Em reunião do G20, Bolsonaro critica protestos e diz que tensões relacionadas ao racismo são “importadas”: “Alheias à nossa história”

Ainda ontem (20), dia da Consciência Negra, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou, em coletiva de imprensa, que “não há racismo no Brasil”. Neste sábado (21), o presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, endossou indiretamente a fala do general em discurso na reunião de cúpula do G20, ao dizer que há “tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história”.

A declaração foi feita em meio a uma onda de protestos antirracistas realizados em todo país. Os atos clamam justiça por João Alberto Silveira Freitas, cidadão negro de 40 anos que foi covardemente espancado até a morte na última quinta (19), em uma unidade do supermercado Carrefour de Porto Alegre (RS).

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“Antes de adentrarmos o tema principal desta sessão, quero fazer uma rápida defesa do caráter nacional brasileiro, em face das tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história”, começou Bolsonaro. “O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado. Brancos, negros e índios edificaram o corpo e o espírito de um povo rico e maravilhoso. Em uma única família brasileira podemos contemplar uma diversidade maior do que países inteiros”, prosseguiu.

Em algumas das manifestações, vidraças de lojas Carrefour foram quebradas e fogo foi ateado dentro dos supermercados. O chefe de Estado insinuou então que protestantes usam a causa de “luta por igualdade” para incitar ódio. “Foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo. Contudo, há quem queira destruí-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder”, alegou.

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ainda em seu discurso, Bolsonaro reforçou a ideia de que uma divisão enfraqueceria nosso povo: “Não somos perfeitos. Temos, sim, os nossos problemas. Existem diversos interesses para que se criem tensões entre nós. Um povo unido é um povo soberano. Dividido, é vulnerável. E um povo vulnerável pode ser mais facilmente controlado e subjugado. Nossa liberdade é inegociável”.

“Como homem e como Presidente, enxergo todos com as mesmas cores: verde e amarelo. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. O que existem são homens bons e homens maus; e são as nossas escolhas e valores que determinarão em qual dos dois grupos nos incluiremos. Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história”, encerrou.

ONU publica carta aberta 

A fala de Bolsonaro gerou um amplo constrangimento e choque entre algumas delegações estrangeiras e até indignação entre as agências da ONU, de acordo com o jornalista Jamil Chade, do portal Uol. O escritório brasileiro da Organização, por sua vez, emitiu uma nota sobre a morte de João Alberto, dizendo que o fato “evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social do Brasil”. Confira a íntegra do comunicado:

“A ONU Brasil manifesta solidariedade à família de João Alberto Silveira Freitas, que foi brutalmente agredido na noite de 19 de novembro de 2020 e veio a óbito em seguida, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

A violenta morte de João, às vésperas da data em que se comemora o Dia da Consciência Negra no Brasil, é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira. Milhões de negras e negros continuam a ser vítimas de racismo, discriminação racial e intolerância, incluindo as suas formas mais cruéis e violentas. Dados oficiais apontam que a cada 100 homicídios no país, 75 são de pessoas negras. O debate sobre a eliminação do racismo e da discriminação racial é, portanto, urgente e necessário, envolvendo todas e todos os agentes da sociedade, inclusive o setor privado.

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A proibição da discriminação racial está consagrada em todos os principais instrumentos internacionais de direitos humanos e também na legislação brasileira. A ONU Brasil insta as autoridades brasileiras a garantirem a plena e célere investigação do caso e clama por punição adequada dos responsáveis, por reparação integral a familiares da vítima e pela adoção de medidas que previnam que situações semelhantes se repitam. Convida também toda a sociedade brasileira, a partir da Campanha Vidas Negras, a participar ativamente da construção de uma sociedade igualitária e livre do racismo.

Vidas negras importam e não podem ser deixadas para trás”.

A declaração de Mourão

Nessa sexta-feira (20), o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, afirmou por diversas vezes que “não existe racismo” no país, enquanto comentava o crime cometido contra João. O general falava com a imprensa, quando classificou o caso como “lamentável” e criticou a posturas dos seguranças do supermercado Carrefour.

“Lamentável, né? Lamentável isso aí. Isso é lamentável. Em princípio, é segurança totalmente despreparada para a atividade que ele tem que fazer”, disse. Pouco depois, ele engatou na fala revoltante sobre racismo: “Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui”.

Questionado pelos repórteres por diversas vezes, o vice-presidente manteve sua opinião descompensada, supondo que a morte de João Alberto não teria a ver com a questão racial. “Não, eu digo para você com toda a tranquilidade: não tem racismo aqui”, declarou.

