Alpinista voluntário em resgate de Juliana Marins dá detalhes inéditos da operação: “Não sabemos como conseguimos resistir”

Juliana passou quatro dias esperando resgate e não resistiu

O alpinista Agam, que participou de forma voluntária do resgate do corpo da brasileira Juliana Marins no Monte Rinjani, na Indonésia, compartilhou os detalhes da missão, em entrevista à Anna Bustamente, do jornal O Globo. Ele e outros guias locais se ofereceram para ajudar mesmo diante das condições extremas de risco e da precariedade da estrutura oficial de resgate, que durou o total de 15 horas.

“Vi um post no Instagram, e uma grande movimentação por ela. Na hora, liguei para meus amigos montanhistas e falei: ‘Vamos lá?’. E todos concordaram”, contou Agam, que atua como guia no Monte Rinjani.

“Estou machucado, machuquei a perna, e meus colegas alpinistas também se feriram. Ainda nem conseguimos ir para o hospital. Só conseguimos comer agora, uma hora da manhã aqui. Já vi duas pessoas não resistirem em todo esse tempo que trabalho na montanha. Vi que me chamam de anjo no Brasil. Eu agradeço, mas não consegui salvá-la. Vocês me agradecem muito, mas eu que agradeço”, declarou.

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Em uma live no Instagram nesta quarta (25), ele relatou que parte da equipe quase caiu em vários momentos porque as ancoragens se soltavam do solo, provocando queda de pedras e areia. “Só por misericórdia de Deus eles não morreram”, afirmou a tradutora que o acompanhava na transmissão.

“Passamos a noite à beira de um penhasco de 590 metros com Juliana, usando âncoras para não descer mais 300 metros”, pontuou. Durante a live, Agam agradeceu o apoio recebido dos brasileiros e pediu desculpas por não ter conseguido salvar Juliana com vida. “Ele disse que fez o melhor que podia e pediu desculpa por não conseguir trazer a Juliana de volta”, relatou a tradutora. “Ele disse: ‘Na hora que eu desço, eu sei que pode não ter mais volta’. E que se chovesse um pouco mais, morreríamos juntos. Não sabemos como conseguimos resistir, estava muito, muito frio”, completou.

Agam foi um dos primeiros a alcançar o local onde Juliana havia caído (Foto: Reprodução/Instagram)

Agam foi um dos primeiros a alcançar o local onde Juliana havia caído. Como escureceu antes da chegada da equipe, ele decidiu passar a noite no local, garantindo que o corpo não se deslocasse ainda mais. No início da operação, afirmou que só deixaria o local quando Juliana também fosse retirada.

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A família da vítima fez uma postagem de agradecimento aos voluntários que ajudaram a resgatar o corpo da brasileira. No Instagram, nesta quarta-feira (25), os familiares também mencionaram o auxílio de outras pessoas que viabilizaram o resgate.

“Somos profundamente gratos aos voluntários que, com coragem, se dispuseram a colaborar para que o processo de resgate de Juliana fosse agilizado. Estendemos nossa gratidão não apenas a eles, mas também a todos que de alguma forma contribuíram para viabilizar esse processo”, declararam.

A publicação feita pela família de Juliana em agradecimento aos voluntários. (Foto: Reprodução/ Instagram)

O gesto comoveu internautas, que passaram a chamá-lo de herói e sugeriram uma campanha de doações para apoiá-lo. Agam inicialmente se recusou a divulgar dados bancários, dizendo que atuava por coração. Depois, aceitou repassar uma conta, informando que dividirá os valores com os demais colegas e também usará parte do dinheiro para reflorestar áreas montanhosas na Indonésia.

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Relembre o caso

Natural de Niterói (RJ), Juliana Marins era formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ e apaixonada por arte e viagens. Desde fevereiro, ela realizava um mochilão pela Ásia, tendo passado por Filipinas, Vietnã e Tailândia antes de seguir para a Indonésia, onde sua jornada teve um desfecho trágico.

Juliana adquiriu um pacote de escalada até o cume do Monte Rinjani por 2 milhões de rupias indonésias — o equivalente a cerca de R$ 667 na cotação atual. Ela escolheu a trilha de três dias, considerada uma das menos intensas. O valor incluía alimentação e bebidas.

Juliana Marins desapareceu na sexta-feira (20), durante trilha na Indonésia. (Foto: Reprodução/Instagram)

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A jovem desapareceu na última sexta-feira (20), após cair em uma fenda no Monte Rinjani. As buscas duraram quatro dias e foram marcadas por desafios. As equipes de resgate enfrentaram dificuldades para acessar o local, lidaram com condições climáticas adversas, falhas nos equipamentos, como o uso de uma corda curta, e se atrapalharam ao fornecer informações inexatas à família.

O corpo de Juliana foi localizado já sem vida na terça-feira (24), após dias de esforços intensos por parte das equipes de resgate. A operação de retirada contou com o apoio de três grupos de salvamento, incluindo integrantes do esquadrão Rinjani, além de voluntários que auxiliaram nos trabalhos.

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