Entrevista: Henri Castelli se abre sobre os desafios da paternidade, revela sonhar com novo casamento, e explica por que não entra em aplicativos de namoro: ‘Não quero mais errar’

Atualmente no ar em “Malhação”, Henri Castelli se divide entre Rio de Janeiro e São Paulo para conciliar o trabalho e a família. Apesar da constante ponte aérea, o ator de 41 anos anda fazendo um ótimo papel nas duas áreas! Henri conversou com o hugogloss.com sobre a relação com os filhos, a vontade de se casar novamente e a volta para a novela que lhe deu seu primeiro destaque na teledramaturgia, em 2002.

Para comemorar o Dia dos Pais neste domingo (11), Castelli falou sobre “os amores da sua vida”, os filhos Lucas, de 12 anos, fruto de seu casamento com Isabeli Fontana, e Maria Eduarda, de 5 anos, com a jornalista Juliana Despírito. “Pode parecer complexo, porque são duas mães diferentes, mas a gente se dá superbem e as duas mães entendem muito bem como é a minha vida e o que eu preciso fazer pra poder ficar presente na vida deles”, revelou ele.

E Castelli se esforça para estar sempre com os dois. “Pra mim o maior desafio da paternidade é criar um elo de ligação em um mundo que tudo faz com que a gente se afaste. Hoje em dia é muito fácil se afastar”, refletiu. “Se eu tô num ambiente com meu filho colado no celular, eu tento tirar ele dali, colocar no colo, sair de moto, levar no shopping, numa loja, ir a um parque, andar de bicicleta, fazer coisas que possibilitem a gente se abrir um pro outro e conversar.”

Apesar da família próxima, o ator ainda planeja se casar e ter mais um filho. “Ainda tô só aguardando, mas é uma coisa que eu quero, vai acontecer”, contou Henri, que está solteiro atualmente. “O que Deus me deu tá maravilhoso, eu só agradeço, mas eu quero ter essa oportunidade de ter alguém e ter mais um filho.” E ele está deixando tudo acontecer naturalmente, sem por exemplo recorrer aos populares aplicativos de relacionamento. “Eu só não quero mais errar. Como eu já tenho 40 anos, eu não tenho mais tempo pra ficar perdendo tempo, vamos dizer assim. É uma coisa que eu quero, mas não é que minha vida dependa disso. Não é uma obsessão.”, explicou.

Depois de dar vida ao Pedro em 2002, Castelli está de volta aos cenários de “Malhação” como o Madureira, professor de Muay Thai, que dá assistência a jovens de baixa renda através da prática do esporte. “A volta tem um valor sentimental porque é como se fosse uma homenagem à minha própria carreira. E ainda ter conseguido voltar pra um projeto que tá incrível não tem preço”, vibrou o ator.

Confira a entrevista completa: 

Hugogloss.com: Vamos começar falando de “Malhação”. Como foi voltar para a novela depois de quase 18 anos?

Henri Castelli: É um projeto pessoal. Eu pedi muito pra Globo pra eu fazer. Eu tô lá há 21 anos como funcionário. Malhação não foi minha primeira novela, mas foi um lugar em que eu aprendi muito o ofício da profissão. Foi onde eu aprendi mesmo toda a técnica e a ficar 24 horas trabalhando praticamente. Nas gravações de Malhação a gente tem as mesmas câmeras, a mesma equipe trabalhando todos os dias aí se vira mesmo uma família. A novela é tão rápida que eles nem gravam separadamente. É um estilo de gravação diferente, mas que te aproxima muito mais. Quando tem uma equipe legal, uma galera legal – que eu tive a sorte de ter há uns anos e tô tendo a sorte de ter de novo – é muito legal. Então era um projeto que eu tinha há quatro anos, que eu pedia pra fazer e nunca dava porque aparecia uma novela, aí uma coisa acabava encavalando na outra. Mas acho que aconteceu no momento certo porque eu peguei a melhor equipe possível, dos sonhos. Do diretor até a tia que serve o café. Hoje eu brinquei com uma menina da produção que faria mais 500 capítulos da Malhação. Quantos capítulos a gente já não fez de novela nesses vinte um anos… uns seis mil, mais até, então fazer 500 capítulos em um lugar que você é feliz eu faria fácil.

