Fala controversa de Ratinho sobre extinção do mico-leão-dourado gera revolta na web; Associação de proteção publica carta de repúdio à declaração; saiba os detalhes!

Vixe, pegou mal! Conhecido pelo seu jeito falastrão, o apresentador Ratinho acabou se envolvendo em uma grande polêmica após seu programa ir ao ar na segunda-feira (16). Durante uma das reportagens exibidas na atração, o veterano da televisão fez um comentário bem controverso, defendendo o fim do mico-leão-dourado. Ao tomar conhecimento da fala, uma associação que preza pela vida dos bichinhos se pronunciou e criticou duramente o paulista.

Em um determinado momento do programa, Ratinho comentou que viu uma entrevista de Jô Soares e Chico Anysio, e no bate-papo os dois teriam questionado a existência de rinocerontes. “Eu tava vendo no YouTube a entrevista, e eles estavam se perguntando, ‘Pra quê serve o hipopótamo?’. Pra comer não serve, só se for o hipopótamo comendo o outro. Rinoceronte? Pra quê? Um baita de um chifre e não ara a terra. Qual a necessidade? É impressionante!”, disse no início.

Em seguida, o apresentador seguiu sua própria linha de raciocínio e falou sobre o mico-leão-dourado. “Aquele mico-leão-dourado… Eles [pessoas] pegaram helicóptero, pegaram o mico-leão-dourado e leva o miquinho pra lá, miquinho pra cá. Se todos morressem, o que iria mudar pra nós? Nada. Vamos cuidar das pessoas, gente. Por favor!”, disparou. Veja o momento no minuto 31:48!

Na página oficial da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) no Facebook, uma carta aberta endereçada ao apresentador foi publicada. “Como formador de opinião, gostaríamos de lhe esclarecer que, ao proteger o mico-leão-dourado, estamos cuidando não só da espécie, mas também das pessoas”, dizia um dos trechos. “O mundo mudou, o Brasil mudou. Os tempos são outros. Hoje, a ciência sabe muito mais sobre o papel de cada espécie na natureza do que na época em que o saudoso Chico Anysio fez a declaração a que o senhor se referiu. Hoje, uma declaração como a sua é uma séria ameaça à espécie”, criticaram Ratinho.

Em seu texto, a associação fez questão de frisar alguns pontos sobre os estudos biológicos a respeito da espécie e o impacto que ela tem na vida humana e no mercado. “O mico é um animal dispersor de sementes, que ajuda a semear florestas, que por sua vez, protegem as águas da importantíssima bacia do rio São João, no Rio de Janeiro. As águas desta bacia são as principais responsáveis pelo abastecimento hídrico de toda a região dos Lagos, no Rio de Janeiro, onde se localizam cidades como Cabo Frio, Araruama e Búzios, entre outras. Mais de 530 mil pessoas vivem na região”, explicaram. (Leia a nota da organização na íntegra no final do post)

Nas redes sociais, a fala controversa de Ratinho também desagradou os internautas. “Lógico que não muda nada para o @ratinhodosbt se o mico-leão-dourado for extinto. É que o cérebro dele ainda não evoluiu como o de um mico para saber. Embaixador de Araque!”, postou um jovem se referindo ao título do apresentador de embaixador do turismo, dado a ele pelo presidente da República, Jair Bolsonaro.

“Nota de esclarecimento ao apresentador Ratinho a respeito do mico-leão-dourado
Caro Ratinho,

A Associação Mico-Leão-Dourado manifesta preocupação com seu comentário no programa de TV desta segunda-feira, 16 de setembro, em relação ao mico-leão-dourado, espécie única da fauna brasileira e ameaçada de extinção:

Como formador de opinião, gostaríamos de lhe esclarecer que, ao proteger o mico-leão-dourado, estamos cuidando não só da espécie, mas também das pessoas. Vamos explicar como isso acontece:

1- O mico é um animal dispersor de sementes, que ajuda a semear florestas, que por sua vez, protegem as águas da importantíssima bacia do rio São João, no Rio de Janeiro. As águas desta bacia são as principais responsáveis pelo abastecimento hídrico de toda a região dos Lagos, no Rio de Janeiro, onde se localizam cidades como Cabo Frio, Araruama e Búzios, entre outras. Mais de 530 mil pessoas vivem na região.

