Erika Hilton processa Ratinho, pede indenização milionária para mulheres trans e aponta bastidores do SBT: ‘Não agrada nem as chefes’

A deputada também acionou o MPF e pediu a prisão do apresentador

A deputada federal Erika Hilton entrou com um processo por transfobia contra Ratinho. Além de acionar o MPF, a parlamentar pediu indenização de R$ 10 milhões e uma retratação pública.

Erika Hilton (PSOL-SP) entrou com um processo contra Ratinho. Além de acionar o MPF (Ministério Público Federal) e pedir a prisão do apresentador por comentários transfóbicos, a deputada federal solicitou uma ação civil pública com indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos causados à população trans e travesti.

De acordo com a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o pedido defende que o valor da indenização seja destinado ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, com foco nos projetos e organizações de defesa dos direitos de mulheres trans, travestis e cisgênero vítimas de violência de gênero, especialmente as que se encontram em situação de vulnerabilidade.

O documento ainda solicita que Ratinho e o SBT sejam obrigados a veicular retratação pública sobre o conteúdo transmitido em horário nobre e com duração equivalente ao da fala discriminatória. Em nota divulgada nesta quinta-feira (12), o canal repudiou os ataques, e afirmou que as declarações não representam a opinião da emissora. O SBT também anunciou que o caso está sendo analisado pela direção e que medidas serão tomadas para que os valores da empresa sejam respeitados por todos os funcionários.

O SBT repudia qualquer tipo de discriminação e preconceito, que são o oposto dos princípios e valores da empresa. As declarações do apresentador Ratinho, expressadas ao vivo ontem em seu programa, não representam a opinião da emissora e estão sendo analisadas pela direção da empresa, que tratará do tema internamente a fim de que nossos valores sejam respeitados por todos os colaboradores“, informou a nota.

Nesta quinta-feira (12), a deputada protocolou no Ministério Público de São Paulo (MP-SP), um pedido de investigação contra o apresentador. De acordo com a coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles, o documento foi registrado no Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância do MP-SP. Hilton solicitou a abertura de inquérito policial e a prisão de Ratinho. Caso condenado, ele poderá pegar até seis anos de prisão.

Erika Hilton entrou com um processo por transfobia contra Ratinho e pediu R$ 10 milhões de indenização. (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados; Lourival Ribeiro/SBT)

Em seu Instagram, Hilton também se manifestou sobre o processo contra com o apresentador. A deputada afirmou que Ratinho possui uma “audiência irrisória de seu programa“, que “não agrada nem suas chefes no SBT“. Ela repudiou aos comentários transfóbicos do comunicador, definindo-os como um “ataque contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não menstruam mais ou nunca menstruaram“.

Sim, estou processando o apresentador Ratinho. Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência. Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim. Ratinho interrompeu seu programa pra dizer que mulheres trans não são mulheres, que mulheres que não menstruam não são mulheres, que mulheres que não têm útero não são mulheres e que mulheres que não têm filhos não são mulheres“, declarou.

Esse ataque de Ratinho foi contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não menstruam mais ou nunca menstruaram. Foi contra todas as mulheres cis que nunca tiveram útero ou, por condições de saúde, como o câncer, precisam removê-lo. Foi contra todas as mulheres que não podem ou não querem ter filhos. Foi contra as mulheres que perderam seus filhos ainda na gestação. O discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo“, pontuou.

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Em seu post, Hilton relembrou que, em 2016, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) condenou Ratinho por más condições de trabalho em suas fazendas. “Eu quase me surpreendi ao assistir um raciocínio tão retrógrado. Mas aí lembrei das notícias reportando que, em 2016, 128 anos depois da abolição da escravatura, Ratinho submetia pessoas à escravidão em suas fazendas no Paraná. E o apresentador pode até querer viver nesse passado, dentro de sua cabeça. Se a preocupação com as denúncias que farei contra um escândalo envolvendo o seu filho e o crime de estupro de vulnerável mais tarde não ocupar toda a sua cerebral, é claro“, anunciou.

Ela finalizou o texto chamando o apresentador de “rato”. “Aqui fora, no mundo real, ele e o SBT pagarão pelos seus atos, na esfera cível e criminal. E eles não pagarão a mim, mas a todas as mulheres vítimas de violência, trans e cis. Por fim, vale lembrar: Este apresentador é, e sempre será, um rato“, completou.

Leia a íntegra:

Hilton processa Ratinho por transfobia e pede R$ 10 milhões em indenização. (Foto: Reprodução/Instagram)

Comentários transfóbicos

Nesta quarta-feira (11), Hilton foi eleita para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A eleição da deputada federal enfrentou forte resistência do centro e da direita, que, segundo a coluna de Gadelha, articularam nos bastidores uma derrota malsucedida.

À noite, no “Programa do Ratinho”, o apresentador questionou o fato de a comissão ser liderada por uma mulher trans. Ele citou diretamente a identidade de gênero de Hilton. “Teve uma votação hoje, e deram a Comissão da Mulher para uma mulher trans. Não achei muito justo, com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? Ela não é mulher, ela é trans. Não tenho nada contra trans, mas se tem outras mulheres. Mulher para ser mulher tem de ser mulher. Eu até respeito todo mundo, comissão de defesa dos direitos da mulher, defendo quem tem comportamento diferente“, declarou.

Ratinho e Erika Hilton. (Foto: Lourival Ribeiro/SBT; Reprodução/Instagram)

Ratinho ainda chegou a se referir a Hilton como “deputado”, no masculino. “Agora, para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias”, disparou ele, desconsiderando a existência de mulheres cisgêneros que não têm útero e que não menstruam. “Eu sou contra. Eu acho que deveria deixar uma mulher. Mas quero dizer que não tenho nada contra a deputada, o deputado… A deputada Erika Hilton. Ela não me fez nada, ela só fala bem, mas não tenho nada contra ela. Acho que deveria ser uma mulher“, apontou.

Para quem não sabe, a deputada Erika Hilton é trans, mas será que ela entende dos problemas e desafios de uma pessoa que nasceu mulher? Não é fácil ser mulher. Imagine se mulher trans fosse defender as pautas relacionadas ao público masculino? Estaria certo? Também não. Está certo, vamos nos modernizar, ter inclusão, mas não precisa exagerar“, reclamou. Ratinho ainda chegou a atacar Pabllo Vittar, persona drag queen de um homem cisgênero. “Ela tem saco, gente, mulher não tem saco“, declarou.

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