O diretor da Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega (Presídio do Róger), Edmilson Alves, afirmou ao UOL que Gerson de Melo Machado, de 19 anos, queria voltar à prisão. O rapaz foi morto neste domingo (30), após invadir a jaula de uma leoa no Parque Arruda Câmara, conhecido como Bica, em João Pessoa.
Em entrevista ao jornalista Carlos Madeiro, Alves contou que, no último dia 24, Gerson foi levado à Central de Flagrantes depois de quebrar a tela de um caixa eletrônico. “Mas ele não quebrou aquele caixa para roubar, como muitos falaram. Ele só queria voltar para a prisão“, declarou o diretor do presídio, onde o jovem ficou três vezes.
De acordo com Alves, Gerson se revoltou porque o delegado informou que não poderia prendê-lo por dano ao equipamento. “Ele afirmou que queria ser preso, disse que não aguentava mais ficar na rua, que não tinha ninguém“, relatou. Frustrado, ele jogou um paralelepípedo em uma viatura da Polícia Militar após deixar a delegacia. “Ao voltar, ele disse ao delegado: ‘Agora o senhor vai ter de me prender’. Aí ele foi detido“, contou.
Mesmo assim, Gerson não foi levado ao presídio. Ele passou a noite na Central de Polícia e, no dia seguinte, foi liberado depois de passar por audiência de custódia, que determinou um tratamento no CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). “Vaqueirinho dizia que a gente era a família dele, porque a gente o ouvia e cuidava dele. Mas o presídio não era o lugar adequado para ele“, relatou.
Alves também explicou que Gerson tinha esquizofrenia e acabou se aproximando dele. O diretor foi o responsável por levá-lo à casa da avó, no bairro Mangabeira, após ele deixar a prisão pela última vez. “Quando cheguei, a avó disse: ‘Leve ele de volta para o presídio ou para a casa do pai, aqui não dá pra ficar’. Perguntei quem era o pai dele, e ele respondeu: ‘Meu pai não quer saber de mim, minha madrasta nem quer me ver’“, relembrou.

Vida na prisão
De acordo com o diretor, a mãe de Gerson havia sido destituída na infância por não ter condições de cuidar dos cinco filhos. “Em relação à casa da avó, posso dizer que o presídio é um hotel cinco estrelas. Não falo pela estrutura, mas porque a avó é doente, não tinha sequer o que comer. No presídio, ele tinha três refeições, dentista, médico, era cuidado por pessoas. Ele ficava no pavilhão de violência doméstica, e lá mandei os outros presos ficarem de olho nele“, contou.
Alves revelou que da última vez que foi preso, o jovem não estava medicado. “Ele me disse que fazia quatro dias que não tomava o remédio. Sabia que ia dar problema, porque ele precisava estar medicado sempre“, salientou. “O psiquiatra o via todo mês, ele era acompanhado e medicado, e a gente aprendeu a lidar com ele. Na casa da avó, ele não tinha isso“, afirmou.
“Ele era uma pessoa que, no surto, ficava violento: batia a cabeça na parede, se automutilava. Quebrou umas três celas, amassou grades, deu muito trabalho até eu entender como lidar com ele. Coloquei ele pra caminhar, pra capinar o mato, e, ficando mais solto, ele ficava mais íntegro. Por isso o pus em um pavilhão coletivo“, detalhou o diretor.
Suicídio descartado
Conforme Alves, Gerson não tinha histórico de uso de drogas ilícitas, apenas tomava de forma irregular os medicamentos para transtornos mentais. “A gente via que, quando ele voltava, não estava debilitado como os que ficam nas ‘cracolândias’“, disse o diretor, que descartou a hipótese de suicídio. “Quando cheguei hoje no presídio, os colegas dele me falaram: ‘Perdemos nosso menino’. E era isso, ele era como uma criança. Ele quis descer ali pra domar, pra brincar com a leoa. Se quisesse se matar, tinha feito no presídio“, explicou.
O diretor destacou que o jovem não foi educado para viver em liberdade. “Na infância, foi levado pra abrigos. Na adolescência, passou várias vezes no CEA [Centro Educacional do Adolescente], e, depois da maioridade, veio pro presídio. Ele só conhecia a vida do cárcere“, lembrou. Alves chegou a fazer um alerta sobre as condições psíquicas de Gerson dias antes do ocorrido, em suas redes sociais, classificando a morte como uma “tragédia anunciada”.
“A gente aqui [no presídio] age quando todo mundo falhou antes. Vaqueirinho não gostava do CAPS, ele tinha que ser levado pra uma fazenda terapêutica ou pra um lugar onde pudesse trabalhar e ficar solto. Ele não admitia ficar preso. A tragédia poderia ser evitada se todos tivessem ajudado a cuidar desse cara“, completou.

