Dezenas de ex-funcionários do “The Ellen DeGeneres Show” revelam assédios e abusos sexuais nos bastidores do programa em relatos chocantes

As acusações contra o “The Ellen DeGeneres Show” não param! Duas semanas após o “Buzzfeed News” publicar relatos chocantes de funcionários do programa sobre racismo, intolerância e toxicidade no ambiente de trabalho, uma nova reportagem do site trouxe à tona depoimentos de assédio e má conduta sexual praticados por produtores executivos com grande renome na empresa.

A publicação conversou com 36 ex-funcionários, muitos dos quais confirmaram, separadamente, episódios de assédio, abuso, e má conduta dos executivos. A maior parte das vítimas deixou o programa voluntariamente, mas pediu para se manter anônimo com medo da represália que poderia sofrer do premiado talk-show e de outros na indústria do entretenimento.

Receber um convite para trabalhar na sala de controle no “The Ellen DeGeneres Show” é algo cobiçado em Hollywood, mas de acordo com as dezenas de homens e mulheres que trabalharam nos bastidores, o escritório é o local onde o assédio pelos chefes rola solto.

Kevin Leman, roteirista chefe e produtor executivo

Um ex-funcionário disse que o roteirista chefe e produtor executivo Kevin Leman pediu uma vez se ele poderia masturbá-lo ou fazer sexo oral nele no banheiro de uma festa da firma em 2013. Outro alegou que viu o homem agarrar o pênis de um assistente de produção uma vez. Em maio de 2017, uma pessoa da equipe disse que viu Leman apalpar outro assistente de produção em um carro e beijar o pescoço dele.

Quase 12 dos entrevistados, que variam de funcionários com nível sênior de longa data, a assistentes de produção, disseram que era comum para Kevin fazer comentários sexuais explícitos no escritório, como apontar para as protuberâncias dos colegas masculinos ou fazer perguntas como: ‘Você é ativo ou passivo?‘.

“É mascarado como sarcasmo, mas não é sarcasmo”, destacou um ex-membro da equipe. Muitos dos alvos, segundo eles, são funcionários jovens, de cargos mais baixos, que se sentiam sem poder para rebater. “Ele provavelmente fazia isso na frente de 10 pessoas e elas riam porque ‘era apenas o Kevin sendo o Kevin’, mas se você está em uma posição de poder em uma empresa, você não pode me tocar desse jeito”, completou outro.

Procurado, Leman negou categoricamente qualquer tipo de assédio ou abuso sexual. “Eu comecei no The Ellen Show como um assistente de produção há mais de 17 anos e dediquei minha carreira para alcançar a posição que eu tenho agora. Enquanto minha posição como roteirista chefe é criar piadas – e, durante esse processo, nós podemos ocasionalmente empurrar a barra – eu estou horrorizado que algumas das minhas tentativas de humor possam ter ofendido”, declarou ele ao Buzzfeed.

“Eu sempre visei tratar todos da equipe com gentileza, inclusão e respeito. Durante todo o meu tempo no programa, que eu saiba, eu nunca tive uma única reclamação no RH ou feita pessoalmente para mim, e eu estou devastado além do que posso acreditar que esse tipo de artigo malicioso e enganoso possa ser publicado”, disparou, na sequência.

Da esquerda para a direita, Jonathan Norman, Andy Lassner, Kevin Leman, Ed Glavin e Mary Connelly no “Emmy Awards 2015”. Jonathan, Kevin e Ed receberam acusações de ex-funcionários (Foto: Getty)

Ed Glavin, produtor executivo

Entre as várias acusações reportadas ao site, cinco ex-funcionários alegaram que o produtor executivo Ed Glavin os tocou de formas que os deixaram desconfortáveis, seja fazendo carinho nos ombros deles, ou colocando a mão em volta da cintura. Dezenas das pessoas que conversaram com o Buzzfeed também disseram que Glavin “tinha a reputação de ser ‘mão boba’ com as mulheres”, especialmente na sala de controle. Ele também lidava com sua equipe através de medo e intimidação.

“Você definitivamente conseguia ver o fator estranho e os toques estranhos. Isso acontecia abertamente para qualquer um ver”, declarou uma mulher que dizia que Glavin encostava nela regularmente. “Obviamente ninguém quer isso e ninguém quer ser tocado por alguém desconfortavelmente, mas você não quer irritar alguém e ser demitido, então era uma cultura de medo”, completou ela.

Outra funcionária disse que Glavin chamava produtoras e assistentes para sentarem perto dele, enquanto o programa gravava quadros nos quais eles trabalharam e, na frente de quase 30 outras pessoas, ele as tocava inapropriadamente.

“Mesmo sendo abusada constantemente no trabalho, o fato de Ed colocar os braços ao redor de você na sala de controle era a experiência mais legal que você tinha todo dia, por mais complicado que isso possa soar. Mas você tinha passado a noite chorando e agora seu quadro estava indo bem… e então você sente que ganhou créditos por algo diretamente do produtor executivo. Aquele gracejo amigável acompanhado de uma mão amigável”, descreveu ela.

Procurado, Glavin não respondeu aos pedidos para comentar as acusações. Ao todo, 47 ex-funcionários falaram que ele liderava com medo e intimidação. Um deles disse que, quando entregou seu aviso de demissão, Ed derrubou uma mesa e uma cadeira enquanto gritava. “Parecia que era para mostrar poder, mais do que tudo”, descreveu.

Cinco ex-membros da equipe contaram que viam o produtor usando um botão na sua mesa para bater sua porta remotamente como uma “tática de intimidação” durante broncas. Outros ainda disseram que se sentiam desconfortáveis pelo fato dele usar um chuveiro particular no banheiro de seu escritório.

