depois da Publicidade

Marcelo, que era filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) de Foz do Iguaçu, fez uma festa para celebrar seu aniversário com uma série de detalhes remetendo ao grupo político, como sua camiseta e decorações exibindo o rosto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo relato de André Alliana, amigo próximo da vítima, o crime aconteceu momentos depois do “parabéns” ao guarda municipal. Enquanto os presentes cortavam o bolo, Jorge teria invadido a celebração aos gritos, disparando ofensas contra todos.

“A festa era com temática do PT. Por volta das 23h, um sujeito que ninguém conhecia apareceu xingando os convidados, chamando o Lula de desgraçado e esbravejando o nome do Bolsonaro, chamando-o de ‘mito’. O maluco disse que voltaria para matar todo mundo. E ele voltou”, detalhou a testemunha, em entrevista ao Brasil de Fato. Diante das ameaças, o aniversariante se dirigiu até seu carro para buscar sua arma.

Continua depois da Publicidade

Minutos depois, o invasor, identificado como o agente penitenciário federal Jorge José da Rocha Guaranho, apoiador ferrenho de Bolsonaro nas redes sociais, retornou empunhando uma pistola e disparou contra o guarda. Nas imagens, divulgadas pelo portal Metrópoles neste domingo (10), é possível ver que, após o parabéns, Guaranho invadiu o local e logo saiu atirando contra Arruda, que caiu próximo a uma mesa, aparentemente ferido. Na sequência, Jorge se aproximou do guarda municipal e então efetuou novos disparos, antes de ser empurrado por uma mulher loira, não identificada.

Nas redes sociais, Jorge era apoiador ferrenho do atual presidente da República, Jair Bolsonaro. (Foto: Reprodução/Facebook)

Ainda com vida, mas ferido e caído ao chão, Marcelo conseguiu reagir e revidou os tiros. Jorge tentou correr em direção à saída, mas foi atingido e caiu dentro do salão. Por fim, uma pessoa se aproximou dele e começou a chutá-lo na cabeça. Jorge permaneceu imóvel e, do outro lado do espaço, Marcelo se contorceu enquanto pessoas tentavam ajudá-lo. Confira o vídeo na íntegra:

Continua depois da Publicidade

Marcelo foi atingido com dois tiros à queima roupa. Antes de falecer, ele acertou três disparos em Jorge José. Ao contrário do que foi reportado pela polícia anteriormente, Guaranho não morreu após cometer o crime e ser baleado. De acordo com a delegada responsável pelo caso, o agente foi autuado em flagrante e segue internado, sob custódia das autoridades. Nesta terça-feira (12), Secretaria da Segurança Pública do Paraná informou que ele está sedado na UTI, em “assistência ventilatória mecânica, hemodinamicamente estável”.

A Polícia Civil deu início à investigação do incidente ainda no sábado (9). Durante as diligências, as autoridades requisitaram as imagens das câmeras de monitoramento para a diretoria da Aresfi, que sediou a festa de aniversário. A organização se comprometeu a entregá-las. As armas, por sua vez, foram encaminhadas para perícia.