Testemunha revela problema de agência da trilha de Juliana Marins e decisão tomada pelo parque

Segundo o especialista, a Bas Rinjani está na “lista proibida” de operadoras não autorizadas

A agência responsável por organizar a trilha que terminou na morte da brasileira Juliana Marins, de 26 anos, no Monte Rinjani, constava como banida pelo próprio Parque Nacional onde o passeio foi feito. Juliana foi encontrada morta após dias de tentativas frustradas de resgate.

Segundo informações do aplicativo oficial do parque, a empresa Bas Rinjani, que coordenou a subida da publicitária, está na chamada “lista proibida” de operadoras não autorizadas a atuar no local. Um organizador de turismo da região, que preferiu não se identificar, demonstrou angústia com o fato de a agência continuar oferecendo serviços. “É isso que nos preocupa“, disse ao UOL.

A jovem adquiriu o pacote por meio da Ryant Tour, uma intermediária que confirmou ter feito a venda. A empresa explicou que atua na comercialização de pacotes de escalada, mas que a operação efetiva, como fornecimento de equipamentos, escolha dos guias e licenciamento, fica sob responsabilidade de operadoras locais. A própria Ryant Tour se identifica como parceira da Bas.

Acidente com Juliana aconteceu na sexta-feira (20), e ela só foi encontrada nesta terça (24) (Foto: Reprodução/Instagram)

O organizador explicou que a Bas deveria ser encarregada de toda a logística da trilha, além de fornecer guias certificados e cuidar das permissões exigidas. Ainda de acordo com ele, a empresa é “comprovadamente problemática”.

“Como é possível que ainda tenha permissão de levar pessoas a um local mesmo sendo incluída em uma lista de banidos? Se nenhuma ação for tomada, um incidente como este poderá se repetir. E, da próxima vez, as vítimas poderão ser nossos próprios amigos ou familiares”, alertou.

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Ele também afirmou que a inclusão na “lista proibida” se dá quando o parque considera que uma empresa não atende aos critérios mínimos de segurança, legalidade e ética profissional. Essa exclusão pode ser temporária ou definitiva, e continuar operando em tais condições pode gerar sanções legais. Além da Bas, outras 26 operadoras também aparecem na lista de banidas.

Juliana Marins com o pai, a mãe e a irmã, durante viagem em família. (Foto: Reprodução/Instagram)

“Não entendemos como a Bas Rinjani consegue operar novamente, especialmente porque, até onde sabemos, a licença da empresa já foi colocada na ‘lista proibida’ anteriormente. Isso é bastante confuso, e esperamos que as autoridades possam fornecer uma explicação clara e transparente”, completou.

Para testar a atuação da empresa, a reportagem do UOL tentou simular o agendamento de uma nova escalada. Ao ser questionada sobre o nível de dificuldade da trilha para iniciantes, a Bas respondeu apenas: “Você vai ver, quando escalar”. Ao ser questionada sobre presença do nome da agência na “lista proibida”, a empresa confirmou a informação e, em seguida, encerrou a conversa.

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Morte de Juliana ocorreu pouco antes do resgate

O corpo de Juliana foi localizado após sete horas de trabalho de equipes de resgate e voluntários. Segundo a autópsia, a brasileira morreu entre 50 minutos e 12h50 antes de ser resgatada. A retirada começou por volta das 13h50 do dia 25 de junho (2h da madrugada no horário de Brasília). O corpo foi içado em uma maca até uma base do parque.

A jovem era apaixonada por viagens. (Foto: Reprodução/Instagram)

A morte foi confirmada quatro dias após o início das tentativas de resgate. “Com imensa tristeza, informamos que ela não resistiu”, disse a família em comunicado. Horas antes, o Ministério do Turismo da Indonésia havia divulgado que Juliana estava em “estado terminal”, de acordo com os relatos das equipes de busca.

O médico legista Ida Bagus Putu Alit, do hospital Bali Mandar, contradisse a versão oficial da Agência Nacional de Resgate (Basarnas), que havia afirmado que Juliana morreu na noite do dia 24. “De acordo com meus cálculos, a vítima morreu na quarta-feira, 25 de junho, entre 1h e 13h”, disse ele à BBC News.

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Apesar do frio extremo no local, próximo a 0 ºC durante a noite, o legista afirmou que não havia “sinais clássicos” de hipotermia no corpo. A ausência de necrose nas extremidades permitiu concluir que o frio não foi a causa da morte. Juliana usava apenas calça e blusa no momento da queda, sem equipamentos adequados.

A autópsia apontou que a jovem morreu por um “trauma torácico grave” após cair pela segunda vez. O impacto provocou fraturas que comprometeram os órgãos respiratórios. Além disso, Juliana apresentava hemorragia interna, ferimentos na cabeça, fraturas na coluna, nas coxas e escoriações nas costas e membros.

Segundo as autoridades, a trilha era de difícil acesso. (Foto: Reprodução/Instagram)

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A queda

Juliana caiu durante a caminhada na noite de sexta-feira (20), no horário de Brasília. Ela escorregou na trilha do vulcão e despencou cerca de 300 metros montanha abaixo, o que a deixou debilitada e sem conseguir se mover.

A família acompanhou a situação à distância, recebendo fotos e vídeos de outros turistas que estavam no local. Segundo a irmã da vítima, a situação ficou ainda mais grave com a chegada de forte neblina e umidade, o que fez com que Juliana escorregasse novamente: “Seria um absurdo se ela morresse por falta de socorro”.

De acordo com a Basarnas, a comunicação com as autoridades demorou cerca de oito horas após Juliana ser avistada, devido à dificuldade de acesso à trilha. As tentativas de resgate começaram no primeiro dia, com o uso de cordas e macas, mas não obtiveram sucesso imediato.

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