Henri Castelli ainda tem o mesmo crachá desde aquela época (Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/TV Globo)

HG: Em 2002, você fazia parte do elenco jovem e, dessa vez, está entre os adultos. Como é sua relação com os atores mais novos agora?

HC: Tô aprendendo de novo com os jovens, o jeito que eles te admiram, que eles falam com você é muito bacana. Porque eu me vejo o espelho deles, né? Eles me olham do mesmo jeito que eu olhava o Kadu Moliterno, que era o meu pai na trama, e a galera mais experiente, como eu digo. Então aumenta muito a responsabilidade. Eu vou fazer as cenas com eles e falo assim: ‘Eu não posso errar um texto’. Eu fico mais nervoso do que quando eu tive que fazer cena com o Tony Ramos e a Fernanda Montenegro, porque a responsabilidade troca de lado, né? (risos).

HG: E o que a nova Malhação tem de especial pra você?

HC: Acho que só de eu ter voltado já é muito especial pra mim. A volta é especial porque é como se fosse uma homenagem. Não quero que seja egoísta, mas é um pouco [uma homenagem] porque eu fiz isso há 18 anos. A Malhação vai fazer 26 anos. Eu tô na Globo há 21 anos. Então ter conseguido voltar pra um projeto que tá incrível, que alavancou o Ibope, que é a segunda Malhação mais vista dos últimos 10 anos, que tá sendo elogiada… é uma gratidão enorme, não tem preço. Tem um valor sentimental porque é como se fosse uma homenagem à minha própria carreira. É um orgulho pra mim. E pra empresa é muito bacana também. O elenco adulto voltar pra fazer Malhação é muito importante pra empresa. Se a Malhação não vai bem as outras novelas demoram a pegar. Se a Malhação tá bem é a porta de entrada pra grade de novelas da empresa. E como a gente trabalha, não só com o sentimental, mas também com números, então juntou tudo ao mesmo tempo e tá sendo muito gratificante.

HG: Foi lá que você desempenhou seu primeiro grande papel na TV Globo, como o Pedro. Do que você sente saudade daquela época, com exceção do elenco?

HC: Nada! (risos) É porque tá igualzinho. Quando eu chego parece que é o mesmo estilo de gravar. Claro que tá mais moderno, os temas são mais atuais, isso é normal, mas é a mesma “fôrma”. Tem mó galera que trabalha lá que trabalhou comigo antes… o cara do vídeo, do som, o diretor, Adriano… O menino que empurra o trilho da câmera também fez comigo 18 anos atrás então tá o maior barato. Eu me sinto como se tivesse aberto um portal no tempo. É muito legal mesmo. A gente tá no capítulo 100, são 300 capítulos, e eu já tô sofrendo agora porque eu sinto que tá acabando.

HG: O Madureira é muito envolvido com o Muay Thai. Como foi seu contato com a luta para a novela?

HC: A luta sempre existiu na minha vida, né. Como eu perdi meu pai muito cedo e minha mãe trabalhava na prefeitura, eu ia pro SESI seis horas da manhã pra ela poder ir trabalhar. Então eu ia pra piscina, depois eu ia pro judô, depois eu ia pro karatê, futebol, basquete… aí meio-dia eu ia embora pra almoçar e ir pra escola. Minha rotina era assim, então eu praticamente fui obrigado a aprender fazer esporte e ter esse contato. Fazia muito judô e karatê. O que eu gostava mais era karatê, que remete um pouco mais ao Muay Thai. Eu gosto mais de agilidade, são os esportes que me atraem mais. Já tinha feito Muay Thai antes, mas a diferença é que agora eu tô fazendo uma coisa mais profissional. Como eu sigo muito à risca, a linha do personagem, que é o Muay Thai raiz, eu fui nessa base. O cara foi salvo por um tailandês de rua, não tinha pai, não tinha mãe, ele podia ter se envolvido em qualquer tipo de coisa errada e o esporte tirou ele dali e salvou a vida dele. Então eu fui aprender até o método, que é diferente de você fazer um esporte pra emagrecer ou só se exercitar. Eu fui aprender as técnicas, a religião, a filosofia do Muay Thai. Eu tive encontros com o pessoal da Tailândia, eu tive uma imersão muito louca, eu fiz uma tatuagem na cabeça, praticamente.

