Um caso que aconteceu na Filadélfia, Estados Unidos, há 28 anos, teve uma reviravolta inesperada. A casa de Luz Cuevas e Pedro Vera foi tomada por um incêndio na noite de 15 de dezembro de 1997, com seus dois filhos pequenos e uma bebê de dez dias. Delimar, como foi identificada, dormia em um quarto no andar de cima que foi tomado pela chamas.
À época, as autoridades reportaram que a recém-nascida não havia sobrevivido ao acidente. No entanto, seis anos depois, a mãe se deparou com a foto de uma menina em uma festa de aniversário, com as mesmas covinhas de sua bebê. Ela, então, acabou descobrindo que a garota era sua filha, que fora raptada.
O episódio teve grande repercussão nos anos 2000, mas só foi exposto em detalhes nesta terça-feira (22), no podcast “Que História”, da BBC News Brasil.
O incêndio
Conforme os bombeiros, o incêndio teria sido causado por uma fiação defeituosa. Nenhum vestígio da bebê foi encontrado e, por esta razão, ela foi dada como morta. Como apontaram os relatórios do médico legista, Delimar foi “completamente consumida pelo fogo”. Os pais, naturalmente, ficaram arrasados.
No entanto, o que eles não imaginavam é que sua filha estava viva, sendo criada a apenas 20 quilômetros de distância, do outro lado da cidade. Ela ganhou um novo nome, Aaliyah, e morava com Carolyn Correa, a mulher que ela acreditava ser sua mãe, e três irmãos mais velhos.

Ela levava uma vida normal, como a menina caçula de uma família. “Tinha minha mãe, meus irmãos, ia para a escola. Também ia para uma escola de modelos infantis, o que foi muito legal. Carolyn me levava para audições de comerciais, concursos e sessões de fotos. Em um primeiro momento eu gostava disso, adorava estar sob holofotes e era uma criança muito extrovertida. Aos domingos fazíamos um pequeno show, eu me apresentava e dançava”, recordou Delimar ao programa Outlook, da BBC.
“Eu era a irmã menor, pentelha, com certeza. Eu passava muito tempo com Angelica, minha irmã mais velha. Fazíamos tudo juntas. Onde quer que ela fosse, eu tinha que ir. Ela adorava dançar. A gente dançava juntas”, acrescentou. Em seguida, Delimar deu detalhes de sua infância.
“E eu amava Carolyn, minha mãe. Era uma pessoa extrovertida, engraçada, bem carismática. Mas ela trabalhava à noite. Eu lembro de que via ela pouco durante dia, e ficava perguntando: ‘Onde está minha mãe?’. Então eu fui criada principalmente por meus irmãos e também por minha tia e meu tio”, explicou.
Contudo, algumas situações diferentes passaram a acontecer. A primeira delas foi em janeiro de 2004, em uma festa de aniversário, pouco depois dela completar 6 anos. “Chegamos à festa, ficamos na parte de baixo da casa por um tempo. E aí eu vi uma mulher que me deixou intrigada. Eu meio que gravitei em torno dela e pensava: ‘Como ela é bonita’. Não sei por que fiquei tão intrigada com ela”, admitiu.
“Depois subi as escadas para brincar com outras crianças, e essa mulher me abordou no corredor dizendo que eu tinha um chiclete no cabelo. E pedi para ela tirar o chiclete. Aí ela acabou arrancando vários cabelos, até doeu. Depois, a mulher desapareceu. Quando desci as escadas, Carolyn imediatamente me pegou e disse: ‘Vamos embora, já!’. Mas eu disse: ‘Por quê? Chegamos há pouco’. Aí ela disse: ‘Temos que ir, tem uma mulher má que quer tirar você de mim’. E eu fiquei assustada, mas não achei que isso realmente pudesse acontecer”, relatou.
Teste de DNA
Algum tempo depois, Delimar foi levada a um centro médico por Carolyn, e estava acompanhada de Angelica. O que ela não sabia, é que Carolyn tinha sido intimada a levá-la para colher saliva como parte de um teste de DNA. “A gente estava nesse prédio, na sala de espera. E Carolyn ficava me levando pro banheiro. Ela dizia: ‘Angélica, vigie a porta!’. E no banheiro, ela tirava da bolsa um pequeno frasco de spray com um líquido transparente dentro dele. Ela borrifava esse líquido na minha boca e dizia: ‘Não engula’. E às vezes, engolia sem querer. Fizemos isso várias vezes. Voltávamos ao banheiro e ela borrifava o spray na minha boca”, detalhou.
