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Dom Phillips e Bruno Pereira: suspeito volta atrás em depoimento e nega ter assassinado dupla; saiba detalhes

Amarildo da Costa Oliveira agora diz que participou apenas da ocultação dos corpos

Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como “Pelado”, voltou atrás em seu depoimento para a Polícia Federal e negou ter assassinado Bruno Pereira e Dom Phillips, nesta segunda (20). Na semana passada, o pescador havia confessado sua participação no crime, segundo a corporação.

No momento da reconstituição do caso, feita no dia 15 de junho, Amarildo já tinha dito que participou apenas da ocultação dos corpos. Ele afirmou que Jeferson da Silva Lima, o “Pelado da Dinha”, atirou nos dois. O pescador relatou que jogou os cadáveres em uma parte da mata do Vale do Javari (AM), os esquartejou e ateou fogo.

Durante a reconstituição, a Polícia Federal filmou o suspeito desde a saída da Delegacia de Atalaia do Norte até o local onde os corpos foram ocultados. O delegado da PF narrou que o indigenista e o jornalista britânico desciam o rio Itacoaí em uma lancha. Segundo Amarildo, em determinado momento, Bruno e Jeferson começaram a discutir.

Quando foi questionado se viu o momento em que o “Pelado da Dinha” atirou, Amarildo confirmou com a cabeça e respondeu: “vi”. De acordo com o suspeito, Bruno teria revidado. O indigenista tinha porte de arma e escolta armada, mas dispensou a segurança no dia do crime, 5 de junho. Ainda na reconstituição, Amarildo afirmou que Jeferson disparou na região lombar de Bruno. O suspeito também acusou o “Pelado da Dinha” de atirar contra Dom.

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Amarildo da Costa Oliveira na reconstituição do crime. (Foto: Polícia Federal/Reprodução/TV Globo)

Na remontagem da cena, Amarildo se contradisse. No início, ele afirmou que viu a suposta discussão de Bruno e Jeferson a distância. Depois, admitiu que estava no barco com o “Pelado da Dinha”. Esta versão também é diferente do depoimento dado aos agentes antes da reconstituição. Amarildo confessou o crime na quarta-feira (15) passada, um dia após o irmão dele, Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, ter sido preso por suspeita de participação nos assassinatos. A polícia ainda não divulgou o grau de proximidade entre “Pelado” e Jeferson.

No depoimento desta segunda (20), o pescador reafirmou que Jeferson foi quem matou a dupla. Ele disse que o “Pelado da Dinha” atirou contra o indigenista e o jornalista britânico pelo menos três vezes cada um, mas alegou não saber quantos tiros acertaram as vítimas.

Os dois, juntamente a Oseney, estão detidos pela polícia. “Dos Santos” nega envolvimento no crime. Ao todo, a corporação considera oito pessoas suspeitas. Conforme informou a PF no domingo (19), além dos três presos, a investigação apura envolvimento de mais cinco pessoas na ocultação dos cadáveres. Os nomes deles não foram divulgados.

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Identificação dos corpos de Dom e Bruno

A Polícia Federal confirmou, no sábado (18), que os restos mortais encontrados na Amazônia são do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. A identificação se deu através de um exame das arcadas dentárias no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília.

De acordo com a nota da PF, as vítimas foram atingidas com tiros. Bruno foi baleado três vezes, na cabeça e no tórax, já o jornalista, uma vez, no tórax. O exame médico-legal feito pelos peritos aponta que “a morte do Sr. Dom Phillips foi causada por traumatismo toracoabdominal por disparo de arma de fogo com munição típica de caça, com múltiplos balins, ocasionando lesões principalmente sediadas na região abdominal e torácica (1 tiro)“.

Já a morte do indigenista “foi causada por traumatismo toracoabdominal e craniano por disparos de arma de fogo com munição típica de caça, com múltiplos balins, que ocasionaram lesões sediadas no tórax/abdômen (2 tiros) e face/crânio (1 tiro)“. Os corpos foram esquartejados, incendiados e enterrados.

Remains Of Dom Phillips And Bruno Pereira Arrive To Brasilia For Investigation
Partes dos corpos de Dom Phillips e Bruno Pereira chegam em Brasília para investigação (Fotos: Getty)

Na sexta-feira (17), a Polícia Federal afirmou que, até o momento, não há mandante no duplo assassinato. A motivação do crime também segue alvo de apuração. As principais hipóteses apontam para uma relação com a atividade de pesca ilegal e tráfico de drogas na região.

A busca pelos corpos

No dia 11 de junho, a Polícia Federal já havia apontado que foram encontrados “materiais orgânicos aparentemente humanos” no Rio Itaquaí, próximo ao porto de Atalaia do Norte. Bruno e Dom sumiram na região do Vale do Javari, no estado do Amazonas, no dia 5 do mesmo mês.

As buscas pelos desaparecidos estavam concentradas em uma área abaixo da “Comunidade Cachoeira”, em Atalaia do Norte. Para reforçar a procura, o governo do Amazonas enviou bombeiros, policiais civis e militares. Voluntários falaram para as equipes de busca que encontraram sinais de escavação às margens do Rio Itaquaí, local em que Pereira e Philips foram vistos navegando.

Bruno Araújo e Dom Phillips estavam desaparecidos desde 5 de junho. (Foto: Reprodução)

O desaparecimento

Além de indigenista, Bruno Araújo Pereira era servidor federal licenciado da Funai. Ele também dava suporte à União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) em projetos e ações específicas. Em 2018, se tornou o coordenador-geral de Índios Isolados e de Recém-contratados da Fundação Nacional do Índio, mas foi exonerado em 2019, após pressão de setores ruralistas ligados ao governo Bolsonaro.

Dom Phillips morava em Salvador com a família e fazia reportagens sobre o Brasil para veículos como Washington Post, New York Times, Financial Times e The Guardian. Em seu trabalho, ele investigava e denunciava o garimpo ilegal, e tratava da defesa ambiental.

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Bruno Pereira construiu uma carreira de sucesso como indigenista. (Foto: Reprodução/TV Globo)

Os dois sumiram durante visita à equipe de Vigilância Indígena, localizada próxima ao Lago do Jaburu. O objetivo do jornalista era realizar algumas entrevistas com os indígenas. Defensor dos povos originários, Bruno recebia ameaças constantes de madeireiros, garimpeiros e pescadores.

As buscas começaram no dia 5 de junho por integrantes da Univaja. Sem sucesso, eles acionaram as autoridades no dia seguinte. Agentes da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), da Marinha e do Exército participaram da operação. Phillips estava trabalhando em um livro sobre meio ambiente com apoio da Fundação Alicia Patterson.