HG: Pelo seu Instagram agora parece que você tá curtindo muito. Você vai continuar treinando depois que a novela acabar?

HC: Com certeza! Mas aí eu vou fazer os treinos mais tranquilos, porque o que eu tô fazendo é muito técnico mesmo pra eu poder ter a desenvoltura de um mestre, né?! Quando eu vou treinar eu falo: ‘É meu trabalho’. Quando acabar a novela eu vou fazer leve, tranquilo, não vou me preocupar com a técnica – se eu errar não tem problema. Agora eu não posso errar. Eu tenho que saber fazer 100% do básico. Quando eu subir no ringue, na novela, eu tenho que saber fazer um chute certo, um soco certo e com a mesma habilidade organicamente que qualquer mestre de Muay Thai olhe e reconheça. Não vai ser 1000% porque você não consegue aprender uma luta milenar de arte marcial em um ano, oito meses, mas eu quero estar pelo menos próximo disso pra pessoa que assistir não criticar. Pra pessoa ver que eu tô me empenhando pra representar a luta clássica. E eu tenho que me virar em mil, tem dor no ombro, dor no joelho, não é fácil, eu tô treinando igual atleta.

HG: Os treinos pra você são obrigação ou prazer?

HC: Tá sendo as duas coisas juntas. É super prazeroso. A diferença é que tem dia que eu tô muito cansado, mas sei que eu tenho que ir porque tenho que estar preparado pra novela, mas é super prazeroso. É a mistura das duas coisas, é perfeito. Uma coisa puxa outra.

HG: O que mais você faz pra manter o físico pra novela e pessoalmente?

HC: Ah, eu faço treino funcional de condicionamento físico, na praia ou em estúdio quando eu tô em São Paulo, pra ter fôlego pra conseguir treinar, porque é muito puxado e cansativo. Tem que estar preparado fisicamente. Aí faço aulas de alongamento também, pra você poder dar um chute alto e não ficar aleijado. (risos)

HG: Agora entrando no clima de ‘Dia dos Pais’, seu Instagram tá cheio de fotos com a Maria Eduarda e o Lucas e eles são a sua cara! Como é sua relação com eles?

HC: Ah, eles são os amores da minha vida. No sábado de manhã já vou pra escolinha da minha filha porque tem apresentação de uma dança que ela vai fazer especialmente pra mim. Já faz mais de um mês que ela tá falando que escolheu a música, pedindo pra eu adivinhar… é emocionante. Eu perdi meu pai muito cedo, então era um dia que pra mim era triste porque era uma data que me lembrava meu pai e hoje em dia é a data mais feliz da minha vida. Pra gente ver como o mundo dá voltas. Não tem nenhum mal que dura pra sempre.

Henri Castelli com os filhos Lucas e Maria Eduarda (Foto: Arquivo Pessoal)

HG: Pra você, qual é o maior desafio da paternidade hoje?

