Caso Vitória: Em áudio, Maicol diz que foi coagido a confessar crime para proteger família; ouça

Maicol está preso desde o dia 8 de março

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Dois dias após ter sido gravado confessando o assassinato de Vitória Regina de Sousa, de 17 anos, Maicol Sales dos Santos, de 23, gravou um áudio afirmando que foi coagido a admitir o crime. Segundo ele, policiais ameaçaram prender sua mãe, esposa e outros familiares caso não colaborasse. A gravação, obtida pelos advogados de defesa e divulgada pelo g1, tem cerca de dez minutos e pode ser usada para pedir a anulação da confissão.

No áudio, Maicol relata que foi pressionado a admitir a autoria do homicídio para proteger seus familiares. “Por volta de 22h, eles me chamaram lá em cima e falaram que o delegado ia me f*der de qualquer jeito. De qualquer jeito ele ia me f*der. Aí pegou, falou que ia colocar a minha mãe na cena do crime. Falou que ia colocar minha esposa, ia colocar minha família toda, se eu não ajudasse, se eu não cooperasse. Aí eu peguei e inventei uma história e falei que fui eu pra livrar minha família”, alegou.

Ele também diz que foi colocado em um banheiro sujo ao se recusar a colaborar com os policiais. “Se vocês puxarem pela câmera ali fora, eles foram lá me chamar e eu falei que não ia falar com eles. Aí o policial falou: ‘Já que você não vai cooperar comigo, então você vai ficar no banheiro’. Eles me colocaram no banheiro, muito sujo, podre”, continuou.

Em outro trecho, Maicol é consolado pelos advogados: “Eu só quis livrar minha família porque eles falaram que iam prender minha mãe, minha esposa, toda minha família. Eu só queria proteger eles”.

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Segundo a defesa, formada pelos advogados Flávio Ubirajara, Arthur Novaes e Vitor Aurélio, o depoimento à polícia ocorreu durante a madrugada, sem presença da defesa constituída. “A suposta confissão de Maicol, que, por si só, já está cercada de graves irregularidades. A ausência de advogados constituídos no ato, e a realização de oitiva durante o período de repouso noturno”, diz nota do escritório.

Os representantes também questionam a decisão do delegado de agendar, sem ordem judicial, uma perícia psiquiátrica em Maicol: “Tal medida desrespeita expressamente o artigo 149, §1º, do Código de Processo Penal, tornando sua realização ilegal e arbitrária”.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) e a Polícia Civil informaram, em nota, que o interrogatório seguiu todos os trâmites legais e que uma advogada foi chamada para acompanhar o depoimento.

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A Polícia Civil solicitou ao IML a reconstituição do crime, em movimento que contradiz a declaração anterior do delegado Fábio Lopes Cenachi, que afirmara “não haver necessidade” da reprodução simulada. Segundo a corporação, o objetivo é esclarecer todas as circunstâncias da morte.

“O principal suspeito segue preso temporariamente após confessar a autoria do homicídio e as investigações prosseguem pela Delegacia de Cajamar para a conclusão do inquérito policial. A Polícia Civil ressalta que todos os procedimentos adotados no caso obedeceram estritamente o Código de Processo Penal”, disse a SSP.

Familiares e amigos da vítima fizeram um ato neste domingo (23) em Cajamar e pedem justiça.

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O sequestro

Vitória desapareceu na noite de 26 de fevereiro, após sair do trabalho em um shopping de Cajamar e seguir seu trajeto habitual para casa. Imagens de câmeras de segurança mostram que a jovem foi abordada por dois homens em um carro enquanto aguardava o ônibus. Desconfiada, ela chegou a enviar mensagens para uma amiga relatando o incômodo com a atitude deles.

Conversa de Vitória Regina com a amiga momentos antes de desaparecer. (Foto: Reprodução)

Momentos depois, outros dois homens se aproximaram e ficaram no mesmo ponto. Os três embarcaram no ônibus, mas, segundo a jovem, desceram antes dela. O motorista do coletivo confirmou que Vitória desceu sozinha em uma estrada de terra no bairro Ponunduva, onde morava com a família. Esse foi o último local onde foi vista.

Vitória desapareceu no dia 26 de fevereiro após sair do trabalho em um shopping em Cajamar (Foto: Reprodução)
Vitória desapareceu no dia 26 de fevereiro após sair do trabalho em um shopping em Cajamar (Foto: Reprodução)

Câmeras de segurança registraram o veículo de Maicol, um Toyota Corolla prata, circulando pela área onde Vitória desapareceu. Segundo as investigações, ele teria seguido a vítima até o ponto de ônibus e a sequestrado quando desceu do transporte.

A Polícia Civil aponta que Vitória foi mantida em cativeiro antes de ser assassinada. Segundo laudos preliminares, ela foi torturada e teve os cabelos raspados. O corpo foi encontrado uma semana depois, em uma área de mata em Cajamar.

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