Escândalo em quartel: Investigação desmente suicídio de soldado no RJ e revela o que de fato aconteceu

MP desmentiu versão do Exército; ‘Fantástico’ mostrou depoimentos de militares sobre morte

O Ministério Público Militar concluiu que o soldado Wenderson Nunes Otávio não cometeu suicídio dentro do alojamento de um quartel, no Rio de Janeiro. Testemunhas declararam que receberam ordens para ficar em silêncio e acobertar um homicídio.

Soldado Otávio, como era conhecido no Exército, foi encontrado morto com um tiro na cabeça no dia 15 de janeiro. Inicialmente, o ramo das Forças Armadas comunicou à família que se tratava de suicídio. Contudo, segundo a denúncia, o disparo foi feito por Jonas Gomes Figueira, ex-soldado do 26º Batalhão de Infantaria Paraquedista.

O terceiro sargento Alessandro dos Reis Monteiro também foi indiciado por não fiscalizar a entrada da arma no alojamento, o que é proibido pelas normas militares.

Em entrevista ao “Fantástico” deste domingo (29), a mãe de soldado Otávio revelou a relação entre o filho e o autor do disparo. “O Figueira era amigo do meu filho. Ele vivia dentro da minha casa, me chamava de tia. Eu tinha uma consideração muito grande por ele. Eu senti para mim que tinha sido um acidente. Eu sei que foi um acidente, só que eu gostaria que ele me falasse. Eu acho que ele queria falar. Mas ele foi proibido“, relatou Cristiana da Silva Nunes.

Pais desabafaram sobre a morte de soldado Otávio ao ‘Fantástico’. (Foto: Reprodução/TV Globo)

O pai do soldado também lamentou a omissão sobre os detalhes do caso. “É difícil. Acidente acontece, mas mentir, não“, disse Adilson Firmino Rosa.

Segundo as investigações, no dia da tragédia, soldado Otávio estava sentado, calçando o coturno, enquanto Figueira brincava com uma pistola 9mm. Ele apontou na direção do colega e efetuou o disparo, acreditando que a arma estava descarregada. De acordo com os depoimentos colhidos, Figueira costumava brincar com armamentos no alojamento, e já havia apontado e encostado uma arma na cabeça de outro soldado.

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Depoimentos dos militares

Ao jornalístico, todos relataram o mesmo comportamento de Figueira. “Ele era muito criança. O tempo todo que ele estava de serviço, ele brincava com o armamento na hora do descanso“, disse um soldado. “Ele sempre fez isso com as pessoas. Elas acabavam brigando com ele ali, falavam com ele para parar, mas ele não parava. Ele não tinha limite“, contou outro.

Os nomes dos militares não foram revelados. Um deles afirmou que antes do ocorrido, “todo mundo entrava com armamento” dentro do alojamento, e que “ninguém” supervisionava. “Tem os plantões da Companhia, mas todo mundo entrava, então o plantão não ligava. Só depois do ocorrido que o comandante cortou“, declarou.

Ainda, o militar detalhou que no dia da tragédia, soldado Otávio estava “muito bem“. “Em nenhum momento, ele pareceu que estava triste. Ele falou que tinha dormido na namorada, um dia antes e tal, estava alegre. Ficava dando um ‘rolezinho’ direto de moto, que era o que ele sempre quis, tirar uma motinha dele“, disse.

Figueira apontou arma que matou soldado Otávio, em janeiro. (Foto: Reprodução/TV Globo)

O comandante do batalhão, Douglas Santos Leite, reuniu os militares logo após o ocorrido e determinou que a versão oficial seria de suicídio. Também teria proibido qualquer contato com a família da vítima.

Ele decretou como ordem que foi um suicídio, que não se falava mais disso. Reuniu os militares, quem foi embora, mandou voltar. Disse que quem tivesse contato com a família, com algum parente, que não era para falar. Se falasse, iria preso e iria embora. Mandaram embora, e mesmo assim a gente falou. Porque estava errado. Como que vai proibir a mãe e o pai? O filho sofreu um acidente grave e vai proibir disso? Porque eu acho que ele já sabia que não tinha sido o Otávio“, detalhou.

Um suicídio, para um comandante, fica mais fácil de dissipar do que um assassinato dentro de um batalhão“, apontou outro militar. Um dos depoimentos que o jornalístico teve acesso mostra que depois do ocorrido, Figueira estava “desesperado” e “não conseguia falar“, além disso, “colocou as mãos na cabeça, se ajoelhou e foi amparado“. Em outro, a testemunha disse que ele estava “chorando muito“, afirmando que havia “matado” o soldado Otávio.

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Para os pais da vítima, a dor permanece, mas há um sentimento de alívio. “Muito aliviado em saber que a justiça está sendo feita e que os culpados sejam penalizados e responsabilizados pelo crime que eles fizeram com o meu filho“, disse Adilson. “Claro que a dor não vai passar, mas estou aliviada em saber que a Justiça está sendo feita“, completou Cristina.

Segundo o Ministério Público Militar, Figueira responderá pelo crime de homicídio com circunstâncias agravantes. Já o sargento Alessandro responderá por condescendência criminosa. Em nota, a defesa de Figueira informou que “recebe com tranquilidade a denúncia oferecida pelo MP e que entende que não há justa causa para a presente ação ou para uma futura condenação pelos crimes que lhe são imputados“. Além disso, afirmou que ele é inocente, o que ficará provado ao fim do processo.

O Centro de Comunicação Social do Exército disse que, desde o momento do ocorrido, “todas as ações realizadas pelo Comando do 26º Batalhão de Infantaria Paraquedista foram pautadas pelo estrito cumprimento das normas e em rigorosa observância das atribuições relativas ao cargo do comandante. Tudo visando a garantir a lisura do processo e minimizar a disseminação de informações inverídicas”. 

A nota também ressalta que, em nenhum momento, o Comando da Organização Militar afirmou, perante familiares ou militares do batalhão, qualquer conclusão sobre a dinâmica dos fatos. E finaliza afirmando que todas as providências adotadas seguiram rigorosamente os preceitos legais, com total comprometimento com a verdade, a integridade, a ética, a justiça e o respeito ao militar falecido e sua família.

Confira a reportagem na íntegra:

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