Caso Miguel: Sari Corte Real presta depoimento e causa tumulto na saída; Mãe do garoto revela conversa que teve com a ex-patroa na delegacia: “Ela é um monstro, pessoa fria e calculista”

Quase um mês após a morte do menino Miguel Otávio, que caiu do nono andar de um prédio em Recife, Sari Gaspar Corte Real, responsável pelo garoto na hora do acidente, prestou depoimento nesta segunda-feira (29). Na ocasião, uma confusão se instalou assim que ela saiu da delegacia, com vários protestos e gritos de “assassina”. A mãe de Miguel, Mirtes Souza, também teria conversado com a ex-patroa e manifestou sua revolta sobre o caso.

DEPOIMENTO SARI

Após ter sido autuada por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) e ter pago uma fiança de R$ 20 mil, Sari Gaspar voltou à delegacia na manhã de hoje (29). De acordo com o G1, a primeira-dama de Tamandaré chegou ao local por volta das 5h50, e seu depoimento teria acabado por volta das 12h.

Um fator no depoimento, em especial, causou muita revolta pela web. A Delegacia de Santo Amaro costuma abrir às 8h, contudo, por conta da deposição de Sari, abriu cerca de duas horas mais cedo. A Polícia Civil afirma que a antecipação teria sido um pedido dos advogados da acusada, por motivos de segurança.

A família do garoto, que estava no local, lamentou a postura. “Dinheiro fala muito mais alto, tanto é que a delegacia abriu mais cedo para ela”, queixou-se Marta Santana, avó de Miguel. Nas redes sociais, foram várias as manifestações de repúdio. “Sem pressão nacional, Sari Corte Real, a assassina, sairá impune dessa”, disparou um perfil.

“A Delegacia de Santo Amaro abriu duas horas mais cedo para o depoimento de Sari Corte Real pra não comprometer a integridade física dela. Se fosse Mirtes a denunciada será que teríamos o mesmo tratamento?”, questionou outro internauta.

TUMULTO NA SAÍDA DA DELEGACIA

Sari Gaspar deixou a delegacia após quase nove horas, por volta das 14h30. A ex-patroa de Mirtes Souza, mãe de Miguel, saiu acompanhada de um advogado, sem falar com a imprensa, e se deparou com uma grande confusão. A população, que havia se reunido e protestado na porta da DP, recebeu a primeira-dama de Tamandaré com xingamentos e gritos de “assassina”.

A polícia tentou conter o tumulto, deixando uma viatura na porta da delegacia. Mesmo assim, foi difícil até que os policiais ultrapassem a aglomeração de manifestantes e conseguissem levar Corte Real para lá. Além disso, muitos tentaram impedir a partida do carro, ficando na frente da veículo e dando tapas na carroceria. Com muito esforço, Sari saiu do local na viatura, com seus familiares e advogados seguindo no carro particular que partiu logo atrás, escoltado por policiais.

Assista aos vídeos do momento aqui:

DESABAFO DA MÃE DE MIGUEL

Mirtes Renata de Souza chegou na delegacia pouco após as 8h, pronta para esperar por Sari e tentar “dizer uma verdades na cara dela”. A mãe de Miguel ficou abraçada com um retrato do filho e, às 10h50, foi autorizada a entrar no local com um advogado, para uma conversa extraoficial com sua ex-patroa. Mas a postura da primeira-dama de Tamandaré deixou Mirtes indignada: “Ela não me pediu desculpas. Disse que eu não tinha obrigação nenhuma de cuidar dos filhos dela”.

Sari teria dito que Mirtes não precisava cuidar dos filhos da patroa, provavelmente tentando se esquivar da responsabilidade de cuidar de Miguel. Entretanto, a mãe do menino desmentiu a versão. “A gente olhava [os filhos de Sari] porque de manhã ela ia correr, depois ia pra academia, pra salão, chegava em casa ia dormir. Pera aí, gente? Enquanto ela ficava deitada mexendo no celular, eu e a minha mãe tínhamos que olhar os filhos dela, se não eles iam ficar ao léu”, revoltou-se ela.

“Que ingratidão! Isso é um absurdo”, completou Mirtes, que após a conversa, acredita que a ex-patroa não se sente culpada pela morte de Miguel. “Ela não demonstrou arrependimento nenhum. Ela é um monstro, uma pessoa fria e calculista”, acrescentou. Assista a um trecho do desabafo da mãe de Miguel:

Mirtes afirmou ainda que conversou com o esposo de Sari, Sérgio Hacker, o prefeito de Tamandaré. “Ele disse que podia contar com ele se estivesse precisando de algo. Meu problema não é com ele, é com Sari. Ela disse que não apertou o botão”, comentou a funcionária doméstica.

A avó de Miguel também se queixou da defesa da primeira-dama, manifestando seu desejo de justiça para que Sari seja responsabilizada por seus atos. “Ela deixou o menino, ela apertou o botão, não tem como ela negar isso. Ela só tem que pagar pelo que ela fez. Se fosse filho dela, ela não teria feito isso”, disse.

Relembre o caso

Miguel Otávio Santana da Silva, de apenas cinco anos, faleceu após cair do 9º andar do edifício de luxo Píer Maurício de Nassau, que fica no bairro de São José, em Recife. O garoto era filho da auxiliar doméstica Mirtes Souza, que trabalhava para a família do prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, e precisou levar o garoto para o trabalho neste dia.

Miguel Otávio, de apenas 5 anos, caiu do nono andar de um prédio enquanto estava aos cuidados da patroa de sua mãe. (Foto: Reprodução/Facebook)

Antes de sua morte, Miguel buscava pela mãe, que estava fora do apartamento dos ex-patrões, passeando com o cachorro dos moradores. Nas imagens do circuito interno do prédio, é possível ver a criança entrando nos elevadores e que, inicialmente, Sari Gaspar Corte Real tentou impedi-lo de se locomover entre os andares. No entanto, ela acabou cedendo, até mesmo apertando um dos botões e permitindo que o menino entrasse no equipamento sem a supervisão de um adulto.

Miguel apertou vários botões enquanto estava sozinho. Ele parou no sétimo andar, mas não desceu. Contudo, ao chegar no nono andar, ele saiu do elevador e abriu uma porta. Cerca de um minuto depois, o garoto caiu no térreo do edifício – uma queda de uma altura de 35 metros.

Sari foi autuada por homicídio culposo (Foto: Reprodução)

Na ocasião, Sari foi autuada em flagrante, acusada de homicídio culposo. Todavia, a primeira-dama foi liberada para responder ao processo em liberdade, após pagar a fiança de R$ 20 mil. Em carta para a mãe do garoto, ela pediu perdão pela atitude, mas disse estar sendo perseguida. “Tenho certeza que a Justiça esclarecerá a verdade”, escreveu.

PROTESTOS

A morte de Miguel teve uma grande repercussão nacional, com vários protestos e manifestações, especialmente pela indignação com a fiança de Sari. Num abaixo-assinado virtual, mais de 2,5 milhões de assinaturas pediram por justiça para o garoto. Políticos e artistas também se posicionaram pelas redes sociais, temendo que responsáveis pelo caso ficassem impunes.

No dia 12, um ato ocorreu em frente às “Torres Gêmeas” de Recife, o local em que Miguel sofreu a queda. No protesto pacífico, os manifestantes levaram cartazes e soltaram balões pretos. Havia também o apoio ao movimento “Vidas Pretas Importas”. Os presentes caminharam até a delegacia que investiga a ocorrência e exigiram que o caso fosse tratado como homicídio doloso – quando há intenção de matar.