ouça este conteúdo
|
readme
|
[Alerta de conteúdo sensível sobre violência doméstica] Uma jovem de 23 anos conseguiu escapar após passar cinco anos em cárcere privado na zona rural de Itaperuçu, na Grande Curitiba, onde vivia com o marido, Jean Machado Ribas, também de 23. Segundo a Polícia Civil do Paraná, ela foi resgatada com o filho do casal, de 4 anos, no último dia 14 de março. O caso veio à tona após uma matéria do “Fantástico”, neste domingo (23).
O homem chegou a ser preso em flagrante, mas foi solto dias depois e está foragido desde então. A Promotoria, que inicialmente não havia pedido a prisão preventiva, voltou atrás após novas informações e o temor relatado pelas vítimas. Jean é procurado por crimes como sequestro, cárcere privado, lesão corporal, ameaça e dano emocional contra a mulher.
Ao programa, a vítima relatou que, durante os anos de convivência, sofria agressões físicas e psicológicas, e que era proibida de sair de casa desacompanhada. Quando saía, era sempre para locais onde só havia pessoas da família de Jean. Dentro de casa, câmeras de segurança voltadas para a porta da frente monitoravam seus passos. O equipamento era acompanhado remotamente pelo agressor enquanto ele estava fora. “Ele exercia realmente um controle sobre a vida dela, sobre a liberdade dela, numa forma de violência psicológica”, afirmou o delegado Gabriel Fontana, da Polícia Civil.
Em gravações feitas pela própria vítima, é possível ouvir o relato de momentos de violência. “O que mais dói em mim, é você me bater, Jean. Você me bate como se eu fosse um homem. Você me bate de verdade. Se fosse um tapa… mas você me afoga, você me dá soco, você tampa a minha respiração, você sobe em cima de mim, você puxa o meu cabelo”, diz ela. Em outro áudio, ela descreve um episódio em que teria sido agredida na frente do filho: “Eu não aguento mais entrar aqui, olhar no sofá e lembrar aquele dia que você me sufocou naquele sofá ali e o filho olhando para minha cara”.
Ouça [Alerta de conteúdo sensível!]:
Áudios de mulher que foi mantida em cárcere privado pelo marido pic.twitter.com/U1jMZgxT8K
— WWLBD
(@whatwouldlbdo) March 24, 2025
Os dois se conheceram na adolescência e se casaram ainda jovens. A violência, segundo a mulher, começou gradualmente e foi se agravando. “A gente, ao pensar em cárcere, pensa em um cárcere clássico, da pessoa amarrada, em um quarto, sendo privada de sua liberdade. Nesse caso, a manutenção dela em cárcere era principalmente pelo domínio da liberdade dela através do medo e das ameaças”, explicou o delegado.
Ela tentou pedir ajuda ao menos duas vezes. Em uma delas, entregou um bilhete a um frentista: “Me ajude. Sofro muita violência em casa”. A polícia chegou a investigar a denúncia, mas não conseguiu identificar a vítima. Dias depois, no dia 7 de março, a mulher usou o celular do próprio marido para enviar um e-mail à Casa da Mulher Brasileira, pedindo socorro.
“Me ajudem […]. Eu sofro muita violência doméstica e não consigo ir até a delegacia. Eu estou sendo vigiada por câmeras 24 horas. Tenho um filho de quatro anos e quero sair de casa com meu filhinho. Ele vê tudo o que passo. […] Me ajudem por favor”, escreveu.

Uma semana após o envio da mensagem, a polícia foi até o local. Inicialmente, a mulher negou ter feito o pedido, mas ao ser confrontada com o e-mail cadastrado no celular, confirmou a denúncia e pediu proteção. Jean foi preso em flagrante e prestou depoimento, mas negou as agressões. Questionado sobre quando teria sido a última vez que bateu na esposa, ele disse “que não se lembrava”.
Mesmo diante das evidências, Jean foi solto no dia 16 de março, após audiência de custódia. O Ministério Público, na ocasião, entendeu que a falta de antecedentes criminais e uma medida protetiva seriam suficientes para garantir a segurança da mulher. No dia seguinte, o MP voltou atrás, alegando novos dados sobre a periculosidade do acusado e o medo relatado pela vítima e seus familiares. O Tribunal de Justiça do Paraná acatou o pedido e expediu novo mandado de prisão, mas Jean não foi localizado e é considerado foragido.

A Polícia Civil pede que informações sobre o paradeiro dele sejam repassadas de forma anônima pelos números 197 (PCPR) ou 181 (Disque-Denúncia). A mulher e o filho seguem acolhidos por programas de proteção e estão recebendo acompanhamento psicológico.
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques