Delegado revela principal linha de investigação em caso de técnicos de enfermagem suspeitos de matar pacientes no DF

O suspeito e outras duas técnicas de enfermagem foram presos após mortes no Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF)

A Polícia Civil do DF investiga três técnicos de enfermagem suspeitos de matar pacientes no Hospital Anchieta, em Taguatinga. Segundo a apuração, ao menos três internados morreram após aplicação irregular de medicamentos, e há indícios de que outros casos possam estar ligados ao grupo.

O delegado Maurício Iacozzilli, da Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa do Distrito Federal, informou nesta quarta-feira (21) a principal linha de investigação do caso envolvendo três técnicos de enfermagem suspeitos de assassinar pacientes no Hospital Anchieta. Segundo a polícia, ao menos três pessoas que estavam internadas na unidade, localizada em Taguatinga (DF), teriam sido mortas após a aplicação irregular de medicamentos.

Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, é apontado como o principal suspeito. As técnicas de enfermagem Marcela Camilly Alves da Silva e Amanda Rodrigues de Sousa, suspeitas de envolvimento nos óbitos, foram presas. Eles são investigados pelas mortes de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos, João Clemente Pereira, de 63, e Miranilde Pereira da Silva, de 75.

Para a Folha de São Paulo, a Polícia Civil declarou que acredita que pode haver mais mortes ligadas aos suspeitos. “Até agora, essa é a hipótese mais forte. Os investigadores apuram ainda se o principal suspeito pode ter manipulado as outras duas técnicas para auxiliá-lo nos crimes. Uma delas estava em treinamento, tinha 22 anos, e estava no primeiro emprego; a outra era amiga do suspeito havia muitos anos”, afirmou.

Amanda Rodrigues de Sousa, Marcos Vinícius Silva e Marcela Camilly Alves são suspeitos de matarem pacientes na UTI do Hospital Anchieta. (Foto: TV Globo/Divulgação)

Em um dos episódios, uma das técnicas teria permanecido no quarto apenas observando a aplicação do medicamento, sem qualquer intervenção. Já em outro caso, a segunda investigada, que atuava em um setor diferente, teria dado cobertura à ação, ficando de vigia na porta enquanto o remédio era administrado.

A polícia agora aguarda os laudos periciais dos celulares e computadores apreendidos para esclarecer a real motivação dos crimes e apurar se houve troca de mensagens entre as investigadas ou com terceiros. “É isso que pode ajudar a entender melhor o porquê desses crimes”, afirmou Iacozzilli. A expectativa é que os laudos sejam concluídos em um prazo de 15 a 20 dias.

Segundo o delegado responsável pelo caso, as versões apresentadas pelo principal investigado não se sustentam diante das provas já reunidas pela investigação. Inicialmente, o técnico afirmou que teria agido por impulso, sob estresse do plantão. Depois, mudou o discurso e disse que sentiu pena das vítimas e queria aliviar o sofrimento delas.

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Para a polícia, nenhuma das justificativas se sustenta. “Não fecha. A professora aposentada de 75 anos estava consciente e havia sido internada por constipação intestinal. Não era uma paciente em sofrimento intenso”, apontou o delegado.

As investigações indicam que os pacientes sofreram paradas cardíacas após a aplicação de medicamentos em dosagens incompatíveis com qualquer prescrição médica. Imagens do circuito interno do hospital mostram o principal suspeito falsificando receitas e preparando a substância. “Nenhum médico receitaria aquilo. Se aplicar do jeito que estava ali, mata”, continuou Iacozzilli.

Os três técnicos devem responder por homicídio qualificado, com duas qualificadoras já apontadas: o uso de meio insidioso, pela aplicação do medicamento, e a impossibilidade de defesa das vítimas, que estavam acamadas. Cada crime pode resultar em pena de 12 a 30 anos de prisão.

Após a conclusão do inquérito, a Polícia Civil informou que pretende abrir uma nova investigação para apurar se os suspeitos atuaram em outros hospitais. “Vamos analisar prontuários de pacientes que morreram durante plantões deles, tanto no Hospital Anchieta quanto em outros locais onde trabalharam”, explicou o delegado.

As duas técnicas presas foram encaminhadas ao presídio da Colmeia, já que não há estrutura para custódia feminina na carceragem da Polícia Civil. O principal suspeito segue detido na carceragem da corporação durante o período de prisão temporária. A expectativa é que, após a conclusão das perícias, a detenção seja convertida em prisão preventiva.

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Entenda o caso

Uma reportagem do Jornal Nacional, exibida na segunda-feira (19), expôs três técnicos de enfermagem que foram presos suspeitos de matar três pacientes em um hospital particular de Taguatinga, no Distrito Federal. As mortes ocorreram entre novembro e dezembro de 2025. As vitimas eram pessoas internadas em leitos próximos da UTI e que foram atendidas pelo mesmo profissional.

Segundo a Polícia Civil, o técnico principal injetava doses elevadas de um medicamento sem diluição, provocando paradas cardíacas quase imediatas, com apoio de outras duas técnicas. Em um dos casos, 13 seringas com desinfetante foram aplicadas na veia da vítima.

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Para obter o remédio, o técnico teria usado indevidamente o sistema do hospital, emitindo receitas falsas em nomes de médicos. De acordo com a reportagem, a investigação apontou tentativas de disfarçar o crime, incluindo manobras de reanimação após as injeções.

O Hospital Anchieta informou que instaurou uma apuração interna, demitiu os envolvidos e colaborou com as autoridades. Dois suspeitos confessaram após serem confrontados com imagens de segurança, e a polícia apura a motivação dos crimes e se há outras vítimas.

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