Conselheira tutelar revela passado trágico de jovem morto por leoa, e diagnóstico recebido por ele: ‘É muito triste’

Verônica Oliveira, que atua em Mangabeira, João Pessoa, acompanhava Gerson Machado há 9 anos

A conselheira tutelar de João Pessoa, Verônica Oliveira, contou a trajetória de Gerson Machado, jovem que morreu ao invadir a jaula de uma leoa na Bica. Ela citou problemas familiares, o histórico do rapaz e apontou as falhas na rede de proteção e na oferta de cuidados públicos.

A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que atua em Mangabeira, João Pessoa, contou a história envolta por negligências de Gerson de Melo Machado, de 19 anos. O rapaz morreu após invadir a jaula da leoa Leona, no zoológico do Parque Arruda Câmara, conhecido como Bica. Ao UOL, neste domingo (30), a profissional contou que Gerson foi afastado da mãe, diagnosticada com esquizofrenia.

Já no final da adolescência, ele recebeu diagnóstico de deficiência intelectual e esquizofrenia. Verônica, que o acompanhava há 9 anos, revelou que ele tinha o sonho de ir para a África para ser domador de leões.

“Ele uma vez foi pego já no trem de pouso de um avião que pensava ir para a África. Sorte que as câmeras viram. Ele tinha uma deficiência intelectual visível, mas só conseguiu diagnóstico quando entrou no sistema socioeducativo”, contou.

Para a conselheira, Gerson estava em surto e não tinha noção do risco. “Ele precisava de acompanhamento de saúde mental digno, mas não teve. Todo o poder público falhou com ele, com a família”, lamentou.

Conselheira tutelar Verônica Oliveira ao lado de Gerson Machado (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Continua depois da Publicidade

Gerson foi levado ao Conselho Tutelar pela primeira vez, aos 10 anos, por policiais rodoviários federais que o encontraram andando sozinho à beira da estrada. Segundo Verônica, ele havia fugido de um abrigo em Pedras de Fogo. “Quando o policial perguntou, ele disse que tinha fugido de casa em Mangabeira, onde moravam a mãe e a avó. Nós o levamos até lá, sem saber da história, e só então soubemos da verdade. Apesar de a mãe ter sido destituída, ele ainda queria ficar com ela”, explicou.

O jovem e os quatro irmãos foram encaminhados para adoção após a Justiça entender que a mãe não tinha condição de criar os filhos. Todos foram adotados, menos Gerson. “Começou ali uma saga para ele ser acolhido. Em 2017, ouvimos de uma coordenadora de uma instituição de acolhimento que ninguém iria adotar uma criança como ele. Esse menino foi negligenciado, privado do direito de ter uma família e de um acompanhamento digno”, salientou.

Continua depois da Publicidade

Somente em 2023, o rapaz recebeu o que seria seu primeiro laudo. O documento, datado de 2 de março de 2023 e assinado pelo psiquiatra Klecyus dos Reis, apontou hipótese de deficiência intelectual com transtorno de conduta. Além disso, recomendou atenção integral.

“O paciente evolui com comportamento disruptivo e dificuldades adaptativas. Segue com oscilações de humor, labilidade afetiva, agitação psicomotora e impulsividade. (…) Recomenda-se tratamento multidisciplinar em saúde mental, sob supervisão e regime integral”, diz o laudo, divulgado pelo portal.

Conforme a conselheira, porém, o documento foi assinado de forma tardia. “Esse laudo só veio quando ele já tinha sofrido todos os horrores de violências e violações”, cravou.

Continua depois da Publicidade

Detenções

Gerson foi detido diversas vezes por crimes de baixo potencial ofensivo e chegou a ser internado em centros socioeducativos. “Ele gostava de estar lá, se sentia seguro e era medicado”, relatou Verônica. No entanto, ao atingir a maioridade, as ações do rapaz passaram a ter consequências mais severas.

“Ensinaram ele a ligar motos achadas na rua. Ele pegava, andava e depois deixava na delegacia. Todo mundo aqui o conhecia e ligava para gente, porque o caso dele era de saúde mental, não de segurança”, enfatizou. O jovem foi detido pela última vez na semana passada após tentar arrombar um caixa eletrônico. Ele ainda teria arremessado pedras ao ver o carro da polícia.

A prisão foi feita em flagrante e Gerson foi levado ao Presídio do Roger, em João Pessoa. Ele acabou sendo liberado no dia seguinte depois de uma audiência de custódia, e encaminhado para tratamento psiquiátrico. Na decisão, consta um diagnóstico mais recente informando que, além da deficiência intelectual, o rapaz tinha esquizofrenia.

Presídio do Roger, em João Pessoa, onde Gerson ficou detido (Foto: Reprodução/TV Cabo Branco)

Continua depois da Publicidade

O diretor do presídio, Edmilson Alves, confirmou que Gerson teve seis passagens pelo local desde os 18 anos: “A gente sabia que ele precisava de ajuda e de tratamento. A Justiça também entendeu que o local dele não era o presídio e decidiu que ele iria para o Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

“A maioria dos crimes de Vaqueirinho [como era conhecido] era por dano e pequenos furtos. Não estou romantizando, mas era um rapaz com problemas mentais, e a gente alertou. Posso dizer com certeza: a nossa parte, o sistema penitenciário fez”, completou Alves.