2- Proteger o mico-leão-dourado também gera emprego e renda. A Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) emprega 15 funcionários, além de estagiários, consultores e prestadores de serviço, a maioria da comunidade local. Mais de 20 trabalhadores plantam florestas diariamente para recuperar o habitat do mico. Cinco famílias de agricultores alimentam seus filhos produzindo e vendendo mudas para utilização em nossos plantios de floresta.

3- Com todas essas parcerias, a AMLD já plantou mais de 740 mil mudas de árvores nativas, reflorestando milhares de metros quadrados de áreas degradadas. Isso representa mais água e mais qualidade de vida para quem vive aqui.

4- Além disso, o programa de ecoturismo para ver o animal na natureza atrai turistas de todo o mundo e isso também gera renda paras as comunidades locais. Esse programa é feito com a participação ativa de proprietários rurais que permitem o acesso dos turistas às áreas de mata preservada em suas fazendas.

5- Proteger o mico também produz ciência e conhecimento. Recebemos cientistas e pesquisadores de importantes universidades do Brasil e do mundo. Mais de 60 famílias de agricultores são beneficiadas por nossos cursos e mutirões em agroecologia. Professores da rede pública participam de programas de educação ambiental e levam esse conhecimento para milhares de crianças nas salas de aula.

6- O município de Silva Jardim, onde fica a Reserva Biológica de Poço das Antas, tem um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do Rio de Janeiro (número 87 entre 92). Estamos fazendo a nossa parte para ajudar a mudar este cenário. Participamos do “Movimento Silva Jardim Sustentável” com proprietários rurais, professores, artesãos, comerciantes, agricultores e todos os que reconhecem o mico-leão-dourado como referência da região.

7- Importante destacar que o orçamento da AMLD não conta com um único centavo de dinheiro público. Pela Constituição Federal, o Estado deveria, sim, investir para proteger a natureza e ajudar iniciativas como a nossa. Mas dependemos de parcerias e doações, nacionais e principalmente internacionais, além da prestação de serviços.

8- Por último, nunca utilizamos helicópteros para transportar os animais.

Nosso trabalho é fruto de um grande esforço coletivo, feito com muita seriedade, e ajudou a transformar o mico-leão-dourado em um símbolo de resistência e da conservação da natureza no Brasil. Temos o reconhecimento das principais instituições de pesquisa e entidades de conservação da natureza no Brasil e no mundo.

A espécie é exclusiva do Rio de Janeiro. Não existe em nenhum outro lugar no mundo e é considerada um tesouro da biodiversidade mundial, tendo sobrevivido ao desmatamento e ao tráfico de animais. Atualmente, o primata pode ser encontrado em apenas em oito municípios no interior do Rio de Janeiro

Ao protegê-lo, estamos protegendo as matas em que ele vive e que ajudam a equilibrar o clima; os rios que nos fornecem água, o solo que produz alimentos e nos sustenta e estamos protegendo também muitos outros animais da Mata Atlântica. Todos os animais têm sua função na natureza, desde os primatas até os pequenos roedores.

Diante de todo o exposto, consideramos que o senhor tratou o trabalho de conservação da espécie de maneira equivocada. Pois estamos, sim, cuidando de pessoas.

O mundo mudou, o Brasil mudou. Os tempos são outros. Hoje, a ciência sabe muito mais sobre o papel de cada espécie na natureza do que na época em que o saudoso Chico Anysio fez a declaração a que o senhor se referiu. Hoje, uma declaração como a sua é uma séria ameaça à espécie. Além de atingir pessoas que tem dedicado sua vida ao trabalho de preservação do animal.

Certos da sua compreensão, contamos com uma retratação da sua parte e com a divulgação de nossos esclarecimentos.

Aproveitamos para convidá-lo a conhecer a AMLD e a ver o mico-leão-dourado de perto. E pedimos que faça uma convocação a sua vasta audiência: o senhor sabia que dia 21 de setembro é o Dia da Árvore? Por que não nos ajuda a plantar mais florestas?

Atenciosamente,
Luís Paulo Ferraz – Secretário Executivo
Associação Mico-Leão-Dourado”