J.K. Rowling divulga longa carta aberta e relata “cinco motivos de preocupação” com ativismo trans; Autora fala pela primeira vez sobre passado de abuso sexual e doméstico

Após ser acusada de transfobia por uma série de tuítes polêmicos publicados no final de semana, J.K. Rowling decidiu se manifestar nesta quarta-feira (10) através de uma longa carta publicada em seu site oficial. Em seu posicionamento, a autora de “Harry Potter” explicou por que tem ressalvas em relação ao ativismo trans e se abriu, pela primeira vez, sobre seu primeiro casamento, em que sofreu violência doméstica e abuso sexual.

“Esse não é um texto fácil de se escrever por razões que logo se tornarão claras, mas eu sei que é hora de eu me explicar em relação a um assunto cercado de toxicidade. Eu escrevo isso sem qualquer desejo de complementar essa toxicidade”, iniciou ela. Na sequência, Rowling listou todo seu passado que a fez ser tachada como uma pessoa transfóbica.

“Para aqueles que não sabem: em dezembro do ano passado, eu manifestei apoio à Maya Forstates, uma especialista em impostos que havia perdido seu emprego pelo que foram chamados de ‘tuítes transfóbicos’. Ela levou seu caso até o tribunal, pedindo para o juiz determinar se uma crença filosófica que o sexo é determinado pela biologia é protegido por lei. O Juiz Tayler determinou que não era”, relembrou.

“Meu interesse por assuntos trans surgiram quase dois anos antes do caso da Maya, durante os quais eu acompanhei de perto o debate acerca do conceito da identidade de gênero. Eu me encontrei com pessoas trans, li diversos livros, blogs e artigos escritos por pessoas trans, especialistas de gênero, pessoas intersexuais, psicólogos, especialistas, trabalhadores sociais e médicos, e acompanhei o debate online e nas mídias tradicionais”, ressaltou.

JK publicou uma longa carta aberta em seu site (Foto: Getty)

Rowling pontuou que, a princípio, seu interesse era profissional, uma vez que está escrevendo uma história criminal passada nos dias atuais, cuja detetive ficcional feminina está numa idade em que se interessa e é afetada por esses problemas. No entanto, pouco depois, ele se tornou pessoal.

“Todo esse tempo em que eu tenho pesquisado e aprendido, acusações e ameaças de ativistas trans foram surgindo na minha timeline no Twitter. Isso se iniciou, a princípio, por causa de uma ‘curtida’. Quando eu comecei a me interessar por identidade de gênero e assuntos transgêneros, eu comecei a tirar screenshots dos comentários que me interessavam, de modo a me lembrar do que eu gostaria de pesquisar mais tarde. Em uma ocasião, eu, sem querer, dei uma ‘curtida’ em vez de tirar um screenshot. Essa única curtida foi evidência de um pensamento errado, e um assédio persistente, mas em baixo nível, começou”, resgatou ela.

“Meses depois, eu endossei minha ‘curtida’ acidental seguindo Magdalen Burns no Twitter. Magdalen era uma feminista lésbica jovem e corajosa que estava morrendo de um tumor cerebral agressivo. Eu a segui porque queria contatá-la diretamente, o que fiz. No entanto, como Magdalen era uma grande crente na importância do sexo biológico, e não acreditava que as lésbicas deveriam ser chamadas de fanáticas por não namorarem mulheres trans com pênis, os pontos foram conectados na cabeça dos ativistas trans do Twitter e o nível de abuso nas redes sociais aumentou”, acrescentou.

“Eu menciono tudo isso para explicar que eu sabia perfeitamente o que iria acontecer quando eu apoiei Maya. Eu já deveria estar no meu quarto, ou quinto, cancelamento na época. Eu esperava as ameaças de violência, as acusações de que eu estava ‘literalmente matando pessoas trans com meu ódio’, ser chamada de vadia e puta e, claro, para os meus livros serem queimados, apesar de um homem em particular ter dito que ele tinha compostado-os”, explicou.

J. K. Rowling já teve polêmicas com a comunidade trans anteriormente (Foto: John Phillips/Getty Images)

“O que eu não esperava após o meu cancelamento era a avalanche de emails e cartas que chegaram até mim, em sua maioria positivas, gratas e apoiadoras. Eles vieram dos mais diversos tipos de pessoas gentis, empáticas e inteligentes, algumas que trabalhavam em áreas lidando com dismorfia e pessoas trans, que estão profundamente preocupadas sobre como o conceito sócio-político está influenciado políticos, as práticas médicas e as proteções. Eles estavam preocupados com os perigos para pessoas jovens, pessoas gays e sobre a erosão dos direitos das mulheres e meninas. Acima de tudo, eles estavam preocupados com um clima de medo que não serve para ninguém, menos ainda para a juventude trans”, expôs Rowling.

Ela explicou que se ausentou do Twitter antes e depois o caso de Maya por saber que os comentários não estavam fazendo bem para sua saúde mental. “Eu apenas voltei porque eu queria compartilhar um livro infantil grátis durante a pandemia. Imediatamente, os ativistas que claramente acreditam que são pessoas boas, gentis e progressistas, voltaram à minha timeline, assumindo o direito de policiar meu discurso, me acusando de ódio, me chamando de termos misóginos e, acima de tudo, como toda mulher envolvida nesse debate sabe, de TERF”, especificou ela, explicando o significado do termo em seguida.