Continua depois da Publicidade

Gerson procurou o Conselho Tutelar um dia após ser solto. “Ele me falou: ‘Tia Verônica, o cara do presídio disse que eu tenho que tirar a carteira de trabalho, a senhora me ajuda?’. Eu fiz uma cópia e expliquei onde ele devia ir”, contou a profissional.

Ele não tinha casa fixa e passava a maior parte das noites na casa da avó esquizofrênica, que o deixava dormir lá. “Mas ele era inquieto, vivia andando”, recordou Verônica. Ela ainda expressou sua indignação com o sistema após a morte do jovem. “Por que precisou morrer para se provar que ele tinha deficiência mental e precisava de cuidados? Que fique o exemplo para todos”, alertou.

“O caos na cidade é claro pela falta de locais para onde levar pacientes. Ele precisava ser internado, ter tratamento. Temos um procedimento aqui sobre ele com mais de 100 páginas, sem nunca ter solução. É muito triste ele morrer porque ninguém fez nada”, lamentou a conselheira, por fim.

Jogado aos leões

Nas redes, ela também chegou a dar um depoimento sensível sobre a história, na ocasião do falecimento. Leia a íntegra:

Gerson, meu menino sem juízo, quantas vezes na sala do Conselho Tutelar, você dizia a mim que ia pegar um avião para ir para um safári na África para cuidar dos leões. Você ainda tentou, mas eu agradeci a Deus quando fui avisada pelo aeroporto que você tinha cortado a cerca, e tinha entrado no trem de pouso do avião da Gol, dei graças a Deus porque observaram pelas câmeras que havia um adolescente antes que uma desgraça acontecesse. Foram 8 anos acompanhando, lutando, brigando para garantir seus direitos, quando você entrou na minha sala pela primeira vez tinha apenas 10 anos, eu e a conselheira Patrícia Falcão recebemos você das mãos da PRF, pois você foi encontrado na BR…

Desde então, toda a Rede de Proteção passou a me procurar quando qualquer coisa acontecia com você. Eu nunca consegui ver você como as redes sociais te desenhavam, eu conheci a criança, que foi destituída do poder familiar da mãe, e foi impedida de ser adotada como os outros 4 irmãos foram, e o que a responsável pela instituição de acolhimento justificou, foi que quem iria adotar alguém como você? Você só queria voltar a ser filho de sua mãe, que é esquizofrênica e não tinha condições nenhuma de cuidado… Sua avó também com problema mentais, mas a sociedade sem conhecer sua história preferiu te jogar na jaula dos leões“.

Assista a outro relato feito pela conselheira:

Continua depois da Publicidade

O que diz a Secretaria de Saúde de João Pessoa

Em nova divulgada nesta segunda-feira (1º), a Secretaria de Saúde de João Pessoa se pronunciou sobre o caso. O órgão ainda listou as instituições disponíveis para os tratamentos. Leia a íntegra:

“A SMS mantém uma rede de saúde mental estruturada com serviços que atendem durante todo o ano. A porta de entrada para essa assistência é a Atenção Básica, por meio das Equipes de Saúde da Família, que reconhecem as necessidades da população e fazem a ponte com os demais serviços da rede. Assim, são realizados os encaminhamentos necessários para os serviços adequados para receber cada indivíduo. 

Na rede especializada, estão inseridas as Policlínicas Municipais, onde a população tem acesso a acompanhamento psicológico, psiquiátrico e neurológico, encaminhado pelas Unidades de Saúde da Família (USFs). É também em uma das Policlínicas (Jaguaribe) onde funciona o Centro de Referência do Cuidado à Vida, para acolhimento e atendimento de pessoas com depressão.

Continua depois da Publicidade

Além disso, a rede municipal de saúde dispõe de quatro Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que são instituições destinadas a acolher pessoas com transtornos mentais persistentes ou que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas. O atendimento pode ser de forma espontânea, procurando diretamente o serviço, ou encaminhado pelas Unidades de Saúde da Família.

Em casos de crise, também há o atendimento de urgência e emergência no Pronto Atendimento em Saúde Mental (PASM), anexo ao Complexo Hospitalar de Mangabeira, o atendimento de urgência no Hospital do Valentina (crianças e adolescentes) e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de João Pessoa (Samu-JP).

Continua depois da Publicidade

Para quem busca a prevenção e recuperação da saúde de forma natural, sem a necessidade de medicação, a SMS dispõe de serviços como os Centros de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (CPICS), onde são oferecidas terapias alternativas como acupuntura, tai chi chuan, reiki, auriculoterapia, ventosaterapia, yoga, terapia comunitária, meditação e outras.

Para ter acesso às terapias disponibilizadas, o cidadão pode ser encaminhado por sua Unidade de Saúde da Família (USF) de referência ou procurar os serviços diretamente. Os CPICS estão localizados nos bairros Valentina (CPICS Canto da Harmonia) e Bancários (CPICS Equilíbrio do Ser).

Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques