Marília Mendonça pede desculpas em live após acusações de transfobia: “Não vim pra me justificar”; Cantora convida Alice Felis, modelo trans vítima de ataque — Assista

Na noite deste sábado (17), Marília Mendonça usou a visibilidade de sua live para se desculpar novamente após as acusações de transfobia, decorrentes de seu último show virtual, em agosto. A cantora também abriu espaço para que a ativista trans Alice Felis – vítima de transfobia e brutalmente atacada meses atrás – conscientizasse sobre o assunto e trouxesse seu relato.

Durante uma pausa entre as músicas, a cantora trouxe a questão à tona: “Queria aproveitar esse momentinho da live, desse pico de audiência, para me desculpar por uma brincadeira sem graça que foi feita na última live que eu fiz. Todo mundo já sabe o que aconteceu. Eu não vim aqui para me justificar sobre nada porque não tenho razão nenhuma em me justificar. Sempre presto muita atenção nos meus erros e tenho tentado aprender cada vez mais e me consertar. É do ser humano errar, mas a gente tem que prestar bastante atenção”.

Marília Mendonça pediu desculpas novamente sobre as acusações de transfobia. (Foto: Reprodução/YouTube)

Na sequência, a “Rainha da Sofrência” alertou sobre os perigos da transfobia. “Estou passando para me desculpar sobre isso, e dizer que às vezes algo que parece inofensivo – e não é – pode atingir muitas pessoas e pode até matar. Me desculpem! Muito obrigada a quem entendeu e muito obrigada a quem aceita minhas desculpas também”, disse ela, dando a deixa para o vídeo de Alice. “Preparei esse espaço da live pra me desculpar e deixar quem passa por isso todos os dias, que é a trans Alice Felis”, anunciou.

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A modelo, então, recordou de quando sentiu a transfobia na pele. “Hoje completa dois meses que eu fui brutalmente agredida e espancada no meu apartamento, no Rio de Janeiro”, iniciou. “Eu sofri várias agressões, várias escoriações no rosto. Fiquei totalmente debilitada. Por um momento achei que eu viraria estatística, achei que seria mais uma pessoa trans que foi agredida, espancada e chegou à morte. Hoje eu agradeço muito a Deus por estar aqui. Se eu estou aqui é por um motivo: estou servindo de exemplo para muitas pessoas, em relação a ter coragem de denunciar, se pronunciar e buscar ajuda”, declarou Felis.

Em seu depoimento, Alice também abordou a insegurança que sente até hoje, após os ataques sofridos. “Eu ainda sigo em tratamento pra voltar a ter uma vida normal, voltar a ser uma pessoa sem traumas, sem sofrimento, que ainda tá muito difícil – até me emociono em falar disso, porque é uma situação que dói muito no peito, que é muito recente, dois meses que eu tive meu renascimento”, contou ela.

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Assim como corajosamente fez na época – mesmo sob ameaças de morte –, a modelo deixou o ensejo para que as pessoas não se calem quanto ao assunto. “Eu quero encorajar vocês que denunciem, que não se calem e sim, nós temos forças, nós temos apoio de muita gente. Basta nós termos forças pra denunciar e sermos quem somos, nunca ter vergonha de ser quem a gente quer ser, e nunca se esconder. Somos pessoas, somos seres humanos e estamos aqui hoje pra sermos felizes, nos expormos como pessoa, ser humano, e amar ao próximo”, finalizou ela, agradecendo pelo convite.

Alice Felis, que foi brutalmente atacada em agosto, incentivou as denúncias de casos de transfobia. (Foto: Reprodução/YouTube)

Com o fim do VT de Alice, Marília agradeceu pela participação dela em sua live e manifestou seu desejo de que a comunidade trans seja mais respeitada. “Muito obrigada, Alice Felis, por esse depoimento maravilhoso, espero que dê tudo certo na sua recuperação. Espero que, cada vez mais, as pessoas trans sejam bastante respeitadas. E pode ter certeza absoluta que eu aprendi com meu erro e muitas pessoas também aprenderam, quando aconteceu tudo isso”, concluiu a cantora. Confira:

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Relembre o caso:

Marília Mendonça tornou-se o assunto mais comentado do Twitter e recebeu uma série de acusações de transfobia após sua live “Lado B”, na noite de 8 de agosto. Na ocasião, a cantora mencionou uma boate LGBTQIA+ que existia em Goiânia, e contou sobre um integrante de sua banda que teria ficado com uma mulher lá. Enquanto ela falava, no entanto, a própria Marília e seus músicos deram uma série de risadas da história, sugerindo de forma debochada que o rapaz havia se relacionado com uma transsexual.

Marília Mendonça fez um comentário que foi acusado de transfobia durante sua última live. (Foto: Reprodução/Youtube)

O papo surgiu durante um dos intervalos de música da live e o trecho viralizou na noite do dia seguinte. “Acho que eu tô lembrada. É quando um integrante nosso falou que tocava em um lugar?”, questionou Marília na cena em questão. “Exatamente”, respondeu um de seus músicos, fazendo com que ela decidisse contar o que houve.

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“Ó, quem é de Goiânia lembra da boate Diesel”, começou ela, já arrancando risadas dos colegas. “E aí eu não vou falar quem, não, e nem vou falar o porquê, vou só ficar calada. Quem lembra da boate Diesel, lembra da boate Diesel”, apontou, enquanto todos faziam comentários e davam risadas novamente.

“[Ele] disse que lá foi o lugar que ele beijou a mulher mais bonita da vida dele”, completou a cantora. “Vixe Maria”, reagiu um dos integrantes da banda. “Êeee”, disse outro. “Foi com os dois pés, papai”, acrescentou mais um, com todos rindo de novo. “É só isso, gente. Aí o contexto vocês não vão saber, né?”, finalizou Marília. “É pesado“, comentou um dos rapazes. “Era mulher mesmo, porr*“, reforçou outro, sendo recebido com mais longas risadas.

Assista:

Nas redes sociais, o nome da cantora e a hashtag “Marília Transfóbica” passaram toda a madrugada entre os assuntos mais comentados. Entre as reações, diversas pessoas criticaram o comportamento da artista e outras compartilharam experiências próprias de transfobia. Já na segunda-feira, dia 10 de agosto, a cantora voltou às redes sociais e explicou que buscaria aprender sobre o assunto e tentaria se retratar.

“Passei o dia todo refletindo. E depois de refletir tanto, refaço o meu pedido de desculpas”, iniciou Marília, numa série de posts pelo Twitter. “Aproveitei pra aprender mais sobre o assunto. Sobre como ajudar. Tem muita gente do coração bom e explicativo (ainda bem), que mesmo sofrendo com piadas como a minha, me ajuda a evoluir”, comentou a artista.

Marília ainda se comprometeu a buscar ativamente se informar mais sobre a causa trans: “Acho que esse é o caminho. Estarei aprendendo todos os dias e repassando o que aprender”. Ela também antecipou que usaria o espaço de sua próxima live para tratar do assunto. “Me retratarei na próxima live, com a mesma visibilidade que teve a piada sem graça. Conto com vocês, pra me ajudarem a evoluir e me desconstruir todos os dias”, completou.

Apesar das mensagens de apoio que havia recebido, Marília não se eximiu de seu equívoco e agradeceu a todos que a ajudaram a tentar entender a questão. “Muito obrigada a todas as mensagens de carinho, mas isso não apaga meu erro. Somos humanos, mas não é por isso que não devemos buscar sermos melhores a cada dia. O debate é necessário. O linchamento de nada serve. Obrigada a quem teve paciência de explicar”, finalizou. Confira:

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Relembre a história de Alice Felis

A modelo Alice Felis foi vítima de um brutal ataque transfóbico em 16 de agosto, quando teve seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, completamente destruído por um homem, que também a deixou desfigurada após uma série de agressões físicas. Sob ameaças de morte, ela pediu ajuda nas redes sociais para pagar os procedimentos cirúrgicos necessários e todos os prejuízos que teve em seu lar, que era alugado e precisaria ser devolvido.

Nos primeiros stories, Alice contou que teve os dentes, a mandíbula e o nariz quebrados, além de ter sido atingida por uma faca em algumas partes do corpo. “Eu tentei ao máximo para que não fizessem nada comigo, mas ele fez, me bateu, tentou me esfaquear. Eu pedi, por tudo que era mais sagrado, para que ele não me matasse”, desabafou aos prantos. Felis ainda tentou encontrar a faca, mas chegou a conclusão de que o agressor a levou ou a escondeu.

A situação caótica em que o apartamento foi deixado era de cortar o coração. Manchas de sangue nas paredes, no piso, móveis e roupas de Alice Felis dão uma pequena dimensão dos horrores que ela viveu. A modelo, que é natural do Espírito Santo, ainda foi ameaçada pelo homem. “Ele me disse que não era pra eu ficar no Rio, que se ele me encontrasse, iria me matar de verdade”, revelou.

Alice é natural do Espírito Santo e se mudou para o Rio de Janeiro para investir na carreira de modelo. Foto: Reprodução/Instagram

O homem também roubou R$ 3 mil, o único dinheiro que a modelo tinha. “Estou com medo de ficar aqui, mas eu vou para onde? Minha vida estava indo tão bem. Tava tudo direitinho. E olha como eu estou. Eu estou destruída”, falou, completamente tomada pela emoção. Debilitada pela dor de todos os ferimentos e do trauma psicológico, Alice relatou que não conseguia arrumar o apartamento, que precisaria ser devolvido, e pediu ajuda para arcar com suas despesas, incluindo dinheiro para que pudesse se alimentar.

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As agressões foram tão fortes que Felis chegou a desmaiar e só acordou novamente duas horas depois. “Acordei nessa poça de sangue, sem entender, sem saber de nada“, lembrou. A modelo não deu muitos detalhes de como ela conheceu o homem, mas lamentou o episódio inesperado. “É muito triste isso, você abre a porta da sua casa para uma pessoa, achando que é do bem e que do nada ela faz isso daqui com você. Eu estou sangrando e não deveria. O ponto abriu”, constatou ao mostrar seus ferimentos.

[Alerta imagens fortes!] Assista ao desabafo de Alice Felis:

No dia 18, Alice gravou um novo vídeo para o Instagram, agradecendo o carinho e apoio de todos neste momento, informando que havia registrado ocorrência sobre o ataque. “Eu sofri uma tentativa de latrocínio, e agora eu tô indo na delegacia fazer um boletim de ocorrência relacionado a isso, porque eu fui agredida brutalmente pelo fato de transfobia. Quero agradecer a todo mundo que tá se sensibilizando, que tá me ajudando e agradeço de coração todo mundo que está me acompanhando”, disse.

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O caso dela teve uma enorme repercussão nas redes sociais. Felipe Neto, Pabllo Vittar, Kéfera, Preta Gil e mais celebridades se manifestaram e mobilizaram apoio de seus seguidores. Uma vaquinha online também foi criada para ajudar Alice – tendo arrecadado, até hoje, mais de R$ 170 mil. Na época, a própria Marília Mendonça expressou sua revolta com o caso e prometeu ajudar a modelo, como pudesse. “História brutal. Sem escrúpulos nenhum quem tem coragem de atacar um ser humano dessa forma, gratuitamente”, publicou ela.

No final de agosto, o suspeito de agredir Alice Felis, Lucas Britos Marques, foi preso pela polícia. Ele responderá por tentativa de latrocínio – roubo seguido de morte. Segundo o G1, a delegada responsável pelo caso afirmou que, além do interesse no roubo, a transfobia realmente motivou o ataque. “A motivação primeira é patrimonial. Aí a gente percebe, pelo depoimento da vítima, que existia algum tipo de discriminação”, disse ela.