“Se você ainda não sabia, TERF é um acrônimo usado pelos ativistas trans que simboliza ‘Feminista Radical Trans-Excludente. Na prática, uma grande e diversa parte de mulheres estão sendo chamadas de TERFs e a maioria nunca foi feminista radical. Exemplos de TERFs variam de uma mãe de uma criança gay que tinha medo de sua filha querer a transição para escapar do bullying homofóbico a uma senhora mais velha totalmente não feminista que jurou nunca mais visitar a loja Marks & Spencer novamente porque eles estavam deixando qualquer homem que dizia que se identificava como mulher nos provadores. Ironicamente, as feministas radicais não não trans-excludentes — elas incluem homens trans em seu feminismo, porque eles nasceram mulheres”, pontuou.

Foi então que a escritora explicou por que decidiu se posicionar. “Eu tenho cinco motivos para estar preocupada em relação ao ativismo trans”, afirmou ela, explicando um por um na sequência. “Primeiro, eu tenho um fundo de caridade focado em aliviar a privação social na Escócia, com ênfase particular em mulheres e crianças. Entre outras coisas, meu fundo apoia projetos para prisioneiras mulheres e para sobreviventes de abuso doméstico e sexual. Eu também financio uma pesquisa médica de Esclerose múltipla, um doença que se comporta de modos muito diferentes em homens e mulheres. Está claro para mim que o ativismo trans está tendo, ou provavelmente terá, um impacto significativo nas várias causas que eu apoio, porque está tentando corroer a definição legal de sexo e substituí-la por gênero”, apontou.

Muitas pessoas lamentaram a memória de Harry Potter ser destruída pelo posicionamento da autora (Foto: Getty; Divulgação/Warner Bros.)

“A segunda razão é porque eu sou uma ex-professora e a fundadora de uma caridade infantil, o que me dá interesse em educação e proteção. Como muitos, eu tenho preocupações profundas em relação ao efeito que o movimento trans está tendo em ambos. E terceiro é que, como uma autora banida, eu estou interessada na liberdade de discurso e o direito de defendê-lo publicamente, até mesmo com Donald Trump”, declarou.

“A quarta é onde as coisas ficam verdadeiramente pessoais. Eu estou preocupada pela explosão de jovens mulheres desejando fazer a transição e também pelos números cada vez maiores que querem destransicionar (voltar ao sexo original), porque se arrependem de terem dado passos que, em alguns casos, mudaram seu corpo de forma irrevogável, e tiraram sua fertilidade. Alguns dizem que decidiram fazer a transição depois de perceberem que eram atraídos pelo mesmo sexo e que fizeram a transição, em parte, por causa da homofobia, tanto da sociedade como de suas famílias”, declarou Rowling, expondo alguns pesquisadores que endossavam sua linha de pensamento.

“A maioria das pessoas não sabe — eu certamente não sabia até pesquisar o assunto propriamente — que dez anos atrás, a maioria das pessoas que queriam fazer a transição para o sexo oposto eram homens. Essa proporção se inverteu agora. O Reino Unido viu um aumento de 4400% de meninas pedindo o tratamento de transição. Meninas autistas são imensamente representadas nesses números. O mesmo fenômeno foi visto nos Estados Unidos”, escreveu ela, citando alguns dados. “Mas os ativistas insistiram que ninguém poderia ser persuadido a se tornar trans”, acusou.

Na sequência, J.K. afirmou que teve contato com diversos textos escritos por pessoas trans, que a fizeram pensar sobre sua própria vida. “Quanto mais eu leio sobre seus relatos, com suas descrições de ansiedade, distúrbios alimentares, auto-agressão e ódio em relação a si mesmos, mais eu me pergunto se, se eu tivesse nascido 30 anos depois, eu também teria tentado a transição. A fascinação de tentar escapar da feminilidade teria sido grande. Eu lutei contra um TOC severo na adolescência. Se eu tivesse achado uma comunidade online que eu não conseguia achar no meu ambiente imediato, eu acredito que teria sido persuadida a me tornar o filho que meu pai disse abertamente que preferia”, declarou.

“Quando eu leio sobre a teoria de identidade de gênero, eu me lembro de como eu me sentia mentalmente assexuada na minha juventude. Eu me lembro da descrição da Colette como uma ‘hermafrodita mental’ ou das palavras de Simone de Beauvoir: ‘É perfeitamente natural para as mulheres do futuro se sentirem indignas diante das limitações colocadas nelas por seu sexo. A questão real não é por que ela deve rejeitá-las: o problema é entender por que ela as aceita'”, justificou.

