Caso Vitória: Polícia indicia único suspeito por homicídio, sequestro e ocultação de cadáver

Maicol Santos admitiu ter matado Vitória Sousa em um vídeo registrado pela delegacia de Cajamar

A jovem foi encontrada morta em uma área de mata, em Cajamar. (Foto: Reprodução/Redes Sociais/Record TV)
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A Polícia Civil de São Paulo indiciou Maicol Santos, único suspeito preso pelo assassinato de Vitória Sousa, pelos crimes de homicídio qualificado, sequestro e ocultação de cadáver. A adolescente, de 17 anos, foi morta a facadas no dia 26 de fevereiro, em Cajamar, na Grande São Paulo. O corpo dela foi encontrado dias depois, em 5 de março.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) confirmou o indiciamento, nesta segunda-feira (31), ao g1. “A Polícia Civil indiciou o autor por homicídio qualificado em concurso com sequestro e ocultação de cadáver”, explicou, em nota.

A SSP afirmou que, nesta segunda (31), a delegacia de Cajamar e peritos do Instituto de Criminalística (IC) realizaram novas diligências na casa de Maicol. Segundo a secretaria, ainda existe a possibilidade de uma perícia complementar.

Vitória desapareceu no dia 26 de fevereiro após sair do trabalho em um shopping em Cajamar (Foto: Reprodução)
Vitória desapareceu no dia 26 de fevereiro após sair do trabalho em um shopping em Cajamar (Foto: Reprodução)

Os laudos, que vão identificar se o sangue e o cabelo achados no carro do suspeito pertencem a Vitória, ainda não foram finalizados. A reconstituição do crime também está prevista para abril, mas ainda sem data definida. Depois disso, o inquérito será encerrado e enviado ao Ministério Público (MP) e à Justiça.

A defesa de Maicol comunicou que ele não participará da reconstituição do caso, pois seus advogados contestam a forma como foi realizado o interrogatório em que ele confessou o crime.

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No depoimento gravado pela polícia, o suspeito admitiu ter matado Vitória sozinho e alegou que a jovem ameaçava contar à esposa dele sobre um suposto relacionamento que tiveram no passado: “Comecei a conversar com ela, que não era pra ela falar com a minha esposa. Nisso, ela se alterou e começou a brigar. Começou a me agredir. E foi a hora que eu reagi. Sempre andei com uma faca no carro. Aí, no momento da exaltação, eu acabei desferindo um golpes no pescoço dela. Foram só dois golpes”.

No entanto, em um áudio gravado posteriormente por seus advogados, Maicol alegou que foi coagido por policiais a confessar o crime. Segundo ele, os agentes ameaçaram prender seus familiares caso ele não assumisse a autoria do homicídio.

A perícia encontrou no celular de Maicol fotos de facas e de um revólver. (Foto: Reprodução / TV Globo)
A perícia encontrou no celular de Maicol fotos de facas e de um revólver. (Foto: Reprodução / TV Globo)

“Por volta de 22h, eles me chamaram lá em cima e falaram que o delegado ia me f*der de qualquer jeito. De qualquer jeito ele ia me f*der. Aí pegou, falou que ia colocar a minha mãe na cena do crime. Falou que ia colocar minha esposa, ia colocar minha família toda, se eu não ajudasse, se eu não cooperasse. Aí eu peguei e inventei uma história e falei que fui eu pra livrar minha família” contou.

Maicol revelou, durante a conversa gravada com os advogados, que não sabe o nome do delegado que o pressionou a admitir o assassinato de Vitória: “Eu só quis livrar minha família porque eles falaram que iam prender minha mãe, minha esposa, toda minha família. Eu só queria proteger eles”. Ouça: 

Segundo a equipe jurídica do acusado, a gravação da conversa com Maicol ocorreu pouco antes de sua transferência da cadeia de Cajamar para uma unidade prisional em Guarulhos. “Maicol alega sofrer pressão para confessar esse fato”, afirmou o advogado, Flávio Ubirajara.

Quando questionado se seu cliente apresentou uma versão diferente sobre o crime ou afirmou não ter matado Vitória, o advogado explicou que essa é uma questão para a polícia: “Não compete a defesa dizer que é o cliente é culpado ou inocente”. Em nota, a equipe jurídica afirmou que o suspeito foi pressionado a confessar o crime, alegando que Maicol sofreu “coação psicológica”. Além disso, destacam que a Justiça recusou um pedido da polícia para realizar uma análise psiquiátrica no detido.

“A suposta confissão de Maicol, que, por si só, já está cercada de graves irregularidades. A ausência de advogados constituídos no ato, e a realização de oitiva durante o período de repouso noturno”, diz o comunicado.

A polícia acredita que Maicol tinha uma certa obsessão pela vítima. (Foto: Reprodução / TV Globo)
A polícia acredita que Maicol tinha uma certa obsessão pela vítima. (Foto: Reprodução / TV Globo)

A Secretaria de Segurança divulgou uma nota afirmando que a investigação está sendo conduzida de acordo com a legislação e que, além disso, será realizada a reprodução simulada do caso Vitória: “A Polícia Civil solicitou ao IML [Instituto Médico Legal] a reconstituição do crime para esclarecer todas as circunstâncias em que ele ocorreu. O principal suspeito segue preso temporariamente após confessar a autoria do homicídio e as investigações prosseguem pela Delegacia de Cajamar para a conclusão do inquérito policial. A Polícia Civil ressalta que todos os procedimentos adotados no caso, inclusive o depoimento do suspeito, obedeceram estritamente o Código de Processo Penal”.

A defesa agora estuda pedir à Justiça a anulação da confissão, enquanto a SSP sustenta que o interrogatório foi conduzido dentro da legalidade, e que o acusado fez a confissão na presença de uma advogada da OAB.

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Indícios apontam crime premeditado

A investigação indica que Maicol teria matado Vitória por medo de que ela contasse à esposa dele sobre o envolvimento dos dois. Segundo a polícia, ele foi até o ponto de ônibus onde a jovem desceu, deu carona para ela e, no trajeto, os dois discutiram antes da vítima ser golpeada.

A perícia apontou contradições na versão do suspeito. Maicol disse ter desferido dois golpes de faca, mas a Vitória apresentava três ferimentos. Além disso, ele afirmou que enterrou a jovem, no entanto, o corpo dela foi encontrado em uma cova rasa, sem estar completamente coberto.

As autoridades descartaram a participação de outras pessoas, e afirmam que o caso está esclarecido. Porém, familiares e amigos de Vitória Regina levantam dúvidas sobre essa conclusão. Antes de desaparecer, a garota enviou mensagens para uma amiga e relatou que estava assustada porque havia sido observada por dois homens em um ponto de ônibus, e assediada por ocupantes de um carro.

Conversa de Vitória Regina com a amiga momentos antes de desaparecer. (Foto: Reprodução)

No dia 23, parentes e pessoas próximas realizaram um protesto em Cajamar pedindo justiça. Mesmo diante das suspeitas dos familiares, a polícia mantém a versão de que Maicol agiu sozinho e que a motivação do crime já foi esclarecida.

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