Uma freira brasileira entrou na Justiça italiana por difamação e calúnia após ter sido afastada do comando de mosteiros. Uma carta anônima foi enviada ao falecido papa Francisco, em 2023, acusando a irmã Aline de maus-tratos, desvio de recursos e de manipular as outras religiosas.
Ela foi nomeada abadessa, em 2018, aos 34 anos, tornando-se responsável por quatro mosteiros em diferentes regiões da Itália. No entanto, segundo Aline, a conquista não foi bem recebida pelo abade geral, Mauro Giuseppe Lépori.
“Desde sempre, a questão de ser jovem, de ser bonita, tudo isso já pesava. E só foi somando. [Diziam]: ‘A tua beleza não ajuda, não é boa’. Era um contexto mais para ridicularizar”, contou ao “Fantástico” deste domingo (29).
Aline explicou, ainda, que a carta foi escrita pela freira responsável pelas noviças no mosteiro de Vittorio Veneto junto com outras três irmãs. Além disso, ela afirmou ter prints para comprovar que a respectiva freira acessava sites de pornografia no computador coletivo e no celular da comunidade.

Conforme a irmã, o abade geral também não gostou de iniciativas que ela tomou no local. Uma delas foi vender a uva do mosteiro para a produção de um espumante italiano, o prosecco. A atitude, porém, gerou surpresa, uma vez que monastérios produzem e vendem bebidas alcóolicas ao redor do mundo.
“Tudo o que fizemos foi para buscar a autonomia do mosteiro”, declarou Aline. A denúncia desencadeou uma série de investigações e visitas ao mosteiro de Vittorio Veneto, onde ela vivia com outras 18 monjas em clausura. Diante das acusações, uma perícia ordenada pelo próprio abade geral foi realizada, nas não encontrou nenhuma irregularidade.
“O perito deu os parabéns pela transparência das contas dos nossos mosteiros”, recordou a brasileira. Religiosas próximas à ex-abadessa chegaram a contestar as acusações. “Para mim, Madre Aline é uma mãe da igreja, é equilibrada, não é manipuladora”, pontuou Gabriela.
“Como é possível que o Vaticano tenha considerado uma carta anônima, sem assinatura, sem documento, sem comprovação? Não tem credibilidade, é uma calúnia”, indignou-se outra, que não foi identificada.
Assédio
À reportagem, Aline relatou ter sido assediada por Mauro Giuseppe Lépori. “A gente pode dizer que sim. Mas entrar nesse campo… Eu prefiro deixar para as autoridades nos tribunais”, salientou a irmã. Até o momento, o abade geral não se pronunciou.
Já a advogada da brasileira, Esraíta Delaias, destacou a falta de evidências. “Tem que ter uma decisão que comprove esses fundamentos com base em fatos, documentos e testemunhas. E isso não tem”, observou.

Respaldo do Vaticano
Durante mais de dois anos, desde o envio da carta, o monastério recebeu oito visitas de madres fiscalizadoras que vinham de Roma. A primeira delas, irmã Ester, documentou que “as acusações feitas contra a Madre Abadessa são infundadas”.
Aline também destacou o quão vulnerável ela e as outras freiras ficaram. A intervenção só ocorreu no dia da morte do papa Francisco, em abril deste ano. Além disso, as religiosas não puderam recorrer em primeira instância, porque a instituição responsável não tinha mais um chefe.
“Tentar tirar o nosso poder de defesa foi uma questão muito importante pra mim”, lamentou. Conforme a brasileira, a madre fiscalizadora escreveu apenas um decreto a respeito de sua transferência para outra casa religiosa, mas sem identificá-la. A legitimidade das decisões está sendo questionada pelas irmãs no Tribunal Eclesiástico.
Desligamento de Aline
Oito dias após a morte de Francisco, a irmã Aline deixou o mosteiro de Vittorio Veneto. No dia seguinte, cinco freiras fugiram da clausura para acompanhá-la. “Nós nos sentimos tratadas como se fôssemos mafiosas, vigiadas como num campo de concentração”, desabafou uma irmã.
O grupo recebeu apoio de pessoas da região, que lhe ofereceram gratuitamente um casarão do início do século XIX. “Eu acredito que seguir a verdade, lutar pela verdade é algo cristão. E eu pretendo ir adiante até provar que essas acusações não são verdadeiras”, concluiu a brasileira.
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