“Você entrava na sala para uma reunião importante e a porta do chuveiro estava aberta e você ficava, tipo, ‘isso é meio estranho’. O chuveiro é assim que você entra, à direita. Antes mesmo de você ver a mesa, você vê o chuveiro. Ele tomava banhos abertamente e depois ia para reuniões com o cabelo molhado”, descreveu um dos entrevistados.

O “The Ellen DeGeneres Show” continua sendo alvo de acusações sobre o ambiente de trabalho (Foto: Reprodução/Youtube)

Jonathan Norman, co-produtor executivo

Outro chefe que teve seu nome envolvido em acusações foi o co-produtor executivo Jonathan Norman. Um ex-funcionário relatou que, por um certo período, era paparicado por ele com ingressos de shows e outros benefícios no trabalho e, então, em uma noite, Jonathan tentou fazer sexo oral nele. Três outros entrevistados confirmaram a história, revelando que o homem falou para eles sobre o incidente na época.

“Nós somos jovens construindo nossas carreiras e que, infelizmente, fomos sujeitados a um ambiente de trabalho tóxico como nossos primeiros trabalhos após a faculdade. E alguns de nós são assediados e é isso que está moldando nossas carreiras no primeiro ano longe dos estudos”, descreveu ele.

Em um comunicado ao “Buzzfeed”, Norman disse que “nega categoricamente e 100% as alegações”. “Eu nunca tive uma única reclamação contra mim na minha carreira. Eu nunca ‘papariquei’ qualquer pessoa. Eu nunca fiz qualquer coisa para machucar outro membro da equipe. Nunca. A pessoa que eu imagino que falou isso tem motivos ocultos para derrubar o programa e está agindo com malícia sobre isso”, declarou o executivo.

Sobre as reclamações, ex-funcionários apontaram que não havia um processo formal para fazer acusações de forma confidencial e que os produtores seniores os pressionavam para não ir ao RH ou denunciar para a Warner Bros. “Não havia nada do tipo ‘conversa confidencial’. Não havia nenhuma direção clara do que fazer se algo acontecesse com você e nenhuma garantia de que você não sofreria retaliação”, declarou um ex-membro da equipe.

Conduta da Empresa

Um ex-funcionário da Warner Brothers que trabalhava no “The Ellen Show” disse que a empresa “fecha os olhos” para a má conduta porque o programa é como “uma vaca leiteira”. “A Warner Brothers tem uma responsabilidade não apenas com as pessoas que trabalham no programa, como também com os telespectadores e acionistas para garantir que as pessoas sejam protegidas no trabalho e que não sejam assediadas e que não estejam trabalhando em um ambiente tóxico e pouco saudável”, cobrou uma das pessoas entrevistadas.

Desde a semana passada, no entanto, após as primeiras alegações publicadas pelo “Buzzfeed News” a Warner Bros. iniciou um inquérito para investigar o ambiente de trabalho no estúdio. Em um comunicado publicado na quinta-feira (30), o estúdio disse que “esperava determinar a validade e extensão das acusações reportadas publicamente e entender a completa profundidade da cultura diária do show”.

“É importante tanto para a Warner Bros. como para a Ellen que o máximo de pessoas possíveis ligadas ao programa possam ser ouvidas. O Ellen DeGeneres Show é, e sempre almejou ser, um lugar que traz positividade para o mundo. E apesar de nem todas as acusações terem sido corroboradas, nós estamos desapontados que os primeiros achados da investigação indicaram algumas deficiências ligadas à gestão do dia-a-dia do show”, declarou a empresa.

“Nós identificamos várias mudanças na equipe, junto com medidas apropriadas para falar sobre os problemas que foram criados e estamos dando os primeiros passos para implementá-las”, adiantou a Warner Bros. em nota.

Segundo funcionários, Ellen prefere não saber o que acontece nos bastidores (Foto: Reprodução/Youtube)

Percepção de Ellen DeGeneres

Alguns dos ex-funcionários disseram que não acham que a apresentadora saiba tudo o que acontece nos bastidores do programa porque ela não passa muito tempo no escritório ou interagindo com a equipe para ter alguma sensibilidade sobre a cultura. Eles também acreditam que os produtores executivos a “isolam” de detalhes ou do controle da narrativa no set.

“Todo mundo age de forma diferente ao redor dela. Há um programa que está acontecendo nos bastidores, o programa que os produtores executivos mandam a gente fazer para ela quando ela vem para o escritório”, declarou um ex-trabalhador.

No entanto, outros refletiram que não é plausível que Ellen não tenha sido exposta a algumas histórias e comportamentos, especialmente quando envolvem executivos seniores com quem ela passa a maior parte do tempo. “Para alguém que está tão envolvida no show e no aspecto criativo, e tem tido tantas reuniões com ela, é difícil para mim assimilar o fato de que ela não ouve os cochichos. A não ser que ela realmente esteja em uma bolha”, ponderou uma ex-funcionária que trabalhou de perto com DeGeneres.

Outra funcionária que passou anos trabalhando perto dela disse que a anfitriã “não quer saber” sobre o que acontece atrás das cortinas, e “ninguém quer envolvê-la” porque ela é essencialmente a marca do programa. “Ela sabe. Ela sabe que as coisas acontecem, mas não quer ouvir”, disse.

Desde que as acusações vieram à tona e a investigação interna da empresa começou, no entanto, Ellen enviou uma carta aberta aos funcionários, pedindo desculpas e prometendo se envolver mais. Clique aqui para ler a íntegra.