Hamilton Mourão não só afirmou, como REPETIU, que não existe racismo no Brasil. (Foto: Reprodução/G1)

Foi então que Mourão tentou argumentar citando experiências que ele teria vivido na década de 1960, nos Estados Unidos. Sim, um argumento baseado em algo de mais de 50 anos atrás. “Eu digo para vocês o seguinte, porque eu morei nos EUA: racismo tem lá. Eu morei dois anos nos EUA, e na escola em que eu morei lá, o ‘pessoal de cor’ andava separado. Eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso aí. Isso no final da década 60”, mencionou ele.

“Mais ainda, o ‘pessoal de cor’ sentava atrás do ônibus, não sentava na frente do ônibus. Isso é racismo. Aqui não existe isso. Aqui você pode pegar e dizer é o seguinte: existe desigualdade. Isso é uma coisa que existe no nosso país. Nós temos uma brutal desigualdade aqui, fruto de uma série de problemas. Grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidades da sociedade moderna, são ‘gente de cor’, apesar de nós sermos uma sociedade totalmente misturada”, concluiu o vice-presidente.

Assista ao discurso aqui:

O presidente da Fundação Palmares – órgão do governo federal criado para promover valores culturais e sociais da influência negra no Brasil – também alegou que não existe um racismo estrutural no Brasil. “Não existe racismo estrutural no Brasil; o nosso racismo é circunstancial — ou seja, há alguns imbecis que cometem o crime. A ‘estrutura onipresente’ que dia e noite oprime e marginaliza todos os negros, como defende a esquerda, não faz sentido nem tem fundamento”, disse Sérgio Camargo em uma rede social.

Contudo, não é isso que os dados expõem. De acordo com a Agência Brasil, o Atlas da Violência 2020 apontou que os índices de assassinatos de pessoas pretas e pardas cresceu 11,5% entre 2008 e 2018. Enquanto isso, a violência contra não negros – brancos, amarelos e indígenas – caiu 12,9% no mesmo período. Os números são do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Infelizmente, a morte de João Alberto é mais uma das que entraram para essas tristes estatísticas… Ao contrário do que o governo pode tentar dizer, os números do Brasil deixam claro que as pessoas pretas têm sofrido cada dia mais com a violência e com o preconceito. E isso tem um nome: racismo. Racismo existe. Racismo mata!

Entenda o caso

Um homem negro de 40 anos foi espancado até a morte na noite dessa quinta-feira (19), por dois homens brancos, no estacionamento do supermercado Carrefour, localizado no bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre (RS). O episódio aconteceu às vésperas do ‘Dia da Consciência Negra’ e, com razão, vem gerando grande revolta nas redes sociais.

Ambos suspeitos, um de 24 anos e outro de 30, foram presos em flagrante. De acordo com o G1, um deles é policial militar e foi levado para um presídio militar, enquanto o segundo, segurança da loja, foi encaminhado para um prédio da Polícia Civil. A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Porto Alegre investiga o caso e trata o crime como homicídio qualificado.

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Em respeito à vítima, identificada como João Alberto Silveira Freitas, o hugogloss.com não replicará o vídeo aterrorizante da agressão. O registro – de revirar o estômago – mostra também uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) chegando ao local e tentando reanimar “Beto”, como era conhecido, mas ele não resistiu. A perícia no local já foi feita e a polícia, agora, analisará as imagens de câmeras de segurança e colherá depoimentos.

João Alberto, de 40 anos, foi espancado e morto por dois homens brancos em Porto Alegre. (Foto: Reprodução/Instagram)

Em nota, a Brigada Militar do Rio Grande do Sul informou que o espancamento começou após um desentendimento entre a vítima e uma funcionária do supermercado. João teria ameaçado bater na trabalhadora que, por sua vez, acionou a equipe de segurança. “A esposa [da vítima] referiu que eles estavam no mercado fazendo compras, que o marido fez um gesto, que ela não soube especificar, para a fiscal. E ele teria sido conduzido para fora do mercado”, declarou a delegada Roberta Bertoldo.

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“Informações que foram colhidas com a equipe de peritos desse caso, que não ainda o laudo concluído, apontam suposições sobre a causa da morte, e que ele (João) possa ter tido um ataque cardíaco em função das agressões, porque ficou custodiado com duas pessoas em cima. Talvez tenha sido essa a causa da morte”, prosseguiu ela.

Ainda segundo o comunicado, o PM envolvido na agressão é “temporário” e estava fora do horário de trabalho. As atribuições do agressor na corporação são limitadas a “execução de serviços internos, atividades administrativas e videomonitoramento” e “guarda externa de estabelecimentos penais e de prédios públicos“. A Brigada não informou o que ele fazia no mercado.

Confira a nota da Brigada na íntegra, o posicionamento do Carrefour e as reações de revolta pelas redes sociais, bem como a organização de protestos sobre o caso, clicando aqui.