Três anos após acusações de agressão, Victor Chaves quebra silêncio, fala sobre depressão e atual relação com ex-esposa, e revela alívio com fim de dupla com Léo

Três anos após ser acusado de agredir a ex-esposa, Poliana Bagatini, quando ela estava grávida, Victor Chaves quebrou o silêncio sobre o caso. Em entrevista à colunista Eliane Trindade, da “Folha de S.Paulo”, publicada hoje (23), o cantor sertanejo falou sobre uma depressão que quase o fez tirar a vida após o episódio, revelou sua atual relação com a mãe de seus filhos, e explicou o fim da dupla com o irmão, Leo.

Victor foi denunciado por Poliana em fevereiro de 2017. Segundo o boletim de ocorrência, a empresária disse que foi agredida pelo cantor por motivos fúteis no prédio do casal, que foi jogada no chão e recebeu vários chutes. Ela acrescentou que, depois das agressões, ainda foi impedida de sair do local por um segurança e pela cunhada.

Em janeiro deste ano, Victor foi condenado a 18 dias de prisão, por vias de fato, contravenção que acontece quando há agressão, sem deixar marcas. A sentença ainda prevê pagamento de R$ 20 mil por danos morais. No entanto, ela ainda não será cumprida, pois o artista está recorrendo da decisão.

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“Utilizaram os fatos com leituras sensacionalistas. Se não fosse para a mídia e não chegasse aos rigores que chegaram, teria sido um dia de caos que resultaria em separação. Como se trata da mãe dos meus filhos, só posso falar que houve descontrole emocional grande”, classificou o sertanejo na entrevista.

Ele, então, descreveu sua versão da história. “Não estava na discussão entre Poliana, minha mãe e minha irmã no andar de baixo. Ouvi coisas quebrando. Estava com minha filha no colo, passei ela para a cozinheira e desci. Vejo cacos de vidro e Poliana aos gritos: ‘Vou pegar nossa filha e ir pra rua'”, relembrou.

“Tento impedir e proteger minha filha: ‘Calma, você está grávida’. Ela cede, mas volta. É triste Poliana dizer no depoimento que eu a joguei no chão. Na TV, aceleram o vídeo (imagens da câmera de segurança do elevador). Não dá para ver que estou arqueando o corpo para suavizar a queda dela”, pontuou ele. “Tecnicamente, o que digo é comprovável. Mesmo que não fosse, se tivesse chutado uma mulher no chão, não teria como não feri-la. O exame de corpo de delito deu negativo. Não havia marcas de agressão”, acrescentou.

Na época, Victor atuava, ao lado de Leo, como jurado do “The Voice Kids” e deixou o talent show no meio da temporada. “Eles colocaram que eu pedi para sair do programa. Isso nunca aconteceu. Eu tinha problemas com a direção, por questões ideológicas. Destruir-me era um bom negócio. Não conseguiram”, declarou.

Victor seguiu, contando como foram seus dias após o episódio. “Fui para Uberlândia para decidir se ia parar a turnê da dupla. Lá, me deparei com um caos psicológico e emocional. Tombei. Seis dias depois do episódio, quase tirei minha própria vida. Prefiro não entrar em detalhes”, desabafou. “Fiquei sem chão. Na mídia, antes me retratavam como um ser perfeito, o que nunca fui. Depois, você vira um monstro, o que também não é. Percebi ali empiricamente que basta a minha consciência”, explicou ele.

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A solução encontrada pelo cantor foi se dedicar ainda mais à música. “Vivi uma dor tão grande que só dormia e tocava. O que me salvou foi a arte. Durante uns sete meses, tomava banho de três em três dias”, admitiu. “Eu me enfiei nos shows, mesmo envergonhado. Era música atrás de música para eu não pensar. Meus músicos me viam acabado, chorando”, completou.

“Ficar calado três anos foi duro. Meu ímpeto era de me defender, mas esse silêncio me valeu muito. Comecei a me livrar do ego, a ir ao dentista no horário comercial, pegar fila em aeroporto. Uma sensação de estar vivo”, descreveu o artista. “Eu tive que dizer para mim mesmo que não sou isso [agressor de mulher]. Jamais fiz mal a quem quer que seja”, alegou.

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Uma gata de alma clara…

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Victor contou que perdeu contato com toda a classe artística e que, inclusive, foi ignorado quando abriu oportunidade de diálogo com alguns companheiros de profissão, como Zélia Duncan. “Tive que me abster da internet, dos tabloides. Era tóxico. Está lá: Victor Chaves agressor, criminoso, bandido, espancador de grávida. Antes era Victor Chaves cantor, produtor musical, ganhador de Grammys”, recordou.

