Produtora de “Meu Tio Matou um Cara” é acusada de racismo após fala em debate com cineastas; Caso gera revolta e diretora negra que estava na live manifesta repúdio

Um debate promovido pela Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul (APTC-RS) tem causado revolta nos últimos dias. Durante a live, a produtora gaúcha Luciana Tomasi fez comentários que foram apontados como racistas. Nesta segunda (06), a diretora Mariani Ferreira – única negra presente na conversa – manifestou seu repúdio pelo ocorrido.

Na transmissão ao vivo, os convidados debatiam o filme “Inverno” (1983), produzido por Tomasi – que é conhecida pro seu trabalho em “Meu Tio Matou um Cara” (2004), “O Homem Que Copiava” (2003), e por séries como “Brava Gente”. Quando questionada se a produção em questão teria tido uma “influência francesa”, Luciana frisou as descendências europeias da maioria dos convidados e afirmou que eles não poderiam fazer um “filme de senzala”.

A live dos cineastas gaúchos foi alvo de críticas pelo comentário racista. (Foto: Reprodução/YouTube)

“Tu tá falando com um Schünemann, com uma Tomasi, uma Adami, um Gerbase… Não adianta a gente tentar fazer um filme da senzala, entende? Não seria o nosso melhor. Então, cada um tem que mostrar o que curtia e como é que veio. Então, eu acho que eu tava totalmente ambientada. Inclusive eu tenho sangue francês também, não adianta, então cada um faz da sua história. É um filme roots, total”, afirmou a produtora. Confira o trecho aqui:

Rapidamente, usuários pontuando o teor racista das falas surgiram nos comentários na transmissão. Enquanto isso, a atriz Luciene Adami e o roteirista Carlos Gerbase, casado com Luciana, se divertiram com os argumentos da produtora. Com a voz visivelmente embargada, Mariani Ferreira – que era a única cineasta preta do bate-papo – rebateu as colocações de Tomasi sobre “filmes da senzala” e essa exaltação das origens europeias.

“Tem duas coisas no cinema gaúcho que sempre me impressionam: essa coisa de mostrar uma Porto Alegre que é apenas um recorte da Porto Alegre real, não é a Porto Alegre total. Ao mesmo tempo em que essa Porto Alegre é a Porto Alegre dos Tomasi, dos Gerbasi, dos Adami, Porto Alegre também é a Porto Alegre dos Oliveira, Silveira”, comentou ela. “Porto Alegre é onde nasceu o 20 de novembro [Dia da Consciência Negra]. É bem triste dizer que não se faz ‘filmes de senzala’ em Porto Alegre”, concluiu.

Na ocasião, Tomasi devolveu o argumento dizendo que “se fazem filmes de senzala em Porto Alegre”. Mas Mariani reforçou que essa representação audiovisual estava longe de condizer com a realidade. “Se faz filme de senzala, faz mesmo o filme de Casa Grande. A gente vê uma representação extremamente branca, uma Porto Alegre muito branca nesses filmes”, explicou a diretora. Assista ao trecho aqui:

NOTA DE REPÚDIO

Com a repercussão do caso, Mariani compartilhou uma nota de repúdio ao episódio no domingo (05). O texto, escrito pelo coletivo de profissionais negros e negras do audiovisual no Rio Grande do Sul, reprovou a fala “extremamente racista e infeliz”. “Nossa existência é muito maior do que apenas a história da dor que nossos ancestrais sofreram nas mãos dos europeus e seus descendentes”, escreveu.

“Filmes feitos por pessoas negras são filmes e ponto. Cineastas pretes têm abordado em seus trabalhos diversos assuntos, com sensibilidade e talento. Lamentamos profundamente que em 2020 ainda se conheça tão pouco sobre a cultura brasileira”, continuou a nota. “Reiteramos que a história negra é rica, muito além da senzala e da escravidão. Escravidão, que mesmo findada há séculos, insistem em nos imputar como sendo nossa história e ponto. Nossa história é mais do que o que fizeram conosco, vai além do genocídio que marca nossas peles com ferro quente”, disse.

