A atriz Hannah Murray, conhecida por seus papéis em “Game of Thrones” e “Skins”, revelou uma experiência chocante que culminou em sua internação em uma ala psiquiátrica, em 2016. Em um trecho de seu livro de memórias, “The Make-Believe: A Memoir of Magic and Madness”, lançado nesta terça-feira (23), ela relata o envolvimento com um grupo de “cura energética” e a crença de que teria sido “possuída por um demônio”.
O conteúdo foi divulgado pela revista The Cut como parte da promoção da obra. No relato, Murray revisita os acontecimentos que antecederam sua internação, as consequências desse período e o diagnóstico que trouxe maior clareza à sua trajetória.
Na época, a atriz — hoje afastada da carreira — vivia uma fase de transição profissional. Após trabalhos de destaque, ela buscava novos caminhos e desejava “inovar”. Nesse contexto, envolveu-se com o filme “Detroit”, dirigido por Kathryn Bigelow.
“Eu queria me abrir ao máximo e canalizar coisas que me pareciam distintamente outras. Queria entrar num mundo de faz de conta. Queria me sentir como um xamã”, afirmou.
Foi nesse período que ela conheceu um grupo de “cura energética” e seu líder, identificado no livro como Steve. “Eu estava no último dia de um curso de cura energética realizado no porão de um hotel em Londres, a poucas horas da minha cerimônia de iniciação, quando fui levada ao hospital”, lembrou.

Segundo Murray, o líder afirmou que ela havia sido possuída durante as filmagens de “Detroit”. “Steve me disse que eu havia sido possuída por um demônio durante as filmagens de ‘Detroit’. Ele realizou um exorcismo em mim. Então, minha única preocupação era a energia que eu sentia percorrendo meu corpo e as vozes que eu ouvia na minha cabeça. E Steve: meu Rei, meu Deus, meu grande amor e a pessoa com quem eu mais conversava no WhatsApp”, escreveu.
Mesmo ao ser informada de que seria internada involuntariamente, a atriz afirma que não demonstrou preocupação. Ela também relata que desenvolveu uma dependência emocional em relação ao líder, com quem mantinha contato constante — chegando a enviar cerca de 20 mensagens para cada resposta recebida.
“Eu não me importava muito que o diálogo parecesse unilateral, que eu frequentemente visse os dois tiques azuis indicando que ele havia lido minhas mensagens e depois tivesse que esperar horas por uma resposta. Ele era a única pessoa com quem eu me importava em me comunicar. Ele estava em um pedestal acima de todos os outros humanos. Ele era, como me disse em uma mensagem, ‘o iniciado de mais alto nível e detentor da linhagem do Rei Salomão. Fui iniciado na grande Pirâmide de Gizé, na câmara do Rei. Sou um Xamã Viking, um Homem Medicina iniciado na tribo indígena americana do cabelo trançado. Sou um Sumo Sacerdote Wiccano de décimo segundo nível e um Sumo Sacerdote da Magia Egípcia e um monte de outras coisas… Viajei pelo mundo todo aprendendo, ensinando e ajudando onde posso'”, descreveu.

Após algum tempo internada, Murray afirma que começou a “despertar” da situação e passou a questionar Steve, a quem chegou a chamar de “líder de uma seita do mal”. Ele negou as acusações, alegando que ela agia por livre-arbítrio e atribuindo os acontecimentos a “energias”, e não a ações humanas.
Em uma das mensagens citadas no livro, Steve se apresentava com uma série de títulos espirituais, reforçando sua suposta autoridade: “Se eu comandasse um culto maligno, seria o pior líder de culto da história. (…) Você pode parar de falar quando quiser. É sua vontade. Eu não estou brincando com você, então vamos parar de dizer isso agora, querida. Eu não ‘fiz isso’ com você. O curso não fez isso com você. Isso aconteceu com você como acontece com algumas pessoas por causa de várias situações (…) Se você quiser que eu ou QUALQUER OUTRA PESSOA vá embora, nós iremos. Simples assim. Se você quiser ajuda, isso também pode ser feito. Mas direcionar sua raiva para a linhagem, para mim ou para QUALQUER PESSOA é simplesmente errado. NINGUÉM em lugar nenhum fez nada com você. Isso aconteceu não por ação humana, mas por energias. Se você se queimasse de sol na praia, apontaria para o salva-vidas e o culparia por isso?”.
Depois de três semanas na ala psiquiátrica, a atriz recebeu alta e iniciou acompanhamento com um psiquiatra. Durante o tratamento, abordou questões como depressão, uso de drogas e automutilação. Foi então que recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar, condição caracterizada por oscilações intensas de humor, energia e comportamento.
“Tudo fazia sentido. Eu me lembrava de uma ligação de uma amiga, em outubro, preocupada com a intensidade crescente dos meus momentos de extrema euforia e dos meus períodos de profunda tristeza. Na época, transtorno bipolar parecia ser aquilo que ela não dizia em voz alta. Eu não queria admitir que havia algo errado. Mas, à luz dos acontecimentos recentes, ficou muito mais difícil continuar acreditando que estava tudo bem”,escreveu.
Murray relata ter sentido alívio com o diagnóstico, que ajudou a explicar anos de sofrimento. Segundo ela, a narrativa de que estaria “possuída por um demônio” não correspondia à realidade.
Apesar disso, após deixar o hospital, a atriz retornou ao grupo e voltou a se envolver com suas práticas. “Tudo parecia sublime e paradisíaco, o mundo um paraíso dourado. A realidade era que eu ainda estava fora de mim”, desabafou.
“Todas as minhas ilusões permaneciam intactas; a hospitalização não as abalou em nada. Eu saí da ala e voltei direto para a vida que me levara até lá. Eu ainda era fervorosamente dedicada à organização. E Steve ainda era tudo para mim”, lamentou.
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