O resultado do teste de DNA mudou a rota da vida de Delimar e, de um dia pra o outro, ela foi levada da casa de sua família. “Quando me levaram de casa eu chorava porque não sabia o motivo. Mas vendo na TV os noticiários, eu comecei a entender que Carolyn tinha feito uma coisa ruim. Que ela tinha mentido pra mim todo esse tempo”, afirmou.
A polícia acredita que o incêndio foi iniciado deliberadamente para mascarar o sequestro de Delimar. Carolyn foi presa e não contestou o veredito ao ser considerada culpada. Sem negar ou admitir o crime, ela foi condenada a uma pena mínima de 9 anos de prisão. Uma semana depois de ser retirada da casa de Carolyn, Delimar foi levada a uma grande sala, para o primeiro encontro individual com sua mãe biológica.
“Quando minha mãe entrou, eu estava escondida embaixo da mesa. Nos abraçamos e ela estava chorando. Eu perguntei: ‘Por que você está chorando? Você não está feliz em me ver?’. E ela respondeu: ‘Não é isso, são lágrimas de alegria'”, recordou. Não demorou, então, para ela ir para a casa de sua família.
“Eu recebia muita atenção. E eu não estava muito acostumada a receber afeto do jeito que recebia agora, da minha mãe. E os meus verdadeiros irmãos tinham idades mais próximas à minha, o que achei ótimo. E eu sentia uma tristeza por minha mãe ter sofrido tanto. Ela me perdeu por tanto tempo. Eu fiquei com essa coisa na cabeça de querer provar para ela que eu era a filha perfeita, a filha de quem ela sentiu tanta falta todo esse tempo. Acho que isso despertou o meu lado de atriz mirim, comecei e interpretar essa filha perfeita”, confessou.

Porém, Delimar confessou que o período de adaptação não foi tão fácil. “Foi estranho, no começo. Porque, mesmo com todo afeto, todo o amor que eu recebia, eu continuava me sentindo como se fosse uma estranha ali. Eu ansiava por afeto e aceitação. Mas eu ainda sentia um pouco a falta da primeira família. Achava que um parte de mim tinha ficado com eles”, ponderou.
“Acho que na maioria das famílias, o estágio da infância e os primeiros anos de vida são repletos daqueles momentos de criar laços. Quando uma mãe segura um filho, e olha nos olhinhos dele. Esse é um dos momentos de criar esse vínculo, essa conexão super forte. Minha mãe e eu não tivemos isso. Ele perdeu várias coisas importantes da minha vida. Então, essa falta de vínculos no começo da minha vida definitivamente criou uma barreira entre nós”, lamentou ela.
Algumas insatisfações começaram a aparecer quando Delimar alcançou a puberdade. “Quando eu tinha cerca de 12 anos, quando os hormônios começam a bater, eu comecei a pensar mais sobre isso, essa dificuldade. Eu me lembro de pesquisar e ler esse artigo sobre mim. Era um psiquiatra falando sobre meu caso, e ele dizia: ‘Ela está tão feliz agora que é criança, mas não me surpreenderia nem um pouco se um dia, de repente, começar a passar por um tempo bem difícil’. E era exatamente isso que estava acontecendo comigo”, reconheceu.
“Então, eu estava com 12 anos e a relação entre minha mãe e eu estava bem complicada. Um dia fugi de casa e me escondi na casa de uma amiga. Foi só por uma noite. A mãe dela nos encontrou no dia seguinte. Fiquei de castigo por um tempão, no meu quarto. Não conseguia assistir TV, não conseguia fazer nada. Eu estava com muita raiva, achava tudo péssimo na minha vida. Fiquei muito, muito deprimida. E um dia foi como se eu tivesse me dado conta, pela primeira vez, de que: ‘Meu Deus, eu fui raptada!'”, disse.
O relacionamento entre as duas só foi melhorar anos depois: “Foi só quando eu tinha 18 ou 19 anos que eu reapareci e visitei minha mãe com um ex-namorado meu. E ela me disse que não tinha gostado dele. Eu disse: ‘Tudo bem, mas eu gostei’. Mas aí eu me toquei que também não gostava dele e terminei o relacionamento”.
O que realmente aconteceu?
Ao chegar na fase adulta, Delimar sentiu ainda mais o impacto de ter sido criada longe de sua família biológica. Ela, então, passou a querer preencher as lacunas de sua vida e a questionar o que realmente aconteceu no dia do incêndio. “Minha mãe me disse que era como qualquer outro dia normal. Que bateram na porta. Ela foi abrir e Carolyn estava ali, parada. A mãe de Carolyn era casada com o tio do meu pai, Raymond. Então ela era prima, por casamento, do meu pai. Ela entrou e disse que tinha um trabalho para Pedro, meu pai”, narrou.
“Meu pai, na época, estava meio que entre empregos, e aceitou. Então, Carolyn e meu pai saíram juntos. Mas em determinado momento, no caminho para a casa dela, ela disse que esqueceu a bolsa dela na nossa casa. Então meu pai disse: ‘Me deixe na rua na casa do meu primo, aí você vai para minha casa e depois me pega aqui’. Carolyn então voltou para a casa da minha mãe e disse: ‘Ah, meu Deus, eu esqueci minha bolsa aqui’. E pede pra usar o banheiro. Então minha mãe disse: ‘Claro, suba as escadas, use o banheiro'”, detalhou.
“Um tempo depois, ela desceu, elas se despediram e Carolyn foi embora. Posteriormente, minha mãe disse que ouviu um barulho bem alto, e subiu as escadas. Quando ela chegou lá em cima, meu quarto estava envolto em chamas. Minha mãe me procurou, e por causa da fumaça e do calor, não conseguiu me ver. Ela tentou atravessar o fogo, queimou a testa, mas foi obrigada a sair do quarto pra não morrer”, continuou Delimar.
Ela também falou o que aconteceu após a chegada do socorro. “Os bombeiros e a polícia foram chamados e ela ficou gritando com eles, dizendo que não tinha me encontrado no quarto: ‘Onde está minha filha?. Me ajudem!’. E eles pegaram pedaços do colchão queimado, enrolaram e deram pra minha mãe, como se fossem meus restos mortais. Mas minha mãe estava convencida de que eu não estava no berço na hora do incêndio. A essa altura, meu pai tinha voltado e ficou desesperado, tipo: ‘Meu Deus, cadê minha filha?’. Agora sabemos que alguém me tirou do berço, me levou pela janela e sumiu noite adentro”, observou.

Equipes de TV cobriram o incêndio, e nas imagens das pessoas ao lado de fora da casa é possível ver o pai de Delimar. Junto a Pedro estava justamente a pessoa que esteve na residência pouco antes do incêndio: Carolyn. “Eu acho que isso foi bem inteligente da parte dela, ela estava ali, consolando o primo dela, fazia todo sentido. Se ela tivesse sumido naquele momento, poderiam suspeitar de que ela tivesse pegado o bebê. Mas como ela estava ali, ninguém suspeitaria dela”, opinou a moça.
Gravidez falsa
Enquanto Luz e Pedro sofriam pela falsa perda de sua bebê, Carolyn ficou grávida de repente. “Carolyn tinha fingido sua gravidez. Durante meses, ela disse às pessoas que estava grávida. Quando o bebê apareceu, algumas pessoas até estranharam, mas acabaram acreditando. Ela disse às autoridades que deu à luz em casa e que uma amiga a ajudou. E ela arrumou todos os meus documentos. Eu tinha certidão de nascimento e cartão de previdência social”, afirmou Delimar.
Luz, por sua vez, nunca acreditou ter perdido a própria filha no incêndio, e foi chamada até de “maluca” após sua recusa à versão oficial da história. Portanto, ao ver Delimar na festa de aniversário, não teve dúvidas de que a menina estava viva.
“Assim que ela chegou e me viu — e notou minhas covinhas —, disse: ‘Tatita, essa é minha filha!’. E minha tia toda preocupada: ‘Não vá fazer besteira!’. Ela viu minha mãe me seguindo, e depois voltando e dizendo: ‘Olha o que eu peguei, um tufo do cabelo dela’. E minha tia olhou para ela como se fosse uma psicopata: ‘Você arrancou o cabelo de uma criança? Você sabe o que está fazendo?'”, detalhou.
Confira o episódio completo:
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