Rowling seguiu seu relato pessoal, mencionando que precisou recorrer aos livros e às músicas para se entender e, então, pontuou: “Eu quero ser clara aqui: Eu sei que a transição vai ser uma solução para algumas pessoas com dismorfia de gênero, apesar de também saber com longas pesquisas que os estudos consistentemente mostram que cerca de 60 a 90% de jovens com dismorfia de gênero vão superar a dismorfia. Muitas pessoas me falaram para conversar com algumas pessoas trans. Eu conheci: além de algumas mais novas, que eram adoráveis, eu conheci uma mulher transsexual mais velha que eu e maravilhosa. Ela é aberta sobre seu passado como um homem gay, mas eu sempre achei difícil pensar nela como algo além de uma mulher e eu acredito que ela está completamente feliz com a transição”, apontou.

A autora e roteirista passou a explicar sua visão em relação às mulheres. “Nós estamos vivendo no período mais misógino que eu já vivenciei. Nos anos 1980 eu imaginava que minhas futuras filhas, se eu tivesse alguma, teriam um mundo bem melhor que eu tive, mas entre retaliação contra o feminismo e a cultura de saturação do pornô online, eu acredito que as coisas se tornaram significativamente piores para garotas. Eu nunca vi mulheres tão inferiorizadas e desumanizadas como estão agora”, afirmou.

J.K. descreveu sua experiência como vítima de abuso (Foto; Getty)

Em seguida, ela tratou sobre o assunto que desencadeou os tuítes do final de semana, quando questionou uma matéria que chamava mulheres de “pessoas que menstruam”. “A língua ‘inclusiva’ que chama pessoas femininas de ‘menstruadoras’ ou ‘pessoas com vulvas’ chega a muitas mulheres como desumanizadoras e humilhantes. Eu entendo por que os ativistas trans consideram essa linguagem como apropriada e gentil, mas para aqueles de nós que tiveram xingamentos cuspidos de homens violentos, não é neutro, é hostil e alienador”, declarou.

“O que me traz a quinta razão pela qual eu estou profundamente preocupada em relação às consequências do atual ativismo trans”, expôs, relatando seu casamento abusivo. “Eu tenho estado sob os olhos do público agora há mais de vinte anos e nunca falei publicamente sobre ser uma sobrevivente de abuso doméstico e sexual. Não porque estou envergonhada que essas coisas tenham acontecido comigo, mas porque é traumático revisitar e lembrar. Eu também me sinto protetora em relação à minha filha do primeiro casamento. Essa é uma história que pertence a ela também. No entanto, há pouco tempo, eu perguntei como ela se sentiria se eu fosse publicamente honesta sobre aquela parte da minha vida e ela me encorajou a seguir em frente”, destacou.

“Eu estou mencionando essas coisas não em uma tentativa de ganhar simpatia, mas em solidariedade com o número gigante de mulheres que tem histórias como a minha, que foram chamadas de radicais por se preocuparem com espaços para um único sexo”, acrescentou Rowling. “Eu consegui escapar do meu primeiro casamento violento com alguma dificuldade, mas eu agora estou casada com um homem bom e de princípios, segura e salva de jeitos que eu nunca pensei estar. No entanto, as cicatrizes deixadas pela violência e o abuso sexual não vão desaparecer, não importa o quão amada você seja, nem quanto dinheiro você ganhou”, explicou.

“Meus pulos de susto são uma piada familiar, mas eu rezo para que minhas filhas nunca tenham as mesmas razões que eu para odiar sons altos e repentinos, ou ver pessoas atrás de mim quando eu não as ouvi se aproximando”, desejou. “Se você entrar na minha cabeça e entender o que eu sinto quando eu leio sobre mulheres trans morrendo nas mãos de homens violentos, você vai achar solidariedade e gentileza. Eu tenho um senso visceral do terror que essas mulheres trans sentiram em seus últimos segundos, porque eu também tive momentos de medo cego quando eu percebi que a única coisa me mantendo viva era o autocontrole instável do meu agressor”, desabafou.

Daniel Radcliffe também se posicionou contra as falas de JK (Fotos: Getty)

Por fim, ela explicou como se sentia em relação à violência contra a mulher. “Eu acredito que a maioria das pessoas que se identificam como trans não só posam zero ameaça a outros, como também são vulneráveis por todas as razões pelas quais eu listei. Pessoas trans precisam e merecem proteção. Como mulheres, elas são mais propensas a serem mortas por seus parceiros sexuais. Mulheres trans que trabalham na indústria do sexo, especialmente as mulheres trans de cor, estão em um risco particular. Como toda outra sobrevivente de abuso doméstico e sexual que eu conheço, eu não sinto nada além de empatia e solidariedade em relação às mulheres trans que foram abusadas por homens”, afirmou.

“Eu quero que as mulheres trans tenham segurança. Ao mesmo tempo, eu não quero fazer garotas e mulheres cis menos seguras. Quando você deixa as portas de banheiros e trocadores abertas a qualquer homem que acredita ou sinta que é uma mulher, então você deixa a porta aberta para qualquer e todo homem que queira entrar. Essa é a simples verdade”, concluiu.

Então, J.K. Rowling expôs sua intenção com a carta. “Tudo que eu estou pedindo — tudo que eu quero — é que uma empatia similar, um entendimento similar, seja estendida aos muitos milhões de mulheres cujo único crime foi querer que suas preocupações fossem ouvidas sem receber ameaças e abusos”, finalizou.