Suposta filha secreta de Freddie Mercury aponta a real sexualidade do cantor e critica filme biográfico

Mulher identificada como “B” trouxe relatos sobre o cantor na biografia “Com Amor, Freddie”

Nova biografia de Freddie Mercury traz relatos inéditos da mulher que afirma ser sua filha e questiona a forma como sua sexualidade é retratada até hoje. A obra revela detalhes pessoais e perspectivas diferentes sobre o artista.

A sexualidade de Freddie Mercury continua sendo discutida mesmo após 34 anos de sua morte. Em relato ao novo livro sobre o lendário vocalista do Queen, intitulado “Com Amor, Freddie”, ao qual o hugogloss.com teve acesso, a suposta filha secreta do artista afirmou que ele nunca gostou de ser reconhecido como um “ícone gay”, já que sempre foi bissexual. A obra, da editora Rocco, chega ao Brasil, nesta sexta (5).

Escrita por Lesley-Ann Jones, a biografia foi feita a partir da narrativa da mulher que garante ser filha do cantor, identificada apenas como “B”, e do conteúdo de 17 cadernos pessoais que teriam sido deixados a ela antes do falecimento de Mercury. De acordo com ela, “não passava pela mente” do pai alguma confusão sobre a sua orientação sexual.

Uma das falácias muito repetidas é que Freddie teria sido reprovado nos exames acadêmicos na St. Peter’s por estar confuso em relação à sua orientação sexual. Mas isso é um equívoco completo. Esse tipo de confusão nem passava por sua mente“, disse “B”. “O difícil para ele era a maneira como os outros viam, julgavam e rejeitavam sua bissexualidade“, declarou.

Ela criticou a forma com que o assunto foi retratado no filme “Bohemian Rhapsody”, de 2018. “Essa abordagem reducionista é, até certo, ponto, esperada. Primeiro porque esse era um assunto particular, da conta de mais ninguém além de Freddie; segundo, porque em parte envolvia a intimidade de pessoas que não são públicas e, portanto, têm direito à privacidade. Mas também porque, naquele período de mudanças na forma como a sociedade encarava a sexualidade, exigir que o público geral aceitasse que o líder de uma banda de rock fosse abertamente bissexual seria pedir demais“, pontuou.

Livro “Com Amor, Freddie” foi lançado nesta sexta-feira (5) pela editora Rocco. (Foto: Getty)

Freddie não se via como um homem gay, mas bissexual. Ele disse isso com as próprias palavras e confirmou com a própria letra. Mas, para ele, o amor, a ternura, o afeto e a emoção eram muito mais importantes do que o desejo. Como ele mesmo disse, ‘não se pode comparar sexo com amor, porque, neste caso, você está se referindo à coisa mais linda da Terra’. Ele transou e sentiu desejo por homens, mas com Mary ele fazia amor“, relatou “B”, referindo-se à Mary Austin, ex-namorada, melhor amiga e principal herdeira de Mercury.

Para ela, o cantor “tinha atração física por homens”, mas era “emocionalmente atraído pelas mulheres”. “Ele precisava do amor inquebrantável que sentia por sua mulher mais do que qualquer outra coisa na vida. Sempre muito educado, respeitador e um perfeito cavalheiro, ele odiava os homens gays que se comportavam de maneira extravagante fora de contexto. Ele berrou e explodiu de raiva com Jim Hutton algumas vezes, quando ele tratou mal uma mulher ou lhes disse palavras desrespeitosas. Freddie era muito correto. Ele queria tudo ‘no seu devido lugar’“, explicou.

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“B” também usou um termo para rotular o vocalista do Queen. “Se tivermos que rotular Freddie de alguma coisa teríamos que usar a expressão ‘homem bissexual polígamo’. Se ele estava à frente do seu tempo? Ele sabia que as pessoas tinham dificuldade de entender sua postura. Inclusive, acharia incompreensível que, trinta anos após sua morte, isso ainda não seja debatido com naturalidade nos dias de hoje“, refletiu.

O homem bissexual ainda é visto na nossa sociedade como uma pessoa gay não assumida e que só quer manter as aparências. O estranho é que essa mesma sociedade não projeta esse preconceito nas mulheres bissexuais. A repressão sob a qual vivem os homens gays tem um papel importante nisso. A ideia aparentemente inimaginável de que uma pessoa possa ao mesmo tempo ser homo e heterossexual resultou na negação da verdadeira identidade bissexual“, opinou.

Ainda, “B” alegou que ex-namorada de Freddie, Rosemary Pearson, o rejeitou pelo fato de ele ser bissexual. “Ele nunca escondeu a bissexualidade, nem o fato de transar com homens. Se ele quisesse esconder esse lado com medo de incomodar os pais, não teria dado as declarações públicas que deu“, afirmou.

Mary Austin, ex-namorada, melhor amiga e principal herdeira de Freddie. (Foto: Getty)

Vida dupla

Na obra, a filha do cantor também cita a “vida dupla” do artista e até onde ele foi para manter o “amor da sua vida” escondido do mundo. “Depois que nasci e o Freddie se tornou oficialmente pai, ele passou a escrever sem parar no diário sobre como eu crescia e os momentos que passávamos juntos. Não queria esquecer nada. Escrevia também para aliviar um pouco a complexidade daquela situação e conseguir lidar com algo tão delicado. Escrevia porque ele mesmo havia sofrido traumas na infância e na adolescência e não queria que eu passasse pelas mesmas coisas. Queria que eu soubesse que ele me amava incondicionalmente, que eu estava sempre em seu coração e em sua mente — mesmo quando não estávamos juntos e só podíamos nos falar pelo telefone“, contou.

Segundo “B”, Mercury sempre a visitava em meio aos compromissos profissionais e a educação que ele lhe dava era através de conversas. “Fui protegida do mundo do show business e de tudo que ele envolve. Mas nunca fui impedida de ter uma relação aberta, normal e afetuosa com o meu pai por estarem sempre tentando me esconder de fotógrafos e jornalistas. Tive a relação mais próxima que se pode imaginar com meu pai, desde que eu nasci e por todo o tempo em que ele viveu. Nós nos adorávamos“, compartilhou.

Ele me ajudou a ouvir a minha intuição e entender que seja lá o que eu sentisse lá no fundo não podia estar errado. Falou que eu precisava experimentar e tentar por mim mesma. Que teria que cometer meus próprios erros e até ser desobediente — mas não muito nem com muita frequência! Pois essa era a única maneira de aprender. E me incentivou a não ter medo de errar, porque sempre estaria lá para me apoiar e ajudar. E ele com certeza fez isso. Mesmo tendo morrido há décadas, os diários dele foram a garantia de que sempre estaria ao meu lado. Aqueles cadernos preciosos me deram todas as respostas e foram uma fonte de muito conforto“, concluiu.

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