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Irmãos de 6 e 8 anos ficam 26 dias perdidos na Floresta Amazônica, e revelam como conseguiram sobreviver

Os pequenos com menos de 10 anos conseguiram se alimentar de frutos encontrados na floresta

Uma história digna de filme! Na última terça-feira (15), os irmãos Gleison e Glauco, de 7 e 9 anos, respectivamente, foram resgatados na Floresta Amazônica após ficarem 26 dias perdidos. Apesar de terem sido encontrados em um estado delicado de saúde, felizmente os dois já estão se recuperando, e contaram a história impressionante de sobrevivência durante esses dias.

No dia 18 de fevereiro, a dupla saiu para caçar pássaros e acabou entrando em uma região de selva da Comunidade Indígena Palmeira, em Manicoré (AM), a 390 km de Manaus. O Corpo de Bombeiros deu início às buscas, mas no dia 25 daquele mês encerrou a operação. Familiares e moradores da região tomaram a iniciativa de procurarem por conta própria, e um cortador de lenha localizou os pequenos cerca de 35 km de distância do local em que eles sumiram.

Ao UOL, a enfermeira Marcilene Mereth, da Casa de Apoio à Saúde Indígena, compartilhou os primeiros relatos de sobrevivência da dupla, incluindo a estratégia de pegar água da chuva para beber usando folhas de árvore. “Chovia, conseguiam tomar um pouquinho de água e seguiam dessa forma. No hospital, a gente percebeu que o mais velho olhava para o pequeno e dizia ‘calma maninho, calma’, dando uma tranquilizada no irmão. Ali a gente já conseguiu ver que o mais velho é que apoiava o outro”, contou.

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Glauco, inclusive, por vezes precisou carregar o caçula nas costas, porque Gleison ficou com os pés feridos. “O mais velho protegia o mais novo. Então o colocava nas costas e andava um pouco até que o outro conseguisse se recuperar”, detalhou Marcilene. O conhecimento foi fundamental para que os dois conseguissem voltar para casa vivos.

De acordo com o coordenador do Distrito Sanitário Indígena (DSEI) de Manaus, Januário Carneiro Neto, os irmãos se alimentaram de sorva, um fruto esverdeado, de sabor adocicado e muito tradicional na região. “Conversei com o irmão mais velho, e foi isso que os salvou. Não foi uma ideia, foi um instinto de sobrevivência. Se eles sentiam fome, iam lá e comiam. É uma frutinha pequenininha que estava de fácil acesso para eles, era o que tinha”, falou.

Gleison e Glauco voltaram para o município de Manicoré conscientes e reclamando da fome que sentiam. Na ocasião, a médica Suzy Serfaty falou do quadro grave que eles apresentavam. “As crianças chegaram com um quadro de desnutrição grave e quadro de desidratação grave. Esse quadro acaba agravando a questão renal deles. Eles chegaram com uma insuficiência pré-renal por falta de ingestão adequada de líquidos e também com um quadro de infecção generalizada, com muitas lesões em pele”, explicou.

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Neste sábado (19), a Secretaria Estadual de Saúde (SES) divulgou um boletim médico promissor sobre o estado de saúde das crianças, que estão cumprindo um protocolo especializado para esse tipo de caso em Manaus. “Os dois seguem estáveis, comunicativos e com boa resposta ao tratamento preconizado, acompanhados por equipe multidisciplinar da unidade. Eles apresentaram melhora considerável do quadro, aceitam a dieta oferecida, evoluem com cicatrização das lesões, com ganho de peso e boa recuperação das funções renais”, escreveu, acrescentando que os dois já ganharam dois quilos.

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Os irmãos se alimentaram da sorva durante o período em que ficaram perdidos na floresta. Foto: Reprodução

Enquanto isso, a família respira aliviada depois de tantos dias de preocupação. “Agora é mais tranquilidade, né? É o aparecimento dos filhos. Não tem uma coisa mais preciosa que vá tranquilizar eles (os pais), que estavam em desespero, como encontrar o que a gente estava em busca”, disse o tio das crianças, Adamor Leite, ao UOL.