A Unilever, multinacional anglo-holandesa e dona de marcas como Omo, Comfort e Cif, fez duas denúncias à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) sobre a contaminação microbiológica em produtos da Química Amparo, dona da Ypê e Tixan. As informações são de Daniela Madureira e Gabriela Cecchin, da Folha de S. Paulo.
De acordo com os documentos, aos quais a reportagem teve acesso, as queixas foram realizadas em outubro do ano passado e em março deste ano, ou seja, meses antes da suspensão determinada pela agência reguladora contra os itens da fabricante.
As denúncias apontaram contaminação do lava-roupas Tixan Ypê e de detergentes Ypê. Em uma delas, protocolada em outubro de 2025, a Unilever afirmou ter identificado a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa/paraaeruginosa em quatro lotes de produtos Tixan Ypê Express após análises internas e testes realizados pelo laboratório Charles River, descrito nos documentos como como detentor de “um dos maiores bancos de dados genéticos do mundo“.
Conforme a reportagem, a empresa afirmou que os produtos apresentavam “desvio microbiológico relevante” em “evidente falha das boas práticas de fabricação“, e citou “iminente risco à saúde e à segurança dos consumidores“. “A Pseudomonas aeruginosa pode se propagar através do contato direto com a pele, lesões, mucosas ou mesmo por meio de objetos contaminados, podendo causar infecções em diversas partes do corpo, como a pele, o trato urinário, olhos e ouvido (otite), sendo que o seu tratamento não é simples devido à conhecida resistência aos antibióticos“, relatou a primeira denúncia.

A Unilever sustentou que a Ypê já sabia do problema e começou a recolher os itens por conta própria nos supermercados, o que teria levado à investigação. “A Unilever observa que a Química Amparo, mesmo promovendo recolhimento silencioso dos seus produtos, o que indica ter conhecimento do desvio no padrão microbiológico, segue veiculando forte publicidade justamente do Tixan Ypê Express contaminado, levando o consumidor a adquiri-lo em condições inseguras de uso e manuseio“, declarou.
Na segunda denúncia, a multinacional disse ter submetido novas amostras de outros produtos da Química Amparo ao laboratório Eurofins, que teria constatado ao menos outros 14 lotes contaminados, incluindo o do detergente Ypê. “Em 7 desses 14 lotes foram identificados também traços de materiais genéticos de outros gêneros de bactérias, tais como Bacillus subtilis, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii, Ectopseudomonas mendocina, Ectopseudomonas oleovorans, Ectopseudomonas toyotomiensis, Pseudomonas putida, Pseudomonas sediminis, Pseudomonas sihuiensis, Pseudomonas wenzhouensis e Strutzerimonas stutzeri —muitos dos quais também são patógenos e, portanto, danosos à saúde humana“, disse o texto.
O que diz a Unilever
À Folha de S. Paulo, a Unilever explicou que costuma realizar testes técnicos em seus produtos e às vezes nos da concorrência, uma prática considerada comum no setor. “A depender dos resultados destes testes, em respeito ao consumidor, as autoridades competentes são notificadas. Quaisquer investigações são conduzidas exclusivamente pela autoridade, que avalia as diligências, fiscalizações e testes que entender necessários para a tomada de decisão“, justificou.
A Unilever também solicitou que a Anvisa seja notificada “para posicionamento urgente em relação à constatação de novos desvios microbiológicos em outros produtos“, que a Química Amparo realize um recall imediato e seja apurada a sua “conduta negligente e reticente em não investigar todos os lotes potencialmente afetados pelo desvio microbiológico“.

A reação de Ypê
Após a primeira denúncia, em resposta à Senacon, a Química Amparo afirmou ter recebido a denúncia da Unilever com surpresa e indignação. De acordo com a reportagem, a empresa alegou que não existe qualquer regulamentação da Anvisa que estabeleça limites para a presença daquele microrganismo em produtos saneantes.
A fabricante disse ainda que a “periculosidade alegada da bactéria não necessariamente representa a periculosidade do produto“, uma vez que se trata de “um microrganismo amplamente presente no meio ambiente, até mesmo no solo e na água potável“. A companhia refutou a sugestão de que teria promovido a retirada de produtos do mercado, e que vem ganhando até participação sobre a Unilever, indicando que o interesse da concorrente é “puramente comercial“.
Bactérias em mais de 100 lotes
Após as queixas da Unilever, a Anvisa visitou duas vezes a fábrica da Ypê em Amparo, no interior de São Paulo, e determinou no dia 7 de maio, a interrupção da produção e venda dos produtos líquidos, como detergentes, lava-roupas e desinfetantes.
Nesta quarta-feira (13), a agência informou ter identificado a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes de produtos feitos na fábrica de Amparo. Em uma reunião da diretoria colegiada, o presidente da órgão regulador, Leandro Pinheiro Safatle, reiterou que a população não utilize os produtos da marca listados pela Anvisa. Além disso, ele pediu que o serviço de atendimento ao consumidor da empresa seja procurado.
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