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O cantor, então, explicou o vídeo publicado no começo de 2019, em que ele satirizava o caso. Foi a partir da gravação que o sertanejo fez, em janeiro deste ano, que a juíza decretou o fim do segredo de justiça e liberou publicamente o vídeo do circuito interno de câmeras do prédio em Belo Horizonte em que o casal morava, mostrando o momento em que Victor teria agredido Poliana. “Quando Ricardo Boechat morreu, um jornalista sério que eu admirava, fiz aquele vídeo“, apontou.

“Tive a ideia no banho: fazer o papel de um jornalista sem camisa e de um engravatado, numa crítica a essa mídia medíocre, a tudo quanto é fake news e notícias inúteis”, explicou ele. “O post saiu do controle. Eram agressões e ameaças por acharem que eu estava debochando da Justiça”, ponderou sobre as consequências.

Em seguida, Victor explicou como ficou a relação com os filhos Maria Vitória e João Luiz, bebê que Poliana estava esperando na época da acusação. “Fiquei sem ver minha filha por 45 dias. A condição de ter acesso a ela era estar com uma pessoa que sustentava acusação grave contra mim. Não tinha condição de me aproximar”, apontou.

“Depois do episódio, consegui, judicialmente, ficar oito horas por semana com ela. Quando meu filho nasceu, eu fui ao hospital, mas só o revi depois de quatro meses. Com ele eram duas horas semanais”, explicou o artista. No entanto, a situação melhorou a partir de julho de 2019, quando o casal obteve guarda compartilhada e passou a ter uma relação amigável. “Com a Covid-19, em vez de pegá-los toda semana, nos vemos de 15 em 15 dias, quando passam cinco dias comigo. Se estão estressados pelo confinamento, recorro ao Facetime”, falou.

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Sobre a dupla “Victor & Leo”, o cantor apontou que ficou aliviado quando chegou ao fim. “Desde 2013, eu vinha tentando junto com o Leo achar um momento certo de parar. Havia uma máquina de contratantes, shows, imprensa. Era pressão familiar, empresarial e da nossa equipe de 150 pessoas. Tínhamos dois aviões, duas carretas, um hangar”, listou.

“No final de 2017, propus mais um ano de turnê para o fim da dupla não ficar atrelado ao fato. Em 2018, gravamos o DVD ‘O Cantor do Sertão’, que produzi, fiz os arranjos e direção. Fechamos o ciclo da dupla com esse trabalho. Foi um alívio. Percebi que fiquei 12 anos de fama sem respirar, sem viver, sem ir à padaria”, contou.

Victor declarou que a relação com o irmão melhorou após a separação da dupla (Foto: João Miguel Júnior/Globo)

Segundo o cantor, isso ainda teria melhorado sua relação com o irmão. “Voltou a minha relação com o Leo, de irmãos, que estava se perdendo. É maravilhosa hoje. Ele vai na minha casa, eu vou na dele. No tempo de dupla, a gente não se frequentava. Pelo desgaste”, recordou. “Precisei desse tempo de reclusão pra me dedicar a meus filhos, blindá-los e me reformular para um trabalho próprio”, adiantou ele, que revelou estar com um disco pronto chamado ‘Luz do Sol’, mas ainda sem previsão de lançamento.

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Procurada pela ‘Folha’, Poliana se manifestou sobre a entrevista por meio do advogado Ralph Tórtima Stettinger Filho. “A despeito do que houve, ela quer manter um clima amistoso com Victor, pensando na saúde mental dos filhos”, explicou Tórtima.

Na sentença proferida em 22 de novembro de 2019, a juíza Roberta Soares considerou que o acusado retirou a vítima, à força, do elevador. “Pode-se inferir que a agressão praticada pelo réu foi desproporcional -e desnecessária- em relação ao seu intuito, voltado, eventualmente, à proteção de sua filha“, rebateu ele sobre a versão de Victor.

O advogado afirmou que a condenação era o desfecho aguardado por Poliana, que é a favor de denunciar qualquer ato de violência doméstica, “mesmo diante das pressões”. “As imagens são claras. Houve um empurrão com o pé e nada justifica o gesto”, destacou. “Poliana só teve a perder, seja do ponto de vista financeiro, seja pela família que se dividiu”, completou ele.