Nesta quarta-feira (30), a Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, anunciou a expulsão de 12 alunos do curso de Medicina que posaram com um bandeirão contendo uma frase de apologia ao estupro.
O caso ocorreu em 15 de março, durante os jogos universitários “Intercalo” – uma competição disputada entre calouros de faculdades de Medicina. A faixa foi exibida por integrantes do time de handebol da Santa Marcelina e denunciada pelo Coletivo Francisca – grupo formado por alunas e ex-alunas da instituição.
Na imagem, um grupo de estudantes do curso de Medicina e membros da Associação Atlética Acadêmica aparece com uma faixa contendo os dizeres “entra p*rra, escorre sangue”. A frase, que remete ao crime de estupro, foi retirada de um antigo “hino” da atlética de Medicina, banido pela faculdade em 2017.
Em nota, a instituição comunicou a expulsão e informou que a decisão, tomada na segunda-feira (28), foi resultado das sindicâncias instauradas após a denúncia. Além dos estudantes expulsos, outros 11 receberam punições. Eles sofreram “sanções regimentais que configuram suspensões e outras medidas disciplinares”, mas a faculdade não especificou quais medidas foram aplicadas. A Faculdade Santa Marcelina também não divulgou os nomes dos alunos punidos.
Leia a íntegra:
“A Faculdade Santa Marcelina comunica que as sindicâncias instauradas no dia 21 de março de 2025 em decorrência dos fatos ocorridos em 15 de março, com integrantes da Associação Atlética Acadêmica e relacionados a torneio esportivo, foram apreciadas em primeira instância nesta segunda-feira (28), sendo que 12 (doze) estudantes foram, nesta data, desligados da Instituição, e outros 11 (onze) estudantes receberam sanções regimentais que configuram suspensões e outras medidas disciplinares.
Além disso, a Associação Atlética Acadêmica será mantida interditada por tempo indeterminado.
Comprometida com a transparência, os princípios éticos e morais, a dignidade social, acadêmica e a legislação vigente, a Faculdade Santa Marcelina reafirma sua postura proativa e colaborativa em relação ao assunto, perante as autoridades competentes.”
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A denúncia
A imagem veio à tona após o Coletivo Francisca — grupo formado por alunas e ex-alunas — expor o ocorrido por meio de uma publicação no Instagram. Em nota, as integrantes afirmaram que o cartaz “fere a dignidade sexual e ameaça o bem-estar das mulheres que circulam pelos corredores da instituição”.
“O Coletivo Feminista Francisca vem a público compartilhar o documento que foi formalmente redigido e entregue nesta manhã para toda a diretoria do curso de Medicina. Nele, estão todos os tópicos tratados previamente dentro do Coletivo e também, com os demais alunos que se viram afetados pelo ocorrido. Estamos aguardando as devoluções e nos colocamos à disposição para esclarecer eventuais dúvidas, assim como passaremos à toda comunidade acadêmica o retorno que recebermos das Instituições envolvidas”, declarou o grupo.
O coletivo também tornou público o conteúdo da denúncia, solicitando que a universidade conduza uma investigação, se posicione oficialmente sobre o caso e adote medidas disciplinares cabíveis.
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Em resposta ao ocorrido, a Faculdade Santa Marcelina repudiou veementemente o episódio e destacou que, no ato da matrícula, os alunos assumem um compromisso formal com a instituição, comprometendo-se a respeitar os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a legislação vigente.
“A Faculdade Santa Marcelina se manifesta veementemente contrária ao ocorrido no último dia 15 de março, em uma competição esportiva que contou com a participação de estudantes do curso de Medicina, integrantes da Associação Atlética Acadêmica (AAAPV). A instituição esclarece que, no ato de matrícula, o aluno aceita um compromisso formal com a faculdade, de respeito aos seus princípios éticos e morais, à dignidade acadêmica e à legislação vigente. Atitudes como essa constituem agravo à instituição e sua tradição, missão e valores e também à sociedade como um todo”, começou o texto.
A faculdade acrescentou: “Nesse sentido, a Faculdade Santa Marcelina já iniciou um procedimento de sindicância interna para apuração dos fatos e os alunos da instituição responsáveis pelos atos (que ocorreram fora de suas dependências) serão penalizados conforme os princípios estabelecidos e a gravidade da infração. Entre as punições estão advertências verbais e escritas, suspensão e até desligamento (expulsão) da faculdade”.
Em uma segunda nota, a faculdade informou ter instaurado a sindicância, comunicado o caso ao Ministério Público, identificado os envolvidos à Polícia Civil e determinado a interdição das atividades da Atlética até nova deliberação. “A Faculdade Santa Marcelina reafirma seu compromisso com a promoção de um ambiente seguro, respeitoso e ético. Estamos trabalhando para resolver a situação com seriedade e responsabilidade, sempre prezando pelo bem-estar da comunidade”, ressaltou.
Histórico de violência
Este não é o primeiro episódio do tipo envolvendo a Faculdade Santa Marcelina. Em 2017, uma música entoada por alguns estudantes foi banida pela instituição por conter apologia à violência sexual, com expressões explícitas de desrespeito e referências à agressão contra mulheres. A frase exibida na faixa recentemente teria sido retirada desse mesmo “hino”.
A exclusão da música ocorreu após denúncias feitas por coletivos estudantis da instituição. No entanto, em nota enviada ao UOL, a Faculdade Santa Marcelina afirmou que não teve acesso à denúncia realizada pelo Coletivo Feminista Francisca à época, justificando a ausência de providências naquele momento.
Em depoimento à polícia, Lucimara Duarte Chaves, diretora acadêmica da instituição desde junho de 2017, declarou que também nunca teve conhecimento do hino ou de seu conteúdo.
Após a repercussão da imagem, testemunhas relataram ao UOL que a Atlética foi, de fato, responsável pela compra do material e pela inscrição da frase ofensiva. Outros alunos presentes na competição afirmaram que a faixa foi confeccionada após um treino de futsal, realizado na quinta-feira anterior ao evento, com participação direta de membros da Atlética.
A própria Associação Atlética Acadêmica inicialmente divulgou uma nota oficial atribuindo a autoria da faixa aos calouros. Contudo, diante da repercussão negativa, uma segunda nota foi publicada informando o afastamento do presidente e dos vice-presidentes da gestão 2025.
A torcida organizada Sangue Azul e Amarelo, apontada como autora do hino original, só se manifestou após o novo caso vir à tona. Em nota, repudiou qualquer apologia ao estupro e declarou não compactuar com discursos de ódio.
O caso segue sob investigação da Polícia Civil, por meio da 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).
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