A mulher mantida em cárcere privado durante 22 anos, em Araucária, no Paraná, revelou como era ameaçada pelo padrasto para permanecer submetida à situação. Em entrevista à RPC, afiliada da TV Globo, ela relatou que sofreu pressão psicológica e agressões, e disse que nunca pensou que poderia ser ajudada.
De acordo com a vítima, os abusos começaram aos sete anos, quando a mãe dela ainda era casada com o homem. “Eu sabia que ele é uma pessoa agressiva. Eu tinha medo, muito medo, ainda tenho. Ele falou muita coisa para mim. Ele me ameaçava. Falava que se eu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Falava que a nossa separação seria só a morte“, contou.
A mulher, hoje com 29 anos, teve três filhos com o suspeito. Ela afirmou que, ao longo dos 22 anos de cárcere, nunca imaginou que poderia obter ajuda. “Eu pensava que um dia vocês [jornalistas] poderiam estar noticiando a minha morte, porque eu jamais pensava em escapar, em fugir, reverter a situação. Porque ele falava que se ele não fizesse, outros fariam. Eu não via saída. Eu não aguentava mais“, desabafou, emocionada.

A vítima também lamentou a infância perdida e compartilhou o que deseja para o futuro. “Eu espero poder ser livre, que é uma coisa que desde pequena eu sonhava. Eu via as outras meninas e pensava: ‘Por que eu não posso ser igual? Tem essa parte da minha vida que eu não posso contar para ninguém’. Eu me sentia vigiada o tempo todo. Mesmo sem fazer nada errado. Eu nunca fiz nada errado para ele. Eu levava a minha vida certo, e eu só menti essa vez que eu tive que ir na delegacia. Na verdade, eu espero só que ele não me faça mais mal. Eu não quero passar isso nunca mais, nunca mais“, afirmou.
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Mulher mantida em cárcere privado por 22 anos relata ameaças pic.twitter.com/2Oqovx4gBf
— WWLBD ✌🏻 (@whatwouldlbdo) September 19, 2025
O caso
A mulher, que não teve o nome revelado, denunciou à polícia que foi abusada e mantida em cárcere privado pelo padrasto durante 22 anos, em Araucária, no Paraná. Ela conseguiu fugir na terça-feira (16), depois de alegar ao homem que precisava levar os filhos a um posto de saúde, mas foi até a uma delegacia. O suspeito foi preso e teve a prisão convertida em preventiva. Segundo o portal, ele negou crime durante o interrogatório.
Conforme o delegado responsável pelo caso, Eduardo Kruger, o padrasto obrigava a vítima a se relacionar com outros homens, registrava os abusos em vídeo e a controlava emocionalmente para mantê-la em cárcere privado. Ela sofria agressões físicas e era monitorada por câmeras na casa. “Aos 15 anos, a vítima engravidou. O homem se separou da mãe dela e a obrigou a manter um relacionamento com ele. Eles tiveram três filhos“, declarou. “Ela saía de casa raras vezes, e o homem controlava de minuto em minuto o que ela estava fazendo“, revelou Kruger, que classificou o caso como “um dos mais bárbaros que já se ‘presenciou’“.

A mãe da vítima foi chamada para prestar depoimento nesta quinta-feira (18), mas a polícia não informou se ela é investigada no crime. A vítima e os filhos foram acolhidos e encaminhados para um local seguro, enquanto aguardam as análise das medidas protetivas de urgência, segundo as autoridades.
“Até então, eu estava presa. É isso. Eu tava calada. Eu não abria a boca para nada, para ninguém. Eu vivia numa prisão. Alguns dias eram bons, outros dias eram horríveis. Muito sofrimento. Ninguém sabe quanto. Quantas vezes eu chorei sozinha? Eu tive que ficar presa. Ninguém sabia disso. Quantas noites eu passei? Foi horrível. E ele não ligava. No dia seguinte, ele falava que tudo ia ficar bem, que ele tinha colocado uma pedra em cima e daí vida que segue, mas depois ele continuava a fazer e fazer de novo“, completou a vítima.
Conforme o g1, o nome do suspeito, de 51 anos, não foi revelado pela polícia devido à lei de abuso de autoridade. A defesa dele ainda não se pronunciou sobre o caso.
Sete crimes estão sendo investigados no inquérito: estupro de vulnerável; estupro; privação da liberdade; ameaças; perseguição; violência psicológica; e dano emocional. Em caso de condenação, eles podem render uma pena de mais de 100 anos de prisão.
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