Confira a íntegra:

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#Repost @macumba_lab (@get_repost) ・・・ NOTA DE REPÚDIO: Em live da APTC-RS (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos), no dia 03 de julho, uma fala extremamente racista e infeliz, defendeu que o cinema que não é feito por descendentes de europeus, deve contar a sua própria história: a senzala. Nossa existência é muito maior do que apenas a história da dor que nossos ancestrais sofreram nas mãos dos europeus e seus descendentes. ⁣ ⁣ Filmes feitos por pessoas negras são filmes e ponto. Cineastas pretes têm abordado em seus trabalhos diversos assuntos, com sensibilidade e talento. Lamentamos profundamente que em 2020 ainda se conheça tão pouco sobre a cultura brasileira. E escrevemos cultura brasileira porque a cultura negra é parte central dessa cultura. Reiteramos que a história negra é rica, muito além da senzala e da escravidão. Escravidão, que mesmo findada há séculos, insistem em nos imputar como sendo nossa história e ponto. Nossa história é mais do que o que fizeram conosco, vai além do genocídio que marca nossas peles com ferro quente. ⁣ É urgente que reflitamos uma narrativa que faça jus à grandeza da negritude, consideramos de suma importância lembrar e fazer lembrar que quem tem o hábito de colocar o negro em lugar de subalternidade nas telas é a branquitude.⁣ ⁣ "Temos que falar sobre libertar mentes tanto quanto libertar a sociedade" (Angela Davis).⁣ Edit 1: Na versão original desde post, chamávamos a fala apenas de infeliz. Mas a afirmação feita durante a live foi racista, foi um ato de racismo. Por isso arrumamos ali em cima. É sempre importante denunciar atos de racismo pelo que eles são. ⁣ #MacumbaLab #pretosnocinema #artistaspretos #vidasnegrasimportam #tempretonosul #audiovisualpreto⁣⁣ #cinemapretogaucho

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Em entrevista ao GaúchaZH, Mariani também lamentou o episódio. “Um dos grandes erros foi a live não ter sido interrompida. Você pode ver no vídeo, eu estava emocionada, com a voz embargada. Não se pode reduzir a experiência negra por algo que foi inventado por europeus, como foi a senzala. Não se pode reduzir o cinema a isso. É muito violento quando tu reduz toda essa experiência, toda essa cultura rica, a algo ligado à escravidão”, declarou a diretora.

PEDIDO DE DESCULPAS

Luciana Tomasi e Carlos Gerbase emitiram um comunicado reconhecendo que a fala foi racista e tentaram se desculpar pela atitude. “A palavra ‘senzala’ foi usada de forma infeliz e racista. Além disso, a discussão sobre o machismo no filme foi por nós abordada de forma superficial. Assumimos estes erros e tentaremos melhorar”, disseram eles.

O casal também afirmou que não conseguiu refletir sobre o assunto durante a live, porque não acompanhou os comentários. “Enviamos um pedido de desculpas à cineasta Mariani Ferreira, mas agora fazemos publicamente. Não conseguíamos durante a live debater e ler os comentários ao mesmo tempo, então não foi nosso intento ignorar a discussão sobre racismo que estava acontecendo”, informaram.

Os dois concluíram a longa nota alegando que pretendem aprender mais, não apenas sobre o racismo, mas também sobre o machismo. “Quem nos conhece e sabe sobre as causas pelas quais sempre lutamos, sabe que nenhum sentimento de exclusão ou preconceito cabe em nosso coração. Mas isso, de maneira nenhuma, nos exime do erro cometido”, pontuaram Tomasi e Gerbase. Veja o comunicado abaixo:

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Antes tarde…

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COMUNICADO APTC-RS

Ainda no domingo, a íntegra da transmissão havia sido deletada pela APTC-RS. No entanto, a associação publicou o vídeo novamente no YouTube, agora, acompanhado do aviso: “Este vídeo contém falas de cunho racista”. A descrição da gravação também manifestou um comunicado oficial da instituição. “O silêncio e omissão dos outros participantes após o ocorrido expõe ainda mais uma realidade do audiovisual brasileiro branco que é incapaz de perceber ou reagir imediatamente a absurdos como o que registramos aqui”, citou o texto.

A associação ainda pediu desculpas por não ter intervindo na ocasião. “Não poderíamos ter sido omissos naquele momento, independente do quão chocados estávamos. A APTC reconhece e pede mais uma vez desculpas pelo seu erro de não ter reagido com a urgência necessária à situação, não se posicionando imediatamente”, adicionou a nota.

“Assistir às falas de cunho racista e o silêncio dos presentes neste debate, é desconfortável, doloroso e ofensivo. Porém, é importante deixar disponível o registro dessa discussão na íntegra, para que não caiamos no erro de invisibilizar o debate em uma sociedade contaminada pela forte herança colonial e escravocrata, contexto no qual essa entidade surgiu e se consolidou”, finalizou.

Assista ao debate completo abaixo: