Estudante brasileira que foi detida nos EUA detalha condições precárias em centro de detenção de imigrantes: “Dias mais difíceis da minha vida”

Caroline Dias Gonçalves foi solta sob fiança no dia 20 de junho

Caroline Dias Gonçalves, estudante brasileira de 19 anos que passou 16 dias presa em um centro de detenção de imigrantes nos Estados Unidos, falou pela primeira vez sobre o caso desde sua liberação. Em nota divulgada por meio da organização TheDream.US, responsável por sua bolsa de estudos de enfermagem na Universidade de Utah, Caroline detalhou as condições do local onde ficou detida e criticou a forma como foi tratada. Ela foi liberada no dia 20 de junho.

Os últimos 15 dias foram os mais difíceis da minha vida. Eu estava com medo e me senti sozinha. Fui colocada em um sistema que me tratou como se eu não importasse. Na detenção, recebíamos comida encharcada e úmida – até o pão vinha molhado“, escreveu.

Abordagem e detenção

Caroline foi presa no dia 5 de junho por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), enquanto dirigia de Utah ao Colorado para visitar amigos. Pouco antes, ela havia sido parada por um policial, Alexander Zwinck, que alegou que ela estava dirigindo muito próxima de um caminhão. Embora a tenha liberado, Zwinck compartilhou informações sobre Caroline em um grupo de mensagens usado por autoridades para combate ao tráfico de drogas. Segundo a BBC News Brasil, ela foi abordada minutos depois por um agente do ICE e levada à custódia

Segundo o Gabinete do Xerife do Condado de Mesa, as informações não deveriam ter sido usadas para questões imigratórias. O departamento afirmou ter removido seus membros do grupo e anunciou que o policial foi colocado em licença administrativa enquanto a conduta é investigada.

Estudante passou 16 dias presa. (Foto: YouTube/Gabinete do Xerife do Condado de Mesa)

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Relato sobre as condições no centro

Em sua nota, Caroline afirmou ter presenciado tratamento desigual no centro de detenção em Aurora, no Colorado: “De repente, fui tratado melhor do que outros que não falavam inglês. Isso partiu meu coração. Porque ninguém merece ser tratado assim. Não em um país que chamo de lar desde os 7 anos de idade e é tudo o que já conheci“.

A família da estudante entrou com um visto de turista e, anos depois, solicitou asilo, o pedido ainda está em análise. O ICE, por sua vez, afirmou que Caroline estava no país ilegalmente desde o vencimento do visto e confirmou a prisão.

Em resposta à BBC News, a secretária adjunta de Assuntos Públicos, Tricia McLaughlin, classificou as declarações como “categoricamente falsas” e afirmou que o tratamento diferenciado com base no idioma não acontece. “Esse tipo de ataque tem como objetivo demonizar e vilanizar nossos corajosos agentes do ICE. Esse tipo de lixo resultou em um aumento de mais de 500% nos ataques contra agentes da lei“, declarou a secretária.

O advogado de Caroline, Jonathan M. Hyman, criticou a resposta do governo: “A linguagem usada pela secretária adjunta é puramente política e retórica vazia. Ninguém apoia agressões contra agentes da lei. Embora as alegações sobre o aumento desses ataques devam ser verificadas, encorajo a secretária adjunta e seu departamento a serem honestos e transparentes“.

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Detenção e liberação

Em sua declaração, Caroline mencionou que o agente responsável pela sua prisão pediu desculpas e disse que estava de “mão atadas”. “Não havia nada que ele pudesse fazer, mesmo sabendo que não estava certo. Eu quero que você saiba – eu te perdoo. Porque acredito que as pessoas podem fazer escolhas melhores quando têm permissão“, disse.

Ela também fez referência aos outros detentos no centro de Aurora. “Mais de 1.300 pessoas ainda estão no mesmo pesadelo naquele centro de detenção de Aurora. Eles são como eu – incluindo outras pessoas que cresceram aqui, que amam este país, que não querem nada mais do que uma chance de pertencer“, escreveu Caroline.

Por fim, a estudante fez um pedido por oportunidade: “Vou tentar seguir em frente agora – para me concentrar no trabalho, na escola e na cura. Mas não vou esquecer isso. E espero que outros também não. Imigrantes como eu – não estamos pedindo nada de especial. Apenas uma chance justa de ajustar nosso status, nos sentirmos seguros e continuar construindo as vidas pelas quais trabalhamos tanto no país que chamamos de lar. Obrigado por estar comigo. Do fundo do meu coração“.

Assista o momento em que a estudante é abordada:

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