O padre Danilo César, da Paróquia de Areial, na Paraíba, está sendo acusado de racismo religioso após falar sobre a morte de Preta Gil em uma missa no domingo (27). No discurso, ele fez menção aos orixás, entidades cultuadas por religiões de matriz afro-brasileiras.
“Eu peço saúde, mas não alcanço saúde. É porque Deus sabe o que faz. Se for pra você morrer, vai morrer. E Deus sabe o que é melhor pra você. É difícil a gente entender isso. Como é o nome do pai de Preta Gil? Gilberto. Gilberto Gil fez uma oração aos orixás. Cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?”, disse o padre durante a pregação.
Em seguida, Danilo se referiu aos católicos que fazem pedidos para entidades de outras religiões. “E tem católico que pede essas coisas ocultas. Eu só queria que o diabo viesse e levasse. No dia seguinte, quando acordar lá, acordar com calor no inferno, você não sabe o que vai fazer. Tem gente que não vai aqui (Areial), mas vai em Puxinanã, em Pocinhos, e eu fico sabendo. Não deixe essa vida não pra você ver o que acontece. A conta que a besta fera cobra é bem baratinha”, afirmou.
Em seguida, o padre relatou uma história em que a mãe “consagrou” sua filha para essas “entidades de vários nomes”. As práticas de religiões de matrizes africanas ainda foram associadas com doença e morte. “Eu já fui fazer as exéquias na minha cidade natal, e uma mãe desde cedo tinha consagrado a filha a essas entidades desconhecidas que têm vários nomes. Ela morreu cedo e a morte dela foi uma morte tão sofrida. E eu lembro quando ela dizia que ‘tinha sido a besta fera que tinha vindo buscar a filha dela conforme tinha prometido’. Olha a conta, um filho. Com dois meses, ela (a mãe) morreu também”, alegou.
“Fique lutando com essas coisas, que vai dar bem certo. A verdade é essa, abre o olho. E não venha depois com a cara lisa comungar. Porque é a mesma coisa que você estar engolindo uma brasa, a comunhão, que vai lhe queimar por dentro. Tem jeito? Tem. Se confesse. Volte atrás dessas coisas”, concluiu o sacerdote.
As exéquias, citadas por Danilo César, são uma cerimônia fúnebre realizada pela igreja católica para fiéis após a morte. Inicialmente, o vídeo foi postado no canal do YouTube da Paróquia de Areial, em uma transmissão ao vivo. No entanto, o conteúdo foi tirado do ar após viralizar e gerar revolta entre internautas e fãs de Preta Gil.
Assista à íntegra:
Padre é denunciado por intolerância religiosa após citar morte de Preta Gil em missa pic.twitter.com/UjngvqGI3r
— WWLBD ✌🏻 (@whatwouldlbdo) July 30, 2025
A Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria de Souza emitiu uma nota de repúdio às falas do padre. “Deus é amor e respeito ao próximo. E infelizmente esse senhor que se diz sacerdote prega o ódio e o preconceito. e ainda amedronta em pleno culto em sua igreja”, afirmou.
Na terça-feira (29), Rafael Generino, presidente da associação, registrou um boletim de ocorrência na Policia Civil da Paraíba pelo crime de intolerância religiosa. Ele também informou que vai realizar a denúncia no Ministério Público da Paraíba (MPPB) sobre as falas do sacerdote.
“A liberdade religiosa é um direito garantido pela constituição e a liberdade de expressão também. Mas essas duas liberdades não dão o direito de você atacar, humilhar e agredir fiéis de outras religiões. Nós estaremos procurando as medidas legais cabíveis contra todo o tipo de discriminação junto ao centro de igualdade racial do Estado da Paraíba. Racismo religioso é crime inafiançável. Dá de 2 a 5 anos de cadeia”, ressaltou Rafael em um post no Instagram.
Veja:
Ver essa foto no Instagram
Ao g1, o presidente do Fórum de Diversidade da Paraíba, Saulo Gimenez, também se pronunciou sobre o ocorrido. “É uma lástima para todos nós que, em pleno século XXI, depois de uma pandemia que deixou mães sem filhos, amigos perdidos, no meio de uma crise mundial, várias guerras, pessoas perdendo suas vidas, um sacerdote usar o seu lugar sagrado, usar o seu sacerdócio para destilar um veneno tão sórdido como o ódio, como as intolerâncias. Usar um espaço que é para falar de amor, de compreensão, de solidariedade… Mas não, está ali sendo cruel”, lamentou.
O órgão informou que vai continuar acompanhando o caso e vai prestar suporte à associação, além de “encaminhar às autoridades competentes para retratação do padre”. As investigações estão em curso.
O hugogloss.com entrou em contato com a Paróquia de Areial e com a Diocese de Campina Grande, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.
Siga a Hugo Gloss no Google News e acompanhe nossos destaques