HC: Hoje em dia tá difícil colocar gente no mundo… o nosso mundo tá complicado. Tem que ficar com mil olhos o tempo inteiro em cima das crianças. Hoje em dia tem acesso à Internet, acesso a muita coisa e tem muita gente ruim. Eu já peguei tanta maldade na Internet. Então você tem que estar muito presente. Você precisa fazer eles entenderem que você é o melhor amigo deles. Que ele pode confiar 1000% em você. E pra passar isso pra criança você tem que conversar, você tem que estar colado. Hoje em dia é muito fácil se afastar. Um exemplo “besta”: você vai no restaurante, tem seis pessoas e tá cada um olhando pro seu celular. Então, se eu tô num ambiente assim com meu filho, colado no celular, eu tento tirar ele dali, colocar no colo, sair de moto, levar no shopping, numa loja, ir a um parque, andar de bicicleta, fazer coisas que possibilitem a gente se abrir um pro outro e conversar. Já teve momentos nos quais eu mesmo estava triste, há um ano e meio, mais ou menos, quando eu estava em Portugal, aí eu ligava pro meu filho. Falava: ‘Papai tá triste, queria conversar com você, ouvir sua voz’. Pra ele sentir que eu também tinha uma fragilidade que ele podia ajudar. Pra ele se sentir importante na minha vida. Isso cria um elo de ligação. Pra mim esse é o maior desafio, criar um elo de ligação hoje em um mundo que tudo faz com que a gente se afaste.

HG: Como você, a Isabeli (Fontana, mãe do Lucas) e a Juliana (Despirito, mãe da Maria Eduarda) dividem o tempo com cada um?

HC: Pode parecer complexo, porque são duas mães diferentes, mas a gente se dá superbem e as duas mães entendem muito bem como é a minha vida e o que eu preciso fazer pra poder ficar presente na vida deles. Elas me ajudam muito nisso sem que a gente tire a rotina deles, porque isso não pode acontecer. A gente rebola mesmo pra poder fazer isso. Mas conversar e ter uma amizade é o passo mais importante entre nós três.

HG: Vocês têm alguma regra pra definir o tempo de cada um?

HC: Tem no papel, mas graças a Deus a gente se fala abertamente sobre isso, então não tem regra. Não tem que ter esse tipo de regra quando você tem contato, amizade e respeito, porque quem sofre com isso é só a criança, né. Minha vida é uma loucura, aí, por exemplo, eu só vou poder estar em São Paulo daqui 40 dias em um final de semana, aí nesses 40 dias eu vou gravar no sábado. Se tiver regra pra poder pegar eu ficaria dois meses sem ver [meus filhos] e quem vai ser afetado são eles. Existe um diálogo muito bacana de amizade e respeito com as mães.

HG: A Maria Eduarda e o Lucas convivem bastante entre si? Como é a relação entre os dois?

HC: Sim. Um adora o outro demais. Ele cuida dela pra caramba. Outro dia, eu deixei ele com ela um pouquinho parecendo como se eles estivessem sozinhos e que eu estava dormindo. E eu tenho um monte de câmera em casa, então fiquei observando do quarto pra testar como ia ser. E ele ficou cuidando dela. Pegou um iogurte na geladeira pra ela, pegou o Yakult, aí deixou ela no quarto vendo ele jogar videogame, aí ela ia e mostrava as coisas pra ele. Eu sempre ficava sozinho com a minha irmã, sem câmera, sem ninguém, quando minha mãe não tava em casa, a gente aprendeu a fazer tudo. Então eu quis dar essa impressão de segurança pra incentivar eles a se soltar um pouquinho, pra eles se sentirem mais independentes, capazes.

HG: Você acredita que algum traço da sua personalidade tenha mudado depois de ser pai?

HC: Muda na maturidade. Saltar de paraquedas, por exemplo, eu não salto mais. Não me arrisco tanto quanto eu fazia antes. Eu sou mais maduro, trabalho mais consciente, eu foco mais as minhas coisas, eu não deixo mais tanta coisa de lado como eu deixava. Você tem que ser uma pessoa mais focada porque agora têm duas pessoas que dependem de você. Eu dou o exemplo do paraquedas porque antigamente se eu caísse de lá eu não tinha nada a perder, hoje eu não posso me arriscar assim.

HG: Você disse em uma entrevista no ano passado que o que faltava pra você ser completamente realizado era ter um casamento tradicional e mais um filho. Você ainda pensa assim?

HC: Com certeza, isso vai acontecer, pode escrever!

HG: E você já atualizou o status desde então?

