Dentista faz dívida de R$ 400 mil em jogos de aposta online, e toma decisão drástica após esposa cogitar o divórcio

Homem admitiu que usou uma quantia destinada ao futuro dos filhos para apostar em jogos de azar

Um dentista de 45 anos foi interditado judicialmente após uma dívida de mais de R$ 400 mil por apostas online. Segundo o UOL, a medida foi tomada pelo próprio homem junto aos parentes para impedir que o vício em jogos colocasse em risco o patrimônio familiar. Ele é casado e tem dois filhos.

O dentista começou a investir em apostas esportivas há cerca de três anos, como futebol, futebol americano e tênis. Ele via nos jogos uma maneira de complementar a renda familiar, e também seguia perfis de dicas nas redes sociais. Mas em 2024, migrou para os cassinos online, quando perdeu o controle. 

“Nos esportes eu tinha que esperar o final do jogo para saber se ganhei ou perdi. Já nos cassinos essa espera é de apenas dez segundos. Foi aí que perdi o controle”, explicou. O celular era a principal ferramenta para as apostas, principalmente durante períodos em que estava ocioso.

“De vez em quando, a gente ganha, e isso cria a ilusão de que pode ganhar sempre. Nossa cabeça só se lembra das vitórias e esquece das perdas”, ponderou o homem. “Na prática, eu roubei o dinheiro dos meus filhos para apostar”, confessou à publicação, acrescentando que usou a previdência dos próprios filhos no vício.

A reserva financeira era para garantir o futuro de ambos, mas foi gasta em poucas horas nas plataformas online. Contudo, a gravidade do caso só foi descoberta recentemente, quando o dentista decidiu pedir a interdição judicial para proteger ambos, preservar o patrimônio e cessar a ameaça de ruptura familiar.

A decisão determinou o bloqueio das contas, a suspensão do CPF para movimentações financeiras e a exclusão do cadastro em sites de apostas.

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Em março deste ano, o dentista acumulou uma dívida de R$ 60 mil após procurar um psiquiatra por conta própria. Os pais dele, por sua vez, imaginaram que se tratava de um surto isolado. Envergonhado, ele garantiu que não voltaria a apostar, mas seguia ocultando a dimensão do problema. Três meses depois, as dívidas já ultrapassavam R$ 400 mil.

O pai do dentista ainda descobriu que o apartamento fora colocado em risco sem o conhecimento da esposa, abalando a confiança da família. O celular dele foi confiscado e apenas dois contatos ficaram liberados. Os parentes buscaram ajuda profissional, decidiram pela interdição e implantaram uma planilha de fluxo de caixa para que a esposa assumisse as contas. Em contrapartida, outras pessoas próximas quitaram os empréstimos mais caros para salvar o imóvel.

Dentista disse que situação se agravou após migrar para os cassinos online (Foto: Bruno Peres/ Agência Brasil)

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A esposa chegou a pedir o afastamento temporário do marido e disse cogitar o divórcio em caso de reincidência. Para o pai, a interdição foi a única saída para tentar preservar a família. “A perda de confiança que este novo fato nos proporcionou, além do choque inesperado, levou-nos a tomar medidas extremas. É muito difícil para um pai fazer isto, mas tinha de ser feito”, relatou.

Tratamento

O dentista aceitou a ajuda sem hesitar. “Eu já estava ciente de que, se tivesse dez reais na conta, eu iria apostar. Então para mim foi bem tranquilo aceitar essa interdição”, admitiu. Atualmente, ele faz sessões semanais de terapia cognitivo-comportamental, passa mensalmente por consultas psiquiátricas e toma medicações para controlar a compulsão.

O bloqueio de acesso ao celular também virou parte do processo. Diante das restrições para evitar sites de apostas, ele disse que passou a ler mais, dialogar melhor com a esposa e manter contato mais próximo com os pais. “É um recomeço difícil, mas necessário”, avaliou.

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Em seguida, o pai do dentista destacou a importância de se atentar aos sinais. Ele defendeu que casais compartilhem informações financeiras, que familiares fiquem atentos a mudanças bruscas no comportamento e que limitem o acesso ao celular e às plataformas digitais quando suspeitarem de algo.

Pai e filho também acreditam que o Brasil deverá rever a regulação das apostas, impondo limites à publicidade e exigindo mecanismos de autolimitação das plataformas. Por fim, o dentista cravou que se manterá firme no propósito de superar o vício. “A gente imagina que pode parar de apostar quando quiser, mas esses jogos são feitos para te enganar e mexer com a sua cabeça. Podem parecer divertidos no início, mas muitas vezes é o começo de um ciclo perigoso. O vício em apostas é real e muito difícil de sair sozinho”, informou.

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Proteção e bloqueios

Ao UOL, a advogada Luciana Codeço Rocha Prazeres Almeida, que atua no caso, analisou o ocorrido. “O alerta é claro: o vício em apostas online pode arruinar pessoas e famílias em pouco tempo. Trata-se de um problema de saúde pública que já repercute no Judiciário”, declarou.

Ela destacou que a interdição está prevista no Código Civil para pessoas que, embora lúcidas, repitam atos de dilapidação financeira, comprometendo a própria subsistência. Para conseguir a medida, a família apresentou relatórios que atestavam transtorno de jogo e ansiedade, além da anuência do paciente e do Ministério Público.

A gestão financeira ficou sob responsabilidade da esposa, que atua como tutora, enquanto a Justiça fará avaliações periódicas para decidir se a interdição será mantida. De modo geral, foram bloqueadas contas e aplicações, suspensa a eficácia do CPF para atos patrimoniais e expedidas comunicações a Banco Central, Receita Federal, cartórios, Detran e instituições financeiras. Ainda houve exclusão dos cadastros em sites de apostas e notificação à Secretaria de Prêmios e Apostas para impedir o envio de mensagens promocionais ao celular.

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