Família se pronuncia
Em entrevista à TV Cabo Branco, afiliada à Globo, a prima de Gerson, Ícara Menezes, revelou que o jovem gostava de ficar no presídio. Ela ainda explicou que por conta da esquizofrenia, Gerson tinha dificuldade em se aproximar da família, que também tem histórico de transtornos mentais.
“Das vezes que ele foi preso, a maioria era por jogar uma pedra na viatura, porque ele queria se sentir seguro, muitas vezes ele falava: ‘Se eu tiver preso, as pessoas na rua não vão dar em mim, porque eu peguei tal coisa em troca do almoço e fulano deu em mim’. Ele sempre tinha medo das pessoas darem nele. Tiraram ele como uma pessoa agressiva e ele não era. Uma pessoa marginal, ele não era. Era um menino neurodivergente, que tinha mentalidade de 4 anos“, ressaltou.
Assim como Alves, Menezes disse que o primo enxergava o presídio do Róger como um lugar em que ele seria acolhido. “A gente conversou com ele e ele disse que pelo menos ele preso, tinha onde dormir e as pessoas não faziam mal a ele. E ele gostava muito do diretor (do Roger). Então para ele era uma amizade que ele tinha e ali ele estava seguro“, assegurou.

A prima disse que Gerson não tinha uma relação constante com os familiares, mas procurava principalmente a mãe – que também tem transtornos mentais – quando ficava fora da penitenciária. “Sempre procurou a mãe dele querendo amor, querendo carinho, querendo atenção. Ele nunca foi um menino para assaltar ninguém, para usar droga. Ele sempre foi uma pessoa que tinha problemas psicológicos e os outros se aproveitavam“, contou.
Sobre os tratamentos necessários, ela confirmou que o jovem nunca teve apoio contínuo de acompanhamento psicológico e que isso era um problema agregado à família. “O histórico da família é bem avançado, qualquer pessoa que acompanhasse ele iria entender, porque existe todo um trâmite para poder chegar naquela pessoa que era doente. Por aí, ele já teria que ter o tratamento, ele nunca teve“, explicou.
“A família não abandonou, só que uma pessoa neurodivergente, já grande, 16 passagens pela polícia, nunca teve tratamento, o apoio que teve foi uma assistente social e o diretor do presídio“, desabafou. “Então a gente não podia fazer muita coisa, quem poderia fazer era o poder público. Como família, a gente fez o que pôde, mas segurar uma pessoa assim dentro de casa o tempo todo… Todo mundo que tem uma pessoa neurodivergente dentro de casa sabe como é“, argumentou.
Sonho de ir à África
Já em entrevista à Rádio CBN, Menezes disse que Gerson enxergava o zoológico da Bica como um sonho de ir à África. O apelido de “Vaqueirinho”, segundo ela, surgiu da afinidade dele com os animais. “A Bica fazia ele sonhar com a África. Era o leão mais próximo pra ele domar. Ele dizia que iria montar e levar a leoa para a África“, relatou.
A conselheira tutelar que acompanhou Gerson, Verônica Oliveira, disse ainda que ele já havia invadido uma área restrita no aeroporto de João Pessoa para entrar em um avião, com intuito de “ficar mais próximo dos animais” da África, e que não tinha noção do perigo. “Ele tinha falas desde muito pequeno de que ia para a África, para um safári, porque ele ia domar os leões“, relembrou. “Ele tinha um fascínio pelos animais. Certa vez, eu falei: ‘Gerson, olha, eu vou precisar acolher você. Você vem às 2 horas’. E ele obedecia. Quando Gerson chegou aqui, trouxe um cachorro: ‘Só vou se eu levar o cachorro’“, narrou.
De acordo com o g1, a Justiça determinou que Gerson fosse internado em uma instituição de longa permanência, antes de morrer, por conta dos transtornos psicológicos. Na decisão à qual o portal teve acesso, do juiz Rodrigo Marques de Silva Lima, o jovem foi colocado como “inimputável” por ter esquizofrenia. Pela gravidade do caso, a decisão informou que o tratamento ambulatorial era insuficiente, sendo necessária uma internação.
O Ministério Público da Paraíba (MPPB) abriu uma investigação para saber as condutas da Prefeitura de João Pessoa e do Parque Arruda Câmara após a morte de Gerson. Em nota, a prefeitura informou que já começou a apurar as circunstâncias do ocorrido, e manifestou solidariedade à família da vítima.
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