HC: Ainda não, eu tô só aguardando, mas é uma coisa que eu quero, vai acontecer. Eu quero casar, quero ter a minha família. Hoje em dia eu já tenho a minha família, mas eu quero poder ter a minha casa. Eu praticamente nunca tive a experiência de ter a minha casa, com a minha mulher, meus filhos, morando juntos em um único endereço, aquela coisa tradicional mesmo, eu quero poder viver isso. Não que a minha seja errada, não acho errada. Eu tenho a minha família, dois filhos lindos. Eu sou feliz do jeito que eu tô e com o que eu tive na vida. O que Deus me deu tá maravilhoso, eu só agradeço, mas eu quero ter essa oportunidade de ter alguém e ter mais um filho. Isso vai acontecer, você pode escrever aí.

HG: O que considera essencial em uma companheira?

HC: Só quero achar alguém legal, alguém consciente, com a cabeça boa, que tenha a ver comigo, que seja minha parceira, que entenda que eu já tenho dois filhos e que aceite planejar outro filho. Enfim, tenho que arrumar uma parceira que também sonhe a mesma coisa que eu, senão não vai adiantar nada.

Henri Castelli ainda quer se casar e ter outro filho: “Isso vai acontecer, pode escrever aí.” (Foto: Divulgação)

HG: Você está procurando alguém ou prefere deixar acontecer naturalmente? Entraria em aplicativo de relacionamento, por exemplo?

HC: Nunca procurei ninguém, as coisas aconteceram. Nossa, eu nem tenho a menor ideia [de como funciona o aplicativo], não sei os nomes. Não tenho preconceito com nada, mas não [entraria]. Também, sei lá, de repente, nunca digo nunca pra nada, mas eu não fico procurando mesmo. Eu só não quero mais errar. Como eu já tenho 40 anos, eu não tenho mais tempo pra ficar perdendo tempo, vamos dizer assim. Agora, se for pra acontecer, vai acontecer naturalmente e eu não vou ficar no desespero procurando. É uma coisa que eu quero, mas não é que minha vida dependa disso. Não é uma obsessão. Porque, se for, eu vou enfiar os pés pelas mãos e vai dar m*rda. Então deixa acontecer. Pode acontecer no elevador, pode acontecer no aeroporto, pode acontecer em qualquer lugar.

HG: E você acredita em amor pra vida toda?

HC: Acredito, com certeza. Comigo ainda não aconteceu no amor romântico, mas aconteceu com a mãe dos meus filhos. Eu amo a mãe do meu filho. É um amor pra vida toda, dando o exemplo da Isabeli, vamos supor. Eu tenho um amor por ela pro resto da vida. É uma menina que eu cuido, me preocupo. Romântico eu não sei, pode ser que sim, pode ser que não. Mas eu acredito que pode acontecer. E eu também não tenho prazo pra esse tipo de coisa. Eu não programo data, horário, nem nada. Pode ser que eu conheça a pessoa em um mês e resolva casar, pode ser que seja em 10 anos. Se eu achar que é o momento e a pessoa também achar então tá bom. É uma coisa que a gente sente. O sentimento não é matemático.

HG: Você já contou que faz um jejum de sexo e bebida alcoólica todo ano e que teve uma vez que esse período durou três meses, né? Como funciona?

HC: São coisas de energia. Eu posso tomar minha cerveja, ou vinho, mas não me desfoca em nada. Eu nunca me perdi por nada disso. Mas é um momento pra eu passar comigo mesmo. Porque, queira ou não queira, o sexo é uma troca de energia muito grande. [Mas] não é nada radical. Esses três meses acabaram acontecendo, não foi nada programado do tipo ‘você tem que ficar três meses’, foi coincidência. Eu fui ficando e ficando até sentir que eu estava bem. Eu tava de boa, poderia ter sido dez dias. Uma vez por ano eu faço sempre. E geralmente dura no máximo 20 dias. Esse de três meses foi uma exceção. Tava bom, aí eu fui ficando. Não tava sentindo necessidade de nada. Mas aí esses vinte dias são muito bons pra mim. Eu leio pra caramba, é um momento que eu me conecto comigo mesmo. Porque nosso trabalho é muito louco, eu leio tanto texto de roteiro que não tenho tempo pra pegar um livro pra ler. É difícil, eu já tentei. Não dá tempo. Então é um retiro pra mim. Vou na livraria, compro de 15 a 20 livros de religião a romance, ficção, tudo, e leio um livro atrás do outro. Fico lá, durmo, aí acordo e leio, como, durmo de novo. Não tem horário. Posso dormir três da tarde, ou três da manhã. E aí interfere até a noção do tempo. É confinado mesmo.

HG: Você vai para algum lugar específico nessa época?

HC: Geralmente eu vou pra Maceió na casa da minha mãe preta. Lá é um lugar bem rústico, é fazenda, no meio do nada. Em União dos Palmares, bem ao pé da Serra do Zumbi, onde teve toda a história do Zumbi dos Palmares em Alagoas. É um lugar que me dá muita energia. Surgiu naturalmente, eu fiz uma vez, gostei, aí fui criando códigos… os livros, relaxar, pensar na minha vida, me conectar com quem eu sou, meu foco, com as coisas que eu queria na vida… tipo realinhar o trem. Acho que um anjo da guarda me pegou e me colocou ali naquele momento.

HG: Além de sexo e bebidas, você corta mais alguma coisa?

HC: Fico sem celular. Comida eu como o que minha mãe faz. Onde eu fico lá é bem rústico, a gente toma banho de caneca, de água de cachoeira, escova os dentes com água na caneca, dorme no chão com folhas, não tem janela, então é à luz do dia. O escuro vem naturalmente. É maravilhoso.

HG: Você teve uma infância bastante humilde e chegou a passar perrengues enquanto tentava emplacar a carreira de ator, com dificuldade até para bancar a alimentação… Como isso interfere em sua relação com o dinheiro? Chega uma hora que você estranha tudo o que conquistou?

HC: Eu sou de São Bernardo do Campo, nasci no meio de duas comunidades, fui criado no meio de muita coisa errada, jogava bola em comunidade, estudei em escola municipal, e as pessoas nunca imaginam isso porque eu sou loiro e tenho olho claro. Eu não nasci no Palácio de Buckingham. Eu morei em Caxias. Eu sei muito bem como é esse ambiente. É muito mais familiar pra mim fazer essa Malhação do que participar do núcleo de Ipanema. Eu nunca morei em Ipanema, nunca tive isso. Eu tenho ideia do que é Caxias, mas aí olham pro meu tipo e me colocam no núcleo de Ipanema. E eu dou mó valor pra isso. Graças a Deus que eu tive isso. Nasci com um tipo físico que todo mundo fala ‘nossa, que cara bonito’, mas graças a Deus, eu nasci na periferia. Eu adoro ter nascido, tenho o maior orgulho de hoje eu poder ter as minhas coisas graças à minha família e às pessoas que acreditaram em mim. Essa família que me recebeu, todo mundo. Eu não tinha pai que trabalhava na televisão, no teatro, nada, eu que fui atrás das minhas coisas. Não é à toa que eu tô há 21 anos na Globo. Lá eu aprendi a ser tudo, profissional, pai, eu nunca trabalhei em outro lugar, inclusive. Antes disso, eu sempre fui demitido. Funelaria… loja… porque não era o que eu gostava de fazer. O único lugar que eu fiquei por tanto tempo foi onde eu fiz minha vida. Então eu dou o maior valor pra isso, eu agradeço muito. Eu olho no espelho e penso: Tudo que eu puder fazer para ajudar alguém com palavras ou qualquer incentivo – porque eu acho que a caridade é muito mais isso do que dar dinheiro – eu falo que eu tenho o dever de fazer. Eu tenho que agradecer muito quando eu olho no espelho. Eu sou uma pessoa abençoada e tento passar isso pras pessoas. Quando eu tô triste eu olho pra trás e penso na minha trajetória, nas coisas que eu conquistei, que eu tenho, minha saúde, meus amigos e falo que eu não tenho o direito de ficar triste. Pelo contrário, tenho que ficar feliz e emanar isso pra outras pessoas, incentivar, é o que eu acho.