Comentarista da CNN Brasil é acusado de homofobia ao falar de doações de sangue por homens gays: “Desrespeitoso, burro, preconceituoso” — assista

Durante o “Live CNN” desta quarta-feira (08), o comentarista Leandro Narloch foi convidado a falar sobre a liberação do STF para que homens homossexuais pudessem doar sangue. No entanto, suas falas foram consideradas homofóbicas e duramente criticadas nas redes sociais, pelo tom antiquado de seu discurso.

Ao vivo na CNN Brasil, Narloch afirmou que “a mudança na verdade é pequena”. “Ela vai restringir mais a conduta, e não o tipo de pessoa, a opção sexual (sic) do indivíduo”, afirmou. O comentarista ainda disse “não haver dúvidas” que homens homossexuais teriam mais risco de infecção pelo HIV. “Toda essa polêmica começou porque, não há dúvida disso, os gays, os homens gays, eles têm uma chance muito maior de ter Aids, né? Em 2018, uma pesquisa mostrou que 25% dos gays de São Paulo eram portadores de HIV”, continuou ele.

Phelipe Siani e Marcela Rahal ficaram sem reação ao ouvir o comentário de Leandro Narloch. (Foto: Reprodução/CNN Brasil)

“Mesmo que esse número seja exagerado, e de fato ele parece mesmo exagerado, o fato é que é dezenas de vezes maior, maior a chance do que na população geral. A questão é que outros critérios para exclusão já restringem os gays que têm comportamento promíscuo, né? A regra como estava agora, ela estava muito injusta com os gays, por exemplo, que se cuidavam, que faziam sexo protegido ou então que tinham um parceiro só durante toda a vida”, acrescentou.

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Após ter citado a equivocada expressão “opção sexual”, não ter interpretado nem citado a fonte dos seus dados, e ter endossado restrições a “gays com comportamento promíscuo”, Narloch concluiu: “Se você simplesmente fizer uma regra, como já existem em vários hemocentros, que exclui as pessoas que têm muitos parceiros sexuais, ou sexo sem camisinha, você já retira todo o problema. Então aí é uma pequena mudança e, sim, muito boa”.

De volta ao estúdio, os apresentadores Phelipe Siani e Marcela Rahal ficaram sem reação às falas. Até que o âncora prosseguiu com o telejornal: “Bom, é… A gente acabou de falar sobre essa mudança de protocolo. 2020 e só agora a gente teve retirado de fato esse impedimento de homossexuais fazendo doação de sangue”, disse ele. Assista ao vídeo aqui:

As estatísticas citadas por Leandro Narloch foram divulgadas pelo Ministério da Saúde em 2018, num artigo publicado pela revista científica internacional Medicine, após uma pesquisa realizada em 12 cidades brasileiras. Entretanto, não houve uma interpretação dos dados, nem uma análise de que é a falta de prevenção o que pode acarretar uma infecção pelo HIV – e não as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo.

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O comentário causou muita revolta pelas redes sociais, com diversos perfis reclamando dos equívocos cometidos por Narloch, e da maneira com a qual tratou o assunto em rede nacional. “Esse comentário foi desrespeitoso e burro”, avaliou o jornalista Renan Brites Peixoto, complementado pelo repórter Gabriel Vaquer: “Tem tanto adjetivo. Desrespeitoso, burro, preconceituoso….”.

Outro perfil fez questão listar alguns dos deslizes: “Não sabe a diferença entre HIV e Aids. Não sabe que existem casas de suingue onde heteros também têm comportamento promíscuo, não sabe que promiscuidade de acordo com a OMS é ter mais de dois parceiros por ano… Não sabe que um simples teste de HIV e DSTs, além de outras doenças como hepatite, já garante a segurança para doar sangue, não sabe que mulheres casadas com maridos ignorantes como ele correm mais risco de contrair HIV”.

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Confira mais algumas das reações:

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Desde os anos 1980, com a explosão da epidemia do HIV, existe um estigma sobre a comunidade LGBTQI+ e as doações de sangue. Isso fez com que, décadas atrás, a legislação proibisse homens gays de praticarem as doações – a menos que não tivessem relações sexuais no período de um ano. Não importa se usassem camisinha ou não, sua vida sexual já seria considerada como “de risco” – ao contrário do que acontecia com pessoas heterossexuais.

No entanto, é equivocado acreditar que a orientação sexual seja um fator de risco para ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). Ao invés disso, a prática de relações sexuais sem preservativos, sim, deve ser considerada como um risco – o que não tem qualquer ligação com gênero, muito menos se a pessoa é LGBTQI+ ou não).

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Atualmente, todas as amostras de sangue são testadas não só para o HIV, como também para uma série de doenças. Além disso, antes da doação, o doador é questionado se fez algum comportamento de risco – em alguns dos casos, se a resposta for positiva, este sangue pode ser descartado. Logo, as antigas restrições realmente não faziam sentido em pleno 2020.

A liberação da doação de sangue por homens gays certamente trará um impacto positivo nos bancos de sangue. (Foto: LuAnn Hunt on Unsplash)

De acordo com os dados do IBGE, do total de mais de 100 milhões de homens no Brasil, 10,5 milhões se declarava como homossexual ou bissexual. É válido ressaltar também que, no período de um ano, um homem pode doar sangue até quatro vezes… Fazendo a matemática, o resultado é claro: agora, milhões de litros de sangue podem ser doados anualmente.

Mesmo que a mudança seja “pequena”, como Narloch pontuou, é óbvio o quão positiva ela será